No imediato rescaldo eleitoral a tendência dos comentadores era a de que a Coligação de Direita tinha a faca e o queijo na mão. A mim rapidamente me pareceu que este era um equívoco. Se os comentadores do costume gostassem de organizar jantaradas, como eu gosto, saberiam que o Rei da festa nunca é o tipo que leva nem o bom queijo nem a faca, nem sequer o cabrito. É o gajo que tem casa para dar a festa. É o tipo com veia de RP, o pivot que tenha mais amigos. Claramente que por aí Costa estava em vantagem embora não se pudesse dizer que já tivesse ganho as eleições. Este exercício eleitoral teve isso de curioso: não se concluiu com a contagem dos votos nas urnas; concluiu-se com a contagem de espingardas no Parlamento e solidificou-se na obstinação de Costa ao não vacilar perante os abanões desesperados da Presidência da República à solidez da estrutura gisada pelo Secretário Geral do PS. Costa podia ter perdido as eleições em qualquer um destes dois momentos. Podia e era até altamente provável. Afinal o PS sabia que não tinha a fatia de leão do tal queijo, nem a faca maior. A sua vitória dependia de dar uma jantarada mais concorrida e que os convivas não roessem a corda em cima da hora - quem dá jantares também sabe que isto é muito comum. Conseguiu-o. E por isso por muito que agora os cães ladrem a Caravana do Costa passará porque hoje ganhou as eleições. Ganhou-as simplesmente porque não as perdeu e a prova disso é será Primeiro Ministro. Tudo o mais são unguentos dos derrotados a lamber feridas. Vitórias morais de quem clama que tinha o queijo maior e o cabrito e a lampreia de ovos. É verdade. Mas não chega para formar Governo.
Essa é a minha primeira conclusão.
A segunda é que somos todos reféns de oppinion makers enviesados que nos querem enviesar a todos. Por aí não há inocentes, claro. No entanto a máquina de marketing político de esquerda tem tido a vida facilitada de ter razão na questão circunscrita da legitimidade para governar. Nesse ponto é como ter o plantel do Barcelona à disposição. Desde que não sejamos inábeis, não há como perder. E nesse ponto para a esquerda foi fácil porque pura e simplesmente tem razão nessa questão de legitimidade. Não precisaria de abrir a boca que não perderia a razão por isso. Mas mesmo do ponto de vista da substância da estratégia política ser de esquerda foi fácil até ao dia de hoje. É fácil explicar todos os pontos em que a política de direita falhou porque só não vê quem não quer. É fácil dizer que se sabe como se fazer mais e melhor até ao momento em que não tenha que se demonstrar. Até aqui foi tudo fácil para a esquerda porque se ficou pelas verdades óbvias e pelas alegações fáceis. A partir de hoje é que vai ser mais difícil. Acabou-se o fantasy football com o plantel do Barcelona, a partir daqui é a sério. E com o plantel do Águias da Musgueira: Portugal portanto.
Para a direita foi tudo mais complicado. Disfarçar tudo o que correu mal na legislatura e fugir a um esperado descalabro eleitoral. Esse era o primeiro desafio e foi ultrapassado com brilhantismo. O segundo foi disfarçar que ainda não tinha realmente ganho as eleições e tentar evitar que se perdessem de todo no fim das contas. O marketing político da PAF no fim perdeu. Mas a forma como se bateu é digna dos compêndios. Por pouco não ganhou. Francamente era o que eu esperava. Como é que isso é possível? Tony Blair dizia que o essencial é uma estratégia de "Repeat and remind". Um facto suficientemente repetido aceita-se, sobretudo se nos agrada. Um facto suficientemente ignorado esquece-se. A conclusão de coisas complexas é ao fim ao cabo um processo ele próprio complexo, subjetivo, faccioso. A verdade tem muito pouco a ver com nada e foi justamente assim que Coelho e Portas quase que se renovaram no Poder. Através de uma rede de comentadores a garantirem que o país estava a recuperar e que a Direita tinha ganho as eleições. Tecnicamente? Moralmente que fosse! Uma rede de comentadores a profetizar toda uma série de armagedões às mãos da esquerda. Que a esquerda jamais se entenderia. E que se entendesse seria imoral porque não devia mas que se se entendesse esse entendimento não resistiria às pré-negociações. E se resistisse a isso não resistiria aos primeiros meses da Legislatura. E se resistisse? Então será o país que não resiste e é a ruina e no fim da contas a esquerda equivale a isso mesmo: a ruína. Dê por onde der. É fatal que tudo corra mal. É fatal que os aliados esfaqueiem Costa no Senado. É fatal que esta guinada estratégica pulverize o PS. É fatal isto, aquilo, acoloutro, é tudo fatal!
Mas é mesmo?
Justamente. Não sei. Nem eu nem os marketeiros políticos de direita. Nem os de esquerda.
São cenários possíveis e que aliás me assustam.
Na verdade se assumirmos determinadas premissas como certas não é muito difícil tirar conclusões a partir destas. A opinião de direita tem partido desse princípio. Assume micro catástrofes a partir das quais se deduz facilmente a grande e transversal catástrofe de esquerda. Óbvio. Este governo fracassa, pulveriza o PS, devolve o PCP e o BE ao guetto e a Coligação volta coesa, reforçada e em braços para uma maioria absoluta gloriosa.
Diga-se de passagem que isto me parece uma franca possibilidade.
Mas o que falta sempre ao Oráculo de Direita é prever os cenários opostos.
E se a Coligação de esquerda se aguentar nem que seja só pela teimosia de não falhar?
E se o PS se for sustentando pelo menos não pior que o Governo cessante? E se os parceiros não tirarem o tapete?
Eu diria que rapidamente é no PSD e CDS que se dará o colapso. Que as oposições internas exigirão a cabeça dos líderes. É natural, os líderes sem poder para comprar amigos e assustar os rivais nunca duram muito. E por isso acusarão Passos de ter desvirtuado o PSD da sua matriz de Centro Direita, Portas de ter envergonhado a Democracia Cristã. Ambos serão acusados das más companhias um do outro. Cairão. Para que quaisquer novas lideranças levem o partido para o hiato da Oposição. Calha a todos.
Tudo isto é apenas uma mera possibilidade mas ainda assim uma possibilidade.
E então, porque é que nunca falam disso?