quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fator C (analha)

O último fait diver é o da Vera Ferreira. Metade da malta insurge-se, outra metade não se insurge e um número preocupante de malta defende a Vera.
 
Porquê?
 
Ontem lia alguém que dizia: "E depois? Fez ela bem. Se calhar não aproveitávamos também se tivéssemos cunha, se calhar!?"
 
É mais uma versão do nacional porreirismo dos muitos que dizem "Ele roubou mas ao menos roubou mas também fez!"
 
Há dias lia que os valores de Estado Social nunca vingaram nos Estados Unidos porque todos os americanos no seu individualismo acreditam no sonho. Mesmo os pobres, acham-se milionários numa situação complicada transitória.
 
Os portugueses são parecidos. Somos todos gajos com amigos que provisoriamente não nos estão a conseguir dar uma mãozinha.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Salvo pelo malho

Um gajo estava deserto de uma crónica. Prestes a falar sobre um outro disparate qualquer que em rigor não o convencia. Eis que se move a divina Providência. Na verdade não foi a Divina Providência, foram as Hidden Chronicles. O Rui já topou que esta é a mais recente verve dos joguinhos do Facebook, assim uma espécie de Farmville requentado para o ano de 2012. Não jogou, claro, nunca sentiu necessidade de conhecer algo antes de falar mal.

E eis que entre a "n" mensagens de Hidden Chronicles que lhe pululam no Facebook aparece esta.

As coisas estão pesando para o lado de "Fulana"

Fulana está trabalhando os músculos com um malho pesado. Envie um malho pesado para ajudar e receba outro em troca.
Explore beautiful scenes, find clues, and solve the mystery of Hidden Chronicles, the world's most social hidden object game.

 · Obter malho pesado · há 28 minutos através de Hidden 






Fiquei chocado, claro.

Achava realmente que se tratava de um joguinho familiar!

O mundo está perdido...

... e a fulana devia ter vergonha!



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Parvoíces anoréticas - uma crónica de peso

A Margarida Rebelo Pinto ou há-de ser muito parva ou muito sabida. As chachadas do sexo mais a cidade, não fosse o diabo tecê-las de já não venderem, diz-se uma alarvidade polémica e para o dizer mal ou pensar bem o público lembra-se de que existimos. Se fosse o Ricardo Araújo Pereira, todos achávamos graça. Mas é diferente, é humor, é suposto ser lido numa matemática quase absolutamente contrária das ironias. A Guida quereria fazer humor? Se calhar era e se pensarmos bem tinha graça, basta imaginarmos que o dissesse com aquela voz nasalada dos bonecos do Ricardo.

Mas eu acho que ela não queria fazer humor. Queria fazer uma das sua crónicas vagamente cruas, vagamente doces, vagamente mordazes. Só que a Margarida é vagamente parva, vagamente magra demais. Seja como for chateou vagamente as gordinhas. Porque elas ficam chateadas, claro.Só nos romances da Margarida e eventualmente nos círculos de gente esquisita com que ela se dá é que as gordas mandam no mundo. E aposto que nem aí o mundo deixa de sublinhar às gordas-todas-poderosas todo o santo dia que estão gordas. Podia-se aliás escrever um compêndio só de formas desagradáveis com que as pessoas insistem em dizer umas às outras que estão gordas. Alguns dizem-no por palavras simples e apostam tudo no ênfase de arrastar as sílabas "Estás tão goooooorda!" - há os que são mais poéticos. Lembro-me da amiga que dizia que alguém dissera à mãe assim do nada e à queima-roupa como quem diz "Bom dia". Mas não disse "Bom dia"...        ... disse, "Credo, estás tão gorda, estás do tamanho da Sé de Braga." As variações são muitas e são todas desagradáveis. Lá está, a Guida é parva mas não o exclusivo da coisa.

A vida é feita de ironias e coincidências. Eu gosto de ambas. Digo isto porque há semanas vinha de regresso de uns dias em Espanha. Distraía a viagem de regresso num debate de rádio espanhol. Era justamente sobre obesidade e discriminação social. Às tantas ligou para lá um rapazinho. Era o Juan de Alicante. Apresentou-se, explicou que estava em recuperação de uma situação de anorexia e vinha trazer o outro lado do debate de que ninguém fala. Todos se preocupam com os obesos e têm pena dos obesos e pessoas como ele eram muito mais discriminadas. Só porque era magro todos o olhavam de lado. Mas perguntava o Juan, não seria pior aquela gente toda gorda, com aquelas massas adiposas pendentes, os miúdos gordos a enfartarem-se de doces por todo o lado. Isso sim era repugante!  - o o moderador percebeu que tinha mais um maluco em linha e cortou-lhe a palavra. Pobre Juan, estava menos curado do que pensava...

Só que o Juan era só um gajo perturbado que roubou dois minutos de voz num fórum de rádio. A Margarida cá tem mais tempo de antena, é escritora e cronista. Pode até ser má mas vende que se farta. Isso é grave? Eu por acaso até acho divertido. Mas que devia ter mais bom senso. Lá isso...

Cidadania de quatro patas

Um gajo andar a fazer a apologia da cidadania e ser ele próprio meio apático pesa um bocado. Mas hoje inscrevi-me na União Zoófila. Ter dado esse passo antes de me ter dado jeito para descontos "Médis-Pulguenta" teria sido mais abnegado. Ainda assim, senti-me bem.


A revolução ao centro

Há pouco lembrei-me de um velho tique meu - gajo vagamente obsessivo-compulsivo que sou. Às vezes fico confuso, sinto-me desorganizado e desconfortável. Nesses momentos tenho a necessidade de destruir tudo e fazer de novo. Em coisas pequenas como a organização dos móveis cá em casa ou de um projeto qualquer de trabalho. A mais das vezes não era preciso tanto. Ao arrasar e reconstruir quase sempre só perdi tempo e provavelmente não fiz melhor. Pelo menos não fiz melhor do que teria feito sem esta propensão para a estaca 0.

E pensei nestas coisas ao pensar na necessidade de reinventar a pólvora das utopias. As utopias morrem sempre a meio. São diligentes a arrasar o Cosmos. E são voluntariosas no detalhe com que reconstroem o primeiro dia de um admirável Mundo Novo. Depois? Depois o cancro instala-se sempre de novo na argamassa da carne da sociedade e a urbe torna-se de novo iníqua como fora antes de os Nossos ganharem a Guerra.

Estas alegorias entre os meus tiques pessoais vieram todos a propósito de uma conversa com o Jaime. Dizia-lhe que para entender os outros normalmente penso em mim e dou um desconto. Podemos todos fazer o mesmo. Nunca somos mais do que variações dentro da média. Com margem de erro, claro, mas se nos percebermos, percebemos os outros. Vice versa também resulta.

Mas a conversa com o Jaime não era sobre psicologias de trazer por casa. Falávamos do estado a que chegámos. O Jaime indignava-se da nossa apatia de não arder quando as coisas iníquas nos incendeiam. Foi então que me recordei do que o Nuno me dizia há tempos numa conversa semelhante: nós não precisamos de revoluções nem de partidos novos. Precisamos de tomar os partidos que já existem. Por dentro. Inscrevendo-nos, militando, em massa, arrastando as pessoas de bem em que confiamos atrás de nós. Fazendo a revolução por dentro com o peso das maiorias.

Aquilo na altura fez-me sentido. E hoje de repente, mais do que isso, foi como uma pancada que me acordou com tanta força que quase fazia perder os sentidos.

Nós não precisamos de nenhuma revolução. Precisamos é de exercer a nossa cidadania e impedir que agendas obscuras ganhem espaço para as suas revoluções, Deus nos livre dessas. Porque essas colocam em causa a nossa liberdade e a democracia que ainda temos. Às vezes diz-se que já não, que não há democracia. Mas são hipérboles, figuras de estilo. Porque há! Porque no dia em que a perdermos, acreditem em mim, vão perceber. O nosso problema é outro, o nosso problema é a apatia de não exercermos a nossa democracia e deixarmos que outros a monopolizem como brinquedo do seu umbigo. Não é só não votar! É não pensar. É não levarmos as nossas próprias ideias a sufrágio. A democracia exerce-se a muitos níveis. E exerce-se sobretudo na expressão da iniciativa e da vontade. Porque não é possível fazer fantoches de vontades despertas.

Não precisamos realmente de mudar o sistema. Apenas de o exercer.

O Nuno tinha razão.



domingo, 26 de agosto de 2012

A Praia Engajada


Há bocadinho primeiro estranhei-me, depois perturbei-me um pouco depois ri-me, depois não sei.

Nem sabia que tinha entre os meus "gostos" do Facebook a Praia do Meco. Tinha. E até aqui tudo bem. Gosto do Meco. Não sabia era que o Meco é politicamente engajado. Pelos vistos é porque publica fotos do Professor Salazar e tece considerações, lá está, engajadas. E é estranho. Quer dizer, não me parece que seja muito curial eu angariar uma legião de "gostos" com uma página mais ou menos unânime, sei lá "Bota like se gostas de arco-iris abelhinhas" e depois, "pumbas", publicação quando a coisa ganha visibilidade "Em cada tripeiro há um paneleiro!"

O certo é que estas coisas me perturbam. Estes tempos agitados de descontentamento e ponta de medo e tentações radicais mais afoitas a darem a cara. Até se percebe. Quando algures nas águas mornas do centro se multiplicou uma fauna  parasitária e corrupta às tantas pensamos que algures em qualquer extremo esteja a salvação. O problema é que a História nos diz que nos extremos esteve quase sempre foi sangue. Primeiro sangue. Depois? Bom, depois os parasitas são bichos adaptáveis. A História também diz que se dão bem nos extremos sejam de esquerda ou de direita. Mudam os nomes, claro. Deixam de se chamar boys e clientes e passam a ter patente militar ou cargo do partido ou o nome da família certa. Pouco importa. Em qualquer caso estão sempre lá e procriam que nem coelhos. É...

Mas também vos disse que me ri. Pois ri...              ... Foto do Salazar? Pela Praia do Meco?  Tinha que dar em debate. A esgrimir as parvoíces dos costume e as sensatezes que nos vão tranquilizando de que o mundo não está completamente perdido. Às tantas alguém usava um dos argumentos mais simples e óbvios da democracia. "Já viste que com Salazar não podíamos estar aqui a debater?" - E alguém respondeu logo qualquer coisa como "Lá vêm de novo com esse mito. Ainda estou para conhecer alguém que realmente tivesse sido perseguido pelo Estado Novo por ter uma opinião diferente."


... o Rui pensa "Foda-se..."

Nem é uma questão de se ser de esquerda ou de direita ou preto ou branco. No fundo até podemos levar o debate para a questão quase cínica de que às vezes os fins talvez justifiquem os meios e de que a liberdade e a dignidade de cada um é um valor sacrificável à construção de uma utopia qualquer.

Mas haja o mínimo de pudor. Ou  de honestidade, ou de cultura. Sei lá...

Em todo o caso, num espécie de paradoxo, são gajos assim que encerram a ponta de razão da evidência de que a democracia talvez seja um sistema demasiado imperfeito: dá voz aos imbecis.

Ai, ai, dói-me a alma. Sim, ri-me, perturbei-me de novo.

Depois?

Depois não sei...



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Satélites

Espero por ti junto à paragem. Percebi recentemente que ali, exatamente ali, a pedra exala um odor fétido de urina. Como que a dizer "aqui é dos filhos da cidade que a cidade não quer.". Na paragem mesmo em frente um doido varrido reclama com o vazio. Tu virás lá mais do fundo e sorrirás, mas ainda não. Agora é ali em frente e o alienado disputa-se com a má sorte, olhos nos olhos. Nós só não a vemos porque doidos mesmo seremos nós. O pobre abispa-se em desafio e ergue-se em bicos de pés para parecer maior que a sua pequenez. É por isso que noto que só calça meias. De resto está ali a medir-se. Está só ali. Eu também, apenas em dimensões diferentes. Eu não vejo a má sorte e ele não me vê a mim. E só me consigo libertar do encanto desta visão desolada quando o ciclista me passa de raspão. O pensamento sacode-se ao flashback fresco de há minutos atrás no banco do jardim. A mulher dos sacos pede-me dinheiro para uma lata de atum. Disse que não e depois aquilo amargou-me na boca. Porque é que não voltei atrás? Nem sei. Mas lembrei-me da mulher dos sacos e de Almada há muitos anos. Palmilhava a cidade imersa no seu capote, a arrastar os sacos. Primeiro lembro-me dela gentil. A lenda urbana contava-se de uma professora de piano com um fado triste e eu não sabia se assim era mas aquilo assentava-me aquela velha de rosto fino. Mas depois o tempo cicatrizou-se no desgaste e numa velha sempre com os sacos mas com o olhar vazio que rosnava palavrões aos fedelhos que a provocavam. Depois? Depois não sei, depois esqueci-me. Esqueci-me mesmo. Até que hoje me lembrei. Como não lembrar num fim de tarde assim triste? A cidade parece que cozinha qualquer coisa em desesperança. Só não sei o quê.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prognósticos para o casório

Hoje a falarmos de bodas lembrei-me da história da amiga que foi convidada para "aquele" casamento. Ficou meio surpreendida. Não eram assim tão íntimos. Mas lisonjeada e inclinada a dizer que sim. Só que o Demiurgo que não gosta dos apaixonados quis que por artes que para aqui pouco importam esbarrasse numa listazinha de convidados. A primeira coluna tinha o nome de cada pessoa e a segunda aquilo que era claramente o prognóstico de prenda. E lá estava o seu nome, eleito como uma das algibeiras que alimentavam maiores expetativas de prodigalidade.

O Lumbrales dizia que o avô em certa ocasião percebeu a mesma esparrela. Mandou apenas flores. Caras para que a expetativa não se gorasse de todo.

A minha amiga acho que simplesmente não foi.

E todos viveram felizes para sempre.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A minhoca do Pedro

Opá, eu tenho lá culpa que ultimamente estas coisas me caiam ao colo?

Vinha a sair da Picasso e passei por aquelas quatro moças sentadas a almoçar na esplanada. Quatro moças de ar fino, que é como quem diz beto, a dar ares de gente da área financeira ali dos arredores. E no esgar da minha passada de regresso ao trabalho emboscar a conversa delas apanhei uma frase solta.

"E a minhoca do Pedro? É que parecia mesmo uma minhoca!"

Girls will be girls. Mesmo se têm ar fino. As conversas são sempre mais surreais que as nossas. Que as minhas pelo menos.

Podiam sempre estar a falar da assinatura.

Claro que podiam!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um 112 chamado desejo

Um gajo está à espera do 112 que nos deixará na Graça. Saiu tarde  do escritório, são oito e meia e é Agosto. Lisboa está deserta. E estranha. Se não fosse que está calor dir-se-ia Outono. Tempo cinzento e uma chuva parva. Enfim. Esperamos pelo  112. E somos só dois na paragem. Aquela que sobe a Duque de Loulé, logo a seguir ao Marquês. Eu estou entretido a mexer no telemóvel. A moça à minha frente está simplesmente com ar enfadado. Até que a Divina Providência nos salva da pasmaceira. Das nossas costas emerge um urro de êxtase. Aquilo não foi um gemido, aquilo foi "o" gemido. Houve porcos que foram à matança com mais tranquilidade. Só que ali não é dor, é prazer. Na cave mesmo nas nossas costas alguém se entrega às delícias da carne. Mas como nunca antes visto - ou melhor, ouvido-. Aquele gemido soltou-se tão alto e continuado que parece que foi desabafado ao microfone. Para mais a janela estava aberta. Deve-se ter ouvido até à Gomes Freire, lá bem em cima. Nós pelo menos ouvimos lindamente. Olhamos-nos mutuamente e desmanchamos-nos a rir, na cumplicidade de desconhecidos. Vem uma mão apressada empurrar a janela a tentar fechar. Má sorte, aquilo faz ricochete no caixilho e volta para trás o suficiente para   que continue o circo. Ouve-se menos é certo...              ... mas agora eu já estou à coca. Repetidamente voltam os urros. Talvez já não se ouça na Gomes Freire mas eu ali ouço lindamente e estou morto de riso. Por voyeurismo gratuíto, claro. Mas também porque é o gajo que geme que nem um porco. Normalmente é ao contrário, acho eu, sei lá. Ou não, tinha um vizinho que era o mesmo. Na volta é moda. Com cadência matemática, assim tipo compasso quaternário, o tipo volta a querer urrar e de repente morre-lhe sempre a voz. Claramente há alguém que lhe tapa a boca. Já estou a ver o filme todo...            ... a gaja amordaça-o e diz-lhe "Cala-te meu grande parvo, já vamos ter crónica quando o gajo chegar a casa, queres piorar isto? Grita o meu nome já agora, com apelido e tudo" - olha era giro...

Às tantas calam-se mesmo. Creio que pela primeira vez a ouvi a ela  "Vou mijar." - mas pode ter dito outra coisa qualquer. Ele entretanto ligou a televisão e está a ver a novela. Óbvio. Se é ele que geme que nem uma doida é natural que também seja ele que vê a novela.

O 112 já aí vem. Ainda bem, ali já nada me entretém realmente e já apetece chegar a casa.

Mas agora já sabem. Se por acaso vão para Sta. Apolónia ou assim esta é a paragem certa para esperar pelo autocarro.