domingo, 23 de dezembro de 2012

Frescuras

A reportagem da rádio falava de uma balbúrdia que a reforma autárquica motivava. Em Oliveira do Hospital arrasta-se de tempos imemoriais uma disputa entre as Freguesias de Alguidares-de-Baixo e Alguidares-de-Cima. A reportagem não explicava porque e eu duvido que sequer os contendentes o saibam mas os povos dos dois lugarejos têm azedume recíproco que é perene ainda se moldável às modas do tempo a passar. Quer isto dizer que no séc XVIII havia de rodar o varapau se acaso se cruzavam e que hoje em dia  os adeptos de uns vêm corridos à pedrada se o clube da terra joga fora na casa do outro. Em todo o caso o resultado é comum: cabeças partidas...

E o problema agora é que com a reforma do mapa autárquico as freguesias rivais, que até se gabam de outros tempos em que ambas já foram Concelho, permanecem freguesia e para que o ocaso dessas memórias nobres se ensombre ainda mais passam a ser só uma. E agora? Bom, todos continuam a dizer que se odeiam mas agora parece que se odeiam um bocadinho menos porque passam a ter uma coisa em comum: odeiam ambos o governo que lhes faz esta maldade de os obrigar a viverem mais juntos. Presidentes-da-Junta, trolhas e campeões de bilhar de ambos os lados da trincheira concordam que é maldade! "Não temos nada contra o bom povo de Alguidares de Baixo que não tem culpa nenhuma nesta decisão escandalosa. Estamos solidários com eles e se não gostamos uns dos outros e nos entendemos assim quem são esses senhores de Lisboa para vir cá mexer nisso?"

E eu fico a pensa, claro...

Não é que eu goste muito do Governo...            ... mas estes palermas fazem-me lembrar outra história palerma.

Corria o ano da Graça do Senhor de dois mil e troca o passo. O Estado andava a construir estádios para o Euro 2004 e algumh herege aventou da possibilidade de Benfica e Sporting partilharem um só estádio municipal a bem das contas públicas. Sacrilégio! "Alguma vez?"; "Isso é mesmo não se conhecer os sentimentos das pessoas!" - Ah e tal, rebéu-beu, pardais ao ninho! Os rivais da segunda circular concordavam que discordavam da heresia...

Construíram-se dois estádios. O resto é História. O futebol português vive numa fantasia eternamente endividada, o Estado português faliu, mais dia menos dia, diz que, pelo menos um dos estádios da prodigalidade implodiu e a paciência de quem tem dois dedos de testae não é pelo Benfica nem pelo Sporting, nem de Alguidares de Cima nem de Baixo...             ... vai acabando...            ... mesmo se isso não nos serve de muito porque continuamos a pagar os Estádios e tudo e tudo e tudo.

E isto tudo para dizer a Alguidares (de Baixo e de cima é passado) que se entendam. Ou então paguem a briga do próprio bolso.

Vai faltando a pachorra para frescuras de tesos.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Alegoria da gata

A graçola da gata Marta que se fez rápido minha favorita é que gosta de jogar às escondidas. Eu explico. Desde pequenina, podia estar na sua languidez de gata persa e soberba mas havia um sinal que a despertava para a traquinice: que a espreitasse com olhar predador por um ângulo de olhares cruzados quase impossível, corpo escondido, como quem diz: "Desafio-te!" - A Marta percebia e empinava as orelhas, os olhos cresciam em negro e saltava logo para uma posição estratégica de caçadora. A presa era eu. E era como se dissesse "Desafio aceite. Vou-te ensinar como é!" - E começava o jogo. Nunca ninguém inventou ou explicou realmente ao outro as regras mas ambos as sabíamos. A ideia era enganar o outro. E aparecer de onde menos esperasse e dar-lhe um safanão. Valia um ponto. Depois cada um foge novamente para o seu canto e começa tudo de novo. A Marta ganhava quase sempre mas roubei-lhe com orgulho imenso vitórias raras.

A Marta agora tem quase dez anos. Com o tempo esqueci-me destes jogos com ela em que gatinhava e rastejava escondido entre os móveis. Calculei que ela já não brincasse. Ou esqueci-me que brincava e que eu brincava e que ambos nos divertíamos imenso. Ontem lembrei-me. Estava triste e cansado e algo em mim mo lembrou. A Marta preguiçava em cima da cama e eu pensei "Deixa cá ver..." - escondi-me e olhei-a furtivo. Eh caraças, a gata passou-se. Assim como quem diz "Estamos de volta!" - A gata Mya junta-se à festa e é a risota. Os gatos não sabem rir, bem sei. Mas aposto só não se riram por isso mesmo.

E eu fiquei ali a afagar a pança dos bichos e a pensar na ironia das coisas. Às vezes temos algumas das coisas de que mais gostamos. Estiveram sempre lá, à mão de semear todo o santo dia. Nós é que nos esquecemos um bocadinho disso na rotina das coisas áridas que nos insinuam amnésias que nos desarmem ainda mais. Mas lembremos-nos, porra, lembremos-nos com força para ver se nos esquecemos menos e sobretudo para ver se não nos esquecemos de vez. O melhor está tantas vezes já connosco. Panças de gato e sorrisos francos que nos convidam para dentro da nossa própria vida e tanta, tanta coisa que já me estou a esquecer de novo.

Ao início pensei que fosse só uma piada da gata que nem fosse escrever sobre ela. Depois vi-lhe qualquer coisa de metáfora. Mas foi preciso chegar a estas últimas palavras para perceber que era algo que nem pensava escrever-vos este ano. Uma mensagem que termina sempre pouco mais ou menos da mesma forma.

Feliz Natal.




segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cânticos

Eu quando olhei para eles não pude deixar de me rir da ironia das coisas. Mas não, para que percebam tenho que recuar, tenho mesmo. E nem é muito. Meia dúzia de horas.

Eu vinha de casa do Zé e do Joe. Uma pequena tribo de amigos juntara-se no apartamento deles na Graça para festejar o Natal dos amigos. E a verdade é que ali se respirava uma certa perfeição, daquelas que encontramos em anúncios de whisky e sitcoms. Sabem? Aquelas aguarelas de grupos de amigos cheios de personagens engraçados em que longe de cada pincelada ser perfeita, longe disso que nem isso tinha graça, o quadro, como um todo, é de uma harmonia formidável, assim qualquer coisa como o Zé não desdenharia pintar. E eu lembrava-me de um episódio especial de Natal do Glee em que, lá está, o grupo de amigos giros se reúne para a Consoada em versão de comédia musical. E lembrava mesmo! O Zé ia trazendo as fornadas de bolinhos de chocolate do forno e uns quantos procuravam com uma patetice saudável a receita da Caipirinha ideal da Bimby. Mas a maior parte estavam à volta do piano. O Joe oferecia o seu concerto muito privado e muito especial de Natal aos amigos e o resto do coro esforçava-se.

E era assim.

E agora que já vos pintei a aguarela de postal de Natal, avançamos de novo. O Rui regressa a casa. É quase meia noite de uma noite fria e deserta de quase Inverno. Passo o Miradouro e vou a chegar ao Quartel dos Bombeiros. A uns bons metros já ouço o coro das vozes. É uma chinfrineira nasalada que ecoa. Se tivesse que traduzir a coisa numa onomatopeia dir-vos-ia que era um "aiaiaiaiaiaiaiaaiaiaia" repenicado. E se quiser explicar melhor direi que soava vagamente como o refrão dolente da balada melosa "I should have known better do Jim Diamond, ou talvez com um cântico flamenco mas sem se parecer realmente com nenhum ou tampouco soar bem. E se quiserem que vos explique melhor ainda...       ... não consigo!

E eu lá segui com o olhar a pista do que ouvia e lá estavam eles. Dois artistas maltrapilhos, sentados nas escadas do quartel, de garrafa de pinga a mielas. À distância não consigo perceber exatamente se são sem-abrigo, mitras ou simples "mal vestidos". Nem percebo se aquilo é muita alegria ou tem muito de piela. Não sei. Mas estão encantadíssimos com os harmónicos do coro fandango. Gole na garrafa e recomeça o chinfrim.

Eu passo ao largo com um sorriso. Lembro-me da festa dos amigos e das bolachas do Zé e da voz swingada do Joe. Lembro-me, comparo-as a olho, sorrio.

Há muitas vidas, muitas Lisboas. Que diabo, até há muitas Graças!