segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Parvoíces anoréticas - uma crónica de peso

A Margarida Rebelo Pinto ou há-de ser muito parva ou muito sabida. As chachadas do sexo mais a cidade, não fosse o diabo tecê-las de já não venderem, diz-se uma alarvidade polémica e para o dizer mal ou pensar bem o público lembra-se de que existimos. Se fosse o Ricardo Araújo Pereira, todos achávamos graça. Mas é diferente, é humor, é suposto ser lido numa matemática quase absolutamente contrária das ironias. A Guida quereria fazer humor? Se calhar era e se pensarmos bem tinha graça, basta imaginarmos que o dissesse com aquela voz nasalada dos bonecos do Ricardo.

Mas eu acho que ela não queria fazer humor. Queria fazer uma das sua crónicas vagamente cruas, vagamente doces, vagamente mordazes. Só que a Margarida é vagamente parva, vagamente magra demais. Seja como for chateou vagamente as gordinhas. Porque elas ficam chateadas, claro.Só nos romances da Margarida e eventualmente nos círculos de gente esquisita com que ela se dá é que as gordas mandam no mundo. E aposto que nem aí o mundo deixa de sublinhar às gordas-todas-poderosas todo o santo dia que estão gordas. Podia-se aliás escrever um compêndio só de formas desagradáveis com que as pessoas insistem em dizer umas às outras que estão gordas. Alguns dizem-no por palavras simples e apostam tudo no ênfase de arrastar as sílabas "Estás tão goooooorda!" - há os que são mais poéticos. Lembro-me da amiga que dizia que alguém dissera à mãe assim do nada e à queima-roupa como quem diz "Bom dia". Mas não disse "Bom dia"...        ... disse, "Credo, estás tão gorda, estás do tamanho da Sé de Braga." As variações são muitas e são todas desagradáveis. Lá está, a Guida é parva mas não o exclusivo da coisa.

A vida é feita de ironias e coincidências. Eu gosto de ambas. Digo isto porque há semanas vinha de regresso de uns dias em Espanha. Distraía a viagem de regresso num debate de rádio espanhol. Era justamente sobre obesidade e discriminação social. Às tantas ligou para lá um rapazinho. Era o Juan de Alicante. Apresentou-se, explicou que estava em recuperação de uma situação de anorexia e vinha trazer o outro lado do debate de que ninguém fala. Todos se preocupam com os obesos e têm pena dos obesos e pessoas como ele eram muito mais discriminadas. Só porque era magro todos o olhavam de lado. Mas perguntava o Juan, não seria pior aquela gente toda gorda, com aquelas massas adiposas pendentes, os miúdos gordos a enfartarem-se de doces por todo o lado. Isso sim era repugante!  - o o moderador percebeu que tinha mais um maluco em linha e cortou-lhe a palavra. Pobre Juan, estava menos curado do que pensava...

Só que o Juan era só um gajo perturbado que roubou dois minutos de voz num fórum de rádio. A Margarida cá tem mais tempo de antena, é escritora e cronista. Pode até ser má mas vende que se farta. Isso é grave? Eu por acaso até acho divertido. Mas que devia ter mais bom senso. Lá isso...

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