segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cânticos

Eu quando olhei para eles não pude deixar de me rir da ironia das coisas. Mas não, para que percebam tenho que recuar, tenho mesmo. E nem é muito. Meia dúzia de horas.

Eu vinha de casa do Zé e do Joe. Uma pequena tribo de amigos juntara-se no apartamento deles na Graça para festejar o Natal dos amigos. E a verdade é que ali se respirava uma certa perfeição, daquelas que encontramos em anúncios de whisky e sitcoms. Sabem? Aquelas aguarelas de grupos de amigos cheios de personagens engraçados em que longe de cada pincelada ser perfeita, longe disso que nem isso tinha graça, o quadro, como um todo, é de uma harmonia formidável, assim qualquer coisa como o Zé não desdenharia pintar. E eu lembrava-me de um episódio especial de Natal do Glee em que, lá está, o grupo de amigos giros se reúne para a Consoada em versão de comédia musical. E lembrava mesmo! O Zé ia trazendo as fornadas de bolinhos de chocolate do forno e uns quantos procuravam com uma patetice saudável a receita da Caipirinha ideal da Bimby. Mas a maior parte estavam à volta do piano. O Joe oferecia o seu concerto muito privado e muito especial de Natal aos amigos e o resto do coro esforçava-se.

E era assim.

E agora que já vos pintei a aguarela de postal de Natal, avançamos de novo. O Rui regressa a casa. É quase meia noite de uma noite fria e deserta de quase Inverno. Passo o Miradouro e vou a chegar ao Quartel dos Bombeiros. A uns bons metros já ouço o coro das vozes. É uma chinfrineira nasalada que ecoa. Se tivesse que traduzir a coisa numa onomatopeia dir-vos-ia que era um "aiaiaiaiaiaiaiaaiaiaia" repenicado. E se quiser explicar melhor direi que soava vagamente como o refrão dolente da balada melosa "I should have known better do Jim Diamond, ou talvez com um cântico flamenco mas sem se parecer realmente com nenhum ou tampouco soar bem. E se quiserem que vos explique melhor ainda...       ... não consigo!

E eu lá segui com o olhar a pista do que ouvia e lá estavam eles. Dois artistas maltrapilhos, sentados nas escadas do quartel, de garrafa de pinga a mielas. À distância não consigo perceber exatamente se são sem-abrigo, mitras ou simples "mal vestidos". Nem percebo se aquilo é muita alegria ou tem muito de piela. Não sei. Mas estão encantadíssimos com os harmónicos do coro fandango. Gole na garrafa e recomeça o chinfrim.

Eu passo ao largo com um sorriso. Lembro-me da festa dos amigos e das bolachas do Zé e da voz swingada do Joe. Lembro-me, comparo-as a olho, sorrio.

Há muitas vidas, muitas Lisboas. Que diabo, até há muitas Graças!

Sem comentários:

Enviar um comentário