segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A revolução ao centro

Há pouco lembrei-me de um velho tique meu - gajo vagamente obsessivo-compulsivo que sou. Às vezes fico confuso, sinto-me desorganizado e desconfortável. Nesses momentos tenho a necessidade de destruir tudo e fazer de novo. Em coisas pequenas como a organização dos móveis cá em casa ou de um projeto qualquer de trabalho. A mais das vezes não era preciso tanto. Ao arrasar e reconstruir quase sempre só perdi tempo e provavelmente não fiz melhor. Pelo menos não fiz melhor do que teria feito sem esta propensão para a estaca 0.

E pensei nestas coisas ao pensar na necessidade de reinventar a pólvora das utopias. As utopias morrem sempre a meio. São diligentes a arrasar o Cosmos. E são voluntariosas no detalhe com que reconstroem o primeiro dia de um admirável Mundo Novo. Depois? Depois o cancro instala-se sempre de novo na argamassa da carne da sociedade e a urbe torna-se de novo iníqua como fora antes de os Nossos ganharem a Guerra.

Estas alegorias entre os meus tiques pessoais vieram todos a propósito de uma conversa com o Jaime. Dizia-lhe que para entender os outros normalmente penso em mim e dou um desconto. Podemos todos fazer o mesmo. Nunca somos mais do que variações dentro da média. Com margem de erro, claro, mas se nos percebermos, percebemos os outros. Vice versa também resulta.

Mas a conversa com o Jaime não era sobre psicologias de trazer por casa. Falávamos do estado a que chegámos. O Jaime indignava-se da nossa apatia de não arder quando as coisas iníquas nos incendeiam. Foi então que me recordei do que o Nuno me dizia há tempos numa conversa semelhante: nós não precisamos de revoluções nem de partidos novos. Precisamos de tomar os partidos que já existem. Por dentro. Inscrevendo-nos, militando, em massa, arrastando as pessoas de bem em que confiamos atrás de nós. Fazendo a revolução por dentro com o peso das maiorias.

Aquilo na altura fez-me sentido. E hoje de repente, mais do que isso, foi como uma pancada que me acordou com tanta força que quase fazia perder os sentidos.

Nós não precisamos de nenhuma revolução. Precisamos é de exercer a nossa cidadania e impedir que agendas obscuras ganhem espaço para as suas revoluções, Deus nos livre dessas. Porque essas colocam em causa a nossa liberdade e a democracia que ainda temos. Às vezes diz-se que já não, que não há democracia. Mas são hipérboles, figuras de estilo. Porque há! Porque no dia em que a perdermos, acreditem em mim, vão perceber. O nosso problema é outro, o nosso problema é a apatia de não exercermos a nossa democracia e deixarmos que outros a monopolizem como brinquedo do seu umbigo. Não é só não votar! É não pensar. É não levarmos as nossas próprias ideias a sufrágio. A democracia exerce-se a muitos níveis. E exerce-se sobretudo na expressão da iniciativa e da vontade. Porque não é possível fazer fantoches de vontades despertas.

Não precisamos realmente de mudar o sistema. Apenas de o exercer.

O Nuno tinha razão.



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