terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os enviesados

No imediato rescaldo eleitoral a tendência dos comentadores era a de que a Coligação de Direita tinha a faca e o queijo na mão. A mim rapidamente me pareceu que este era um equívoco. Se os comentadores do costume gostassem de organizar jantaradas, como eu gosto, saberiam que o Rei da festa nunca é o tipo que leva nem o bom queijo nem a faca, nem sequer o cabrito. É o gajo que tem casa para dar a festa. É o tipo com veia de RP, o pivot que tenha mais amigos. Claramente que por aí Costa estava em vantagem embora não se pudesse dizer que já tivesse ganho as eleições. Este exercício eleitoral teve isso de curioso: não se concluiu com a contagem dos votos nas urnas; concluiu-se com a contagem de espingardas no Parlamento e solidificou-se na obstinação de Costa ao não vacilar perante os abanões desesperados da Presidência da República à solidez da estrutura gisada pelo Secretário Geral do PS. Costa podia ter perdido as eleições em qualquer um destes dois momentos. Podia e era até altamente provável. Afinal o PS sabia que não tinha a fatia de leão do tal queijo, nem a faca maior. A sua vitória dependia de dar uma jantarada mais concorrida e que os convivas não roessem a corda em cima da hora - quem dá jantares também sabe que isto é muito comum. Conseguiu-o. E por isso por muito que agora os cães ladrem a Caravana do Costa passará porque hoje ganhou as eleições. Ganhou-as simplesmente porque não as perdeu e a prova disso é será Primeiro Ministro. Tudo o mais são unguentos dos derrotados a lamber feridas. Vitórias morais de quem clama que tinha o queijo maior e o cabrito e a lampreia de ovos. É verdade. Mas não chega para formar Governo.

Essa é a minha primeira conclusão.

A segunda é que somos todos reféns de oppinion makers enviesados que nos querem enviesar a todos. Por aí não há inocentes, claro. No entanto a máquina de marketing político de esquerda tem tido a vida facilitada de ter razão na questão circunscrita da legitimidade para governar. Nesse ponto é como ter o plantel do Barcelona à disposição. Desde que não sejamos inábeis, não há como perder. E nesse ponto para a esquerda foi fácil porque pura e simplesmente tem razão nessa questão de legitimidade. Não precisaria de abrir a boca que não perderia a razão por isso. Mas mesmo do ponto de vista da substância da estratégia política ser de esquerda foi fácil até ao dia de hoje. É fácil explicar todos os pontos em que a política de direita falhou porque só não vê quem não quer. É fácil dizer que se sabe como se fazer mais e melhor até ao momento em que não tenha que se demonstrar. Até aqui foi tudo fácil para a esquerda porque se ficou pelas verdades óbvias e pelas alegações fáceis. A partir de hoje é que vai ser mais difícil. Acabou-se o fantasy football com o plantel do Barcelona, a partir daqui é a sério. E com o plantel do Águias da Musgueira: Portugal portanto.

Para a direita foi tudo mais complicado. Disfarçar tudo o que correu mal na legislatura e fugir a um esperado descalabro eleitoral. Esse era o primeiro desafio e foi ultrapassado com brilhantismo. O segundo foi disfarçar que ainda não tinha realmente ganho as eleições e tentar evitar que se perdessem de todo no fim das contas. O marketing político da PAF no fim perdeu. Mas a forma como se bateu é digna dos compêndios. Por pouco não ganhou. Francamente era o que eu esperava. Como é que isso é possível? Tony Blair dizia que o essencial é uma estratégia de "Repeat and remind". Um facto suficientemente repetido aceita-se, sobretudo se nos agrada. Um facto suficientemente ignorado esquece-se. A conclusão de coisas complexas é ao fim ao cabo um processo ele próprio complexo, subjetivo, faccioso. A verdade tem muito pouco a ver com nada e foi justamente assim que Coelho e Portas quase que se renovaram no Poder. Através de uma rede de comentadores a garantirem que o país estava a recuperar e que a Direita tinha ganho as eleições. Tecnicamente? Moralmente que fosse! Uma rede de comentadores a profetizar toda uma série de armagedões às mãos da esquerda. Que a esquerda jamais se entenderia. E que se entendesse seria imoral porque não devia mas que se se entendesse esse entendimento não resistiria às pré-negociações. E se resistisse a isso não resistiria aos primeiros meses da Legislatura. E se resistisse? Então será o país que não resiste e é a ruina e no fim da contas a esquerda equivale a isso mesmo: a ruína. Dê por onde der. É fatal que tudo corra mal. É fatal que os aliados esfaqueiem Costa no Senado. É fatal que esta guinada estratégica pulverize o PS. É fatal isto, aquilo, acoloutro, é tudo fatal!

Mas é mesmo?

Justamente. Não sei. Nem eu nem os marketeiros políticos de direita. Nem os de esquerda.

São cenários possíveis e que aliás me assustam.

Na verdade se assumirmos determinadas premissas como certas não é muito difícil tirar conclusões a partir destas. A opinião de direita tem partido desse princípio. Assume micro catástrofes a partir das quais se deduz facilmente a grande e transversal catástrofe de esquerda. Óbvio. Este governo fracassa, pulveriza o PS, devolve o PCP e o BE ao guetto e a Coligação volta coesa, reforçada e em braços para uma maioria absoluta gloriosa.

Diga-se de passagem que isto me parece uma franca possibilidade.

Mas o que falta sempre ao Oráculo de Direita é prever os cenários opostos.

E se a Coligação de esquerda se aguentar nem que seja só pela teimosia de não falhar?

E se o PS se for sustentando pelo menos não pior que o Governo cessante? E se os parceiros não tirarem o tapete?

Eu diria que rapidamente é no PSD e CDS que se dará o colapso. Que as oposições internas exigirão a cabeça dos líderes. É natural, os líderes sem poder para comprar amigos e assustar os rivais nunca duram muito. E por isso acusarão Passos de ter desvirtuado o PSD da sua matriz de Centro Direita, Portas de ter envergonhado a Democracia Cristã. Ambos serão acusados das más companhias um do outro. Cairão. Para que quaisquer novas lideranças levem o partido para o hiato da Oposição. Calha a todos.

Tudo isto é apenas uma mera possibilidade mas ainda assim uma possibilidade.

E então, porque é que nunca falam disso?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Mijas territoriais

É uma chatice antiga que me atormenta.

Deixei-me condicionar a mim mesmo de um modo pavloviano e assim que o meu inconsciente dá conta de que estou a chegar a casa começa a dança do mambo. Leia-se, o Rui a contorcer-se na distância psicologicamente lancinante que o separa da sua sanita. O GPS da minha bexiga desenvolveu pelos vistos uma precisão quase milimétrica e a coisa dá-se assim que entro na Rua de Arroios - ou onde quer que more, que a coisa é antiga e já passou por Almada, Corroios e Graça - de carro ou a pé. É súbito, é urgente e é inadiável. Sobretudo é localizada! Não sucede na empresa, não sucede na rua, não sucede onde quer que seja que me leve a minha agenda e nem sequer sucede nas residências pontuais de férias ou assim. Aí a minha bexiga, a sonsa, finge-se de uma paciência infinita. Dá, dá, não dá, não dá. Mas se entra na rua de Arroios exige. E eu ou correspondo ou um dia destes mijo-me pernas abaixo, é que mijo mesmo.

É toda uma coreografia.

Primeiro fazer os últimos metros de rua até à porta do prédio a disfarçar que me vou a contorcer todo. Com um andar que deve fazer lembrar uma bicha a tentar esmagar uma noz entre as nádegas enquanto caminha. Patética tentativa de dignidade. Pergunto-me se alguém me estará a observar. Tenho que fazer o caminho mais direito possível. Não há tempo a perder. Há dias armei-me em rebelde com a bexiga tirana. Há-de ser quando eu quiser! E por isso tinha que ir ao Multibanco e fui mesmo. Ia-a fazendo bonita e dei por mim a fazer passinhos jingões de dança à espera que a máquina se despachasse enquanto controlova os tipos do stand automóvel pelo canto do olho, a rezar para que não reparassem. Depois disparei a correr para casa.

Pequenos detalhes podem deitar tudo a perder. O elevador que ainda tenha que chamar do último piso, por exemplo. Ou que mais alguém queira entrar no elevador. Quero ir sozinho para poder ir desapertando o cinto, para estar na minha intimidade de dançar o twist enquanto repito para mim a mantra espiritual destes momentos "Guenta, guenta guenta!"

Se o elevador chega finalmente é a corrida desesperada. Não que sem a mais das vezes não subsistam alguns detalhes que querem que eu morra na praia e faça pelas pernas abaixo à porta de casa.


A Nádia. A sacana da ucraniana parece sincronizada com a bexiga e a mais das vezes sai-me ao caminho nestas horas de profunda aflição. A querer conversa, sorridente, no seu sotaque de leste. E eu a sorrir que sim e a tentar disfarçar o twist de anca. Há dias tive que lhe gritar. "Volto já, chamada muito urgente!" - e larga-se a correr. A cena seguinte são as chaves. Acertar com a fechadura e não deixar cair as chaves pode parecer uma tarefa simples mas nestes momentos não é.

Finalmente é a corrida desabrida final até à sanita. Se for preciso arrancam-se botões das calças e a cadela Yorkshire leva mesmo um pontapé se se mete aos saltinho a barrar o caminho. É a lei da sobrevivência. Não, é a lei da bexiga.

Mas hoje fiquei mais tranquilo. Decidi pesquisar sobre isto no Google. Acabrunhado confesso. Sentia-me uma ave rara.

Afinal não, Mundo fora há milhões de pessoas em guerra com a urgência da mijinha quando chegam a casa. Há animados fóruns online cheios de partilhas de experiências, confissões libertadoras, aprendizagens mútuas. Há quem tenha derrotado a bexiga e o sacana do Pavlov com técnicas de guerrilha psicológica. Mas estas coisas nunca são uma guerra definitivamente ganha. É um dia de cada vez.

E de repente senti-me mais leve, menos culpado, com vontade de dizer.

Olá a todos, eu sou o Rui. E sou um mijão territorial.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Esquema processual de um pedido de desculpas

Saio para a rua de manhã e tenho o carro bloqueado por alguém que estacionou em segunda fila. A Rua de Arroios ainda tem um cheirinho a Lisboa típica. Vamos reconhecendo as caras dos vizinhos e dos comerciantes do bairro, às tantas os nomes. Sempre achei estes tiques de vizinhança old school simpáticos e humanizantes. Mas não deixam de ter um lado negro. Na Rua de Arroios este arroja-se no laissez faire, laissez passer do pessoal ter demasiado à vontade de estacionar em segunda fila. Não é incomum chegar e ter o carro bloqueado. Desatando a apitar normalmente se não aparece logo o dono da viatura aparece alguém que o conhece. E irrita-me o ar simpático com que me dizem sempre "Ah, é fulano de não sei onde, vá lá chamar que ele está acolá." ...           ... respiro fundo. Eu tolero bem estas situações quando à primeira buzinadela sai um gajo da porta em frente a pedir desculpas. Já estar para ali a buzinar à espera que se dignem aparecer ou ter que os ir chamar ao restaurante da esquina faz-me perder a paciência.

Hoje lá estava eu a buzinar de novo. E com a precisão científica desta "Cosa nostra" em versão Arroios apareceu o latagão do stand da porta à frente. Simpático, pois claro. Conhecia a vizinha, pois claro. Era a senhora do quarto andar em frente, pois claro. Fosse lá tocar, pois claro! Mas não foi preciso lá vinha ela, esbaforida. E eu com os meus modos absolutamente educados e nada simpáticos lá lhe disse que achava estes comportamentos inadmissíveis.

Façamos um primeiro parêntese.

Eu tenho todo um ritual que não gosto que falhe nestas situações...

Já sabemos que se a pessoa aparecer logo é pacífico.

Ainda não sabemos mas um dia alguém descobre que, se demorarem mais do que 10 minutos, vou ali à esquadra mesmo ao lado chamar a polícia. Mas nunca me deram esse gostinho. Aparecem logo no tempo de tolerância.

Mas há todo um ritual que eu gosto de seguir quando a coisa demora mais tempo do que o aparecer logo e os tais dez minutos da polícia. Senhores vizinhos, comerciantes da zona e seus clientes, tomem nota:

Passo 1 - Eu manifesto-me algo razinza dentro da boa educação.

Passo 2 - A pessoa diz que eu tenho razão e pede desculpas.

Passo 3 - Eu replico ainda razinza que estas coisas não se fazem.

Passo 4 - A pessoa insiste que tenho toda razão e conta-me uma desculpa qualquer. Que foi tirar o pai à forca, que foi acossado por súbita caganeira, qualquer coisa. No fim remata com novo pedido de desculpas.

Passo 5 - Eu dou-me por comovido com a boa educação, humildade e veia criativa e cedo. Estou quase arrependido.

Happy ending...

Mas normalmente não é isso que acontece.

Mas isto pede novo parêntese.

Os portugueses confundem muito desculpas com desculpas. Têm aliás um talento imenso para as primeiras e absoluta ineptidão para as segundas. Confuso? Eu explico melhor.

Dar desculpas é uma coisa, pedir desculpas é outra. As desculpas pedem-se quando errámos. E as desculpas dão-se quando genuinamente algum motivo ocorre que não nos permitiu corresponder ao que em princípio seria devido. Para a malta de Direito é a diferença entre a exclusão da ilicitude e atenuação da culpa e da medida da pena. Mas a mais das vezes o povo dá desculpas, não pede. Dão-se desculpas esfarrapadas quando por medo ou arrogância não queremos assumir as nossas falhas. É neste último sentido que a malta quase toda é profissional.

Voltemos à vizinha do quarto andar.

Lá vinha ela a pedir desculpas. Por caso estes habituais da segunda fila normalmente o primeiro pedido de desculpas costumam apresentar. Uns mais envergonhados outros mais desinteressados só para nos calarem às vezes quase irritados de termos interrompido lá o que estivessem a fazer. Mas apresentam todos. Por isso é que tem pouco valor e eu continuo a protestar. Aqui já são muito raras as pessoas que correspondem. Há os que se enfadam "Já pedi desculpas, não já?", os que fogem para não nos ouvirem. Houve um atrasado mental em concreto que me abriu os braços e respondeu "Estava a almoçar, como é que queria que o ouvisse?""

A senhora de hoje também tinha desculpas. Para dar, pedir nem por isso. Que só tinha demorado 10 minutos e eu nem há cinco estava a apitar! Sacana da mulher! Tinha era que pedir desculpas! Fazer umas alegações bonitas! Que tinha sido um momento de irreflexão, que foi desespero, negligência inconsciente! Que era uma vítima da sociedade, que era primária, que várias testemunhas abonatórias tinham elogiado que era pessoas de bem, com crianças a cargo. No fim pedir justiça e uma redução da pena por confissão integral e sem reservas. Mas a gaja não, foi-se embora a resmungar que era bem feito que me sucedesse o mesmo a mim.

Tirei-lhe a matrícula. Para esta de futuro não se aplica a cláusula dos 10 minutos!

domingo, 15 de novembro de 2015

Personalidades fortes

Há dias um amigo diagnosticava o porquê de eu e uma outra pessoa não gostarmos um do outro nem como molho de tomate. "Têm ambos personalidade forte."

Eu fiquei a pensar nessas coisas das personalidades fortes. Porque assim de repente parecia-me que o catálogo é normalmente tido como elogioso. Se não, pelo menos, como  não pejorativo. Mas quanto mais pensava no assunto mais me parecia que personalidade forte é no fundo um eufemismo da nossa gentileza de não admitir que determinada pessoa é parva, pior, parva e convicta, exercendo essa sua falta de sensatez de uma forma espaçosa e obstinada dos Titanics que investem com tanta convicção para o iceberg que o mais provável é que este rache ao meio, abrindo-lhes gloriosa passagem.

Será isto uma qualidade?

Do ponto de vista funcional ao exercício do poder, sem dúvida!

O problema é que é uma qualidade apenas do ponto de vista instrumental e se pensarmos bem neutra do ponto de vista das que me parecem as mais louváveis qualidades humanas,

Mas o facto é que vivemos num mundo que idolatra as personalidade fortes. Deve ser por isso que raramente seguimos líderes que saibam o caminho. Desnorteamo-nos atrás dos que tenham mais jeitinho para bater forte com o punho na mesa, os mais casmurros, beligerantes, espalhafatosos. Estas qualidades só por ocasional coincidência convivem na mesma pessoa com o talento da sensatez, assertividade, em resumo, com o talento de ter razão. Mais, com o talento ainda mais sublime de perceber e saber recuar quando percebemos que não a temos: a razão.

"Opá..." - concluía eu ...       "Eu não quero ter personalidade forte!"






sábado, 14 de novembro de 2015

A impressão do espelho

"Atacaram Paris."

Estava num jantar de colegas. Uma daquelas pândegas à antiga com petiscos e garrafas de vinho a rodar na mesa. É uma improbabilidade de uma tasca típica destas jantaradas típicas mas não havia uma televisão ligada. E por isso foi uma surpresa quando alguém que chega diz 

"Atacaram Paris. Está o caos."

Dentro e pouco estamos todos a esgravatar os smart phones para saber mais. As notícias vão caindo, difusas, confusas. E estamos impressionados, estamos mesmo. 

Porquê?

Porque a bala nos assobia aos ouvidos. Assobia mesmo. Alguém pergunta ao Rafael se ainda tem lá família. Alguém comenta que um colega voou para lá ontem. Eu lembro-me da Céline que vive em Paris. Provavelmente todos temos algumas indagações. Mas não é só isso. É porque somos todos Paris, somos mesmo. Paris é demasiado perto. Os parisiences têm demasiado em comum connosco para nos podermos esquivar do semblante blazé habitual com que encaramos outras tragédias. Estamos a ser atacados. Condoermo-nos com a Palestina e a Síria pede demasiado trabalho de empatia. Se uma imagem forte não ajudar, nada sentimos. Paris sentimos. Não é preciso muito trabalho para imaginar que era Lisboa, que éramos nós.

Não pensem que esta é uma posta de pescada de um chico esperto armado em hater ou cínico de serviço, não é. Não se achincalha um luto e não se desvaloriza todos os perigos que um bafo do Diabo como este levanta, isso seria absolutamente imbecil. 

Mas aproveitemos o nosso luto para pensar em todos os fogos que ardem agora que também nós estamos sob fogo.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pequeno dicionário de desconstrução dos argumentos de direita da moda

Prefácio do Autor

O Autor não está por aí além entusiasmado com o o Governo de esquerda que aí vem. Duvida da coesão possível. No Partido socialista só lhe agrada o posicionamento ideológico teórico e nos restantes partidos de esquerda só lhe agrada a seriedade ideológica. Com a sorte do Autor, ainda vai ver-se abater sobre si o pior dos dois mundos: o disparate ideológico do PCP e BE e a os caldinhos do costume da falta de seriedade ideológica da máquina clientelista do PS. 

O Autor não está portanto a viver um fervor dogmático de esquerda. Teme que a coisa corra mal e tem todo o respeito pelo pessoal que preferisse um governo mais ao centro ou mesmo à direita.

O Autor pretende ser tão intelectualmente honesto que até respeita a opinião de quem diga que preferia "este" governo de direita em concreto que agora se balda aos trambolhões pelas escadas de São Bento abaixo. Desde que seja numa lógica de "do mal o menos", na volta vem-se a demonstrar verdade.

E portanto o Autor aceita tudo isto como discutível e a ser confirmado por aquilo que o futuro traga. Ou não!


O que já me enfada são os argumentos pop absolutamente falaciosos  que a liderança de opinião de direita semeia e o povão colhe.


Treta 1 - "Com o sacrifício do governo e dos portugueses estávamos a conseguir sair do buraco.

A parte de que os portugueses estavam a fazer sacrifícios essa é óbvia. Já a parte dos sacrifícios do Governo por acaso não entendo assim como não entendo a parte do que estávamos a sair do buraco. Não estávamos, permanecemos sempre em défice e a dívida cresceu. Tudo o que se alcançou - os ditos cofres cheios e os orgulhosos pagamentos antecipados de dívida foi baseado pura e simplesmente na brutal carga de impostos e nas receitas extraordinárias de venda de Estado. O problema não é tanto se havia a absoluta necessidade de fazer muito do que foi feito. Provavelmente, sim. O problema é só se ter feito isto e não a reforma do Estado prometida - com todos os efeitos colaterais na vida dos portugueses e na depressão económica. E o problema é saber que soluções restariam para a segunda legislatura. Carregar ainda mais impostos? Vender ainda mais Estado? Muito provavelmente sim. Até porque  como na primeira legislatura o problema mantém-se e o Estado permanece esmagado em dívida e sôfrego de recursos.


Treta 2 - "Conquistámos a confiança dos mercados"

Claro que sim! Aqui a treta não está propriamente na afirmação mas no contexto de fundo. Imaginem que vocês eram credores do Governo Português e que o Primeiro Ministro vos dizia! Somos honrados e não ficaremos a dever um tostão! Vamos mandar os nossos porquitos todos para o abate a com a venda da chicha vamos pagar tudo e como juros!" - Vocês não confiariam num devedor sério assim? Pois claro! O problema é que na realidade vocês não são os credores, são os porcos! Não, ou talvez não sejam os porcos e por isso é que achem tudo muito bom. Eu no fundo também não sou, pelo menos não muito. Mas muitos dos nossos compatriotas têm-no dolorosamente sido. No fundo o que quero dizer é que a Confiança dos Mercados é boa mas é perigoso que seja o único estandarte de uma vitoria de Pirro.


Treta 3 - "Ganhámos as eleições!"

Ganharam, é verdade. Tanto que Pedro Passos Coelho formou Governo. Mas não porque A Coligação PAF tenha tido mais votos. O Sistema Político português não é a bola. Não ganha quem marcar mais golos ou tiver o melhor jogador em campo ou alegar vitória moral ou estatística de jogos passados. Ganharam porque na complexidade desse sistema eleitoral reuniram em determinado momento as condições para formar Governo. E perderam quando no momento seguinte- hoje -  as condições se tornaram propícias à queda desse Governo. Dúvidas haja de que perderam sobra um argumento retumbante: o Governo caiu e que eu saiba não houve nenhum golpe de Estado. Há dúvidas?


Treta 4 - "O Povo português quis dar à Coligação mandato para governar!"

É verdade, quis. Como na última legislatura quis dar ao PSD e ao CDS Mandato para terem maioria absoluta se se entendessem. Só que, infelizmente, nesta legislatura também quis dar à Oposição a capacidade de derrubar o governo e governar desde que se entendessem. Assim como quis eleger um Presidente da República que agora coloque eventualmente o  Pedro Passos de Coelho na camisa-de-forças de um Governo de Gestão. O Povo tudo isto quis e quer! Ou isto é tudo treta e, claro, o povo sabe-se lá o que quis realmente. Mas são as regras que temos, às vezes dão jeito, outras não, é a vida..."


E pronto é assim, vamos lá ver o que se segue e continuar a exercer o salutar exercício da dialética no quase tudo digno de discussão. Mas, façam-me o favor, sem insistir nas tretas de 1 a 4. Agora que  já expliquei bem explicadinho seria burrice insistir!

sábado, 7 de novembro de 2015

Ordenado mínimo, a propósito de

O ordenado mínimo é um limite ético da valoração do trabalho e sobretudo da sustentabilidade económica de alguém que subsista do seu trabalho em dado cenário económico. É o que nos separa das possibilidades tenebrosas de uma economia livre em que a lei da oferta e da procura permita em determinadas condições às empresas obter o valor trabalho em troca de pouco mais que uma malga de arroz.

Até aqui tudo simples. A partir daqui na quantificação da justiça da coisa é que complica.


Eu devo confessar que temo os excessos da esquerda portuguesa. Não gosto de lhe chamar extrema, tenho-o dito. Simpatizo com a ideia de que demonstre que não o é. Desconfio que uma parte dos oppinion makers que a têm descrito assim são simplesmente herdeiros de preconceitos anacrónicos. A outra parte são os artíficies de uma outra agenda, também ela extremada de algum modo. Não lhe quero chamar extrema direita porque tampouco quero ser eu o preconceituoso anacrónico. Mas é uma direita que advoga na incontornável luta de classes um modelo excessivamente económico-liberal do vale quase tudo menos tirar olhos capitalista. Talvez seja isso, talvez tenhamos que reinterpretar o que é isto dos extremos. Deixar sarar as feridas do Estado Novo fascista e da intentona do PREC e percebermos que há novas formas de ser extremista, uma espécie de extremismos felizmente mais moderados mas que é deles que temos que nos acautelar. Não de comunistas a comer criancinhas ao pequeno almoço nem de novos Tarrafais de um despotismo à direita.

Quais são estes?

Um é o desta versão concreta deste PSD e deste CDS. Tomados de assalto por uma direita arrogante, medíocre, populista, desonesta, socialmente insensível e escrivã de interesses de mercados gulosos, dogmáticos de uma estratégia de competitividade económica assente em dumping social. A nossa direita não está neste momento ao centro embora não seja uma direita extrema nesse sentido anacrónico dos extremos. 

Temo no entanto que a esquerda que temos também permaneça extrema. Defender o valor do trabalho numa lógica de contraditório e balanço eu percebo.  Defender os méritos do setor público nessa mesma lógica eu também percebo. Preconizar uma governação que adore as nacionalizações e o fator trabalho como se fossem as únicas vacas sagradas de um equilíbrio económico, é que não. Preconizar a demolição de todos os méritos da iniciativa privada é que não.

O meu temor à esquerda é este.

Mas isto tudo porque ontem na entrevista da Ana Lourenço ao António Costa se falava dos ordenados mínimos.

Eu percebo duas coisas. 

Os trabalhadores têm que compreender que as massas salariais têm que se limitar ao que seja possível numa estrutura de viabilização e sustentabilidade das empresas. Têm que ser solidários. Numa leitura clarividente e sem anacronismos cada trabalhador deve entender-se a si mesmo como um empresário e fornecedor. Tem que entender a empresa como sua cliente e perceber a flexibilidade necessária a agradar ao cliente vendendo o produto do seu trabalho dentro dos constrangimentos conjunturais.

Certo...

Mas que também perceba a CIP que não se pode sustentar a viabilidade de uma empresa numa política transversal e abusiva de esmagamento de salários. De pagamento ad eternum de salários mínimos independentemente do valor acrescentado das competências exercídas. Através de esquemas fraudulentos e ilegais de falsos recibos verdes que se vergam muito aquém do limite do ordenado mínimo e da não remuneração por uma quota parte substancial do trabalho efetivamente prestado, trabalho extra não remunerado, etc. Uma empresa viável nestes termos não é uma empresa viável, é um cancro de dumping social que se sustenta de forma fraudulenta em prejuízo de uma economia equilibrada. Basicamente é uma empresa que baseia os seus lucros na premissa de não cumprir realmente as suas obrigações para com os fornecedores. Tem que ser reestruturada. Tem que pagar o valor real das suas matérias primas. Tem que pagar o valor real do seu trabalho. E se assim sendo não for viável tem que falir.