quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um 112 chamado desejo

Um gajo está à espera do 112 que nos deixará na Graça. Saiu tarde  do escritório, são oito e meia e é Agosto. Lisboa está deserta. E estranha. Se não fosse que está calor dir-se-ia Outono. Tempo cinzento e uma chuva parva. Enfim. Esperamos pelo  112. E somos só dois na paragem. Aquela que sobe a Duque de Loulé, logo a seguir ao Marquês. Eu estou entretido a mexer no telemóvel. A moça à minha frente está simplesmente com ar enfadado. Até que a Divina Providência nos salva da pasmaceira. Das nossas costas emerge um urro de êxtase. Aquilo não foi um gemido, aquilo foi "o" gemido. Houve porcos que foram à matança com mais tranquilidade. Só que ali não é dor, é prazer. Na cave mesmo nas nossas costas alguém se entrega às delícias da carne. Mas como nunca antes visto - ou melhor, ouvido-. Aquele gemido soltou-se tão alto e continuado que parece que foi desabafado ao microfone. Para mais a janela estava aberta. Deve-se ter ouvido até à Gomes Freire, lá bem em cima. Nós pelo menos ouvimos lindamente. Olhamos-nos mutuamente e desmanchamos-nos a rir, na cumplicidade de desconhecidos. Vem uma mão apressada empurrar a janela a tentar fechar. Má sorte, aquilo faz ricochete no caixilho e volta para trás o suficiente para   que continue o circo. Ouve-se menos é certo...              ... mas agora eu já estou à coca. Repetidamente voltam os urros. Talvez já não se ouça na Gomes Freire mas eu ali ouço lindamente e estou morto de riso. Por voyeurismo gratuíto, claro. Mas também porque é o gajo que geme que nem um porco. Normalmente é ao contrário, acho eu, sei lá. Ou não, tinha um vizinho que era o mesmo. Na volta é moda. Com cadência matemática, assim tipo compasso quaternário, o tipo volta a querer urrar e de repente morre-lhe sempre a voz. Claramente há alguém que lhe tapa a boca. Já estou a ver o filme todo...            ... a gaja amordaça-o e diz-lhe "Cala-te meu grande parvo, já vamos ter crónica quando o gajo chegar a casa, queres piorar isto? Grita o meu nome já agora, com apelido e tudo" - olha era giro...

Às tantas calam-se mesmo. Creio que pela primeira vez a ouvi a ela  "Vou mijar." - mas pode ter dito outra coisa qualquer. Ele entretanto ligou a televisão e está a ver a novela. Óbvio. Se é ele que geme que nem uma doida é natural que também seja ele que vê a novela.

O 112 já aí vem. Ainda bem, ali já nada me entretém realmente e já apetece chegar a casa.

Mas agora já sabem. Se por acaso vão para Sta. Apolónia ou assim esta é a paragem certa para esperar pelo autocarro.



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