sábado, 22 de dezembro de 2012

Alegoria da gata

A graçola da gata Marta que se fez rápido minha favorita é que gosta de jogar às escondidas. Eu explico. Desde pequenina, podia estar na sua languidez de gata persa e soberba mas havia um sinal que a despertava para a traquinice: que a espreitasse com olhar predador por um ângulo de olhares cruzados quase impossível, corpo escondido, como quem diz: "Desafio-te!" - A Marta percebia e empinava as orelhas, os olhos cresciam em negro e saltava logo para uma posição estratégica de caçadora. A presa era eu. E era como se dissesse "Desafio aceite. Vou-te ensinar como é!" - E começava o jogo. Nunca ninguém inventou ou explicou realmente ao outro as regras mas ambos as sabíamos. A ideia era enganar o outro. E aparecer de onde menos esperasse e dar-lhe um safanão. Valia um ponto. Depois cada um foge novamente para o seu canto e começa tudo de novo. A Marta ganhava quase sempre mas roubei-lhe com orgulho imenso vitórias raras.

A Marta agora tem quase dez anos. Com o tempo esqueci-me destes jogos com ela em que gatinhava e rastejava escondido entre os móveis. Calculei que ela já não brincasse. Ou esqueci-me que brincava e que eu brincava e que ambos nos divertíamos imenso. Ontem lembrei-me. Estava triste e cansado e algo em mim mo lembrou. A Marta preguiçava em cima da cama e eu pensei "Deixa cá ver..." - escondi-me e olhei-a furtivo. Eh caraças, a gata passou-se. Assim como quem diz "Estamos de volta!" - A gata Mya junta-se à festa e é a risota. Os gatos não sabem rir, bem sei. Mas aposto só não se riram por isso mesmo.

E eu fiquei ali a afagar a pança dos bichos e a pensar na ironia das coisas. Às vezes temos algumas das coisas de que mais gostamos. Estiveram sempre lá, à mão de semear todo o santo dia. Nós é que nos esquecemos um bocadinho disso na rotina das coisas áridas que nos insinuam amnésias que nos desarmem ainda mais. Mas lembremos-nos, porra, lembremos-nos com força para ver se nos esquecemos menos e sobretudo para ver se não nos esquecemos de vez. O melhor está tantas vezes já connosco. Panças de gato e sorrisos francos que nos convidam para dentro da nossa própria vida e tanta, tanta coisa que já me estou a esquecer de novo.

Ao início pensei que fosse só uma piada da gata que nem fosse escrever sobre ela. Depois vi-lhe qualquer coisa de metáfora. Mas foi preciso chegar a estas últimas palavras para perceber que era algo que nem pensava escrever-vos este ano. Uma mensagem que termina sempre pouco mais ou menos da mesma forma.

Feliz Natal.




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