terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pequeno dicionário de desconstrução dos argumentos de direita da moda

Prefácio do Autor

O Autor não está por aí além entusiasmado com o o Governo de esquerda que aí vem. Duvida da coesão possível. No Partido socialista só lhe agrada o posicionamento ideológico teórico e nos restantes partidos de esquerda só lhe agrada a seriedade ideológica. Com a sorte do Autor, ainda vai ver-se abater sobre si o pior dos dois mundos: o disparate ideológico do PCP e BE e a os caldinhos do costume da falta de seriedade ideológica da máquina clientelista do PS. 

O Autor não está portanto a viver um fervor dogmático de esquerda. Teme que a coisa corra mal e tem todo o respeito pelo pessoal que preferisse um governo mais ao centro ou mesmo à direita.

O Autor pretende ser tão intelectualmente honesto que até respeita a opinião de quem diga que preferia "este" governo de direita em concreto que agora se balda aos trambolhões pelas escadas de São Bento abaixo. Desde que seja numa lógica de "do mal o menos", na volta vem-se a demonstrar verdade.

E portanto o Autor aceita tudo isto como discutível e a ser confirmado por aquilo que o futuro traga. Ou não!


O que já me enfada são os argumentos pop absolutamente falaciosos  que a liderança de opinião de direita semeia e o povão colhe.


Treta 1 - "Com o sacrifício do governo e dos portugueses estávamos a conseguir sair do buraco.

A parte de que os portugueses estavam a fazer sacrifícios essa é óbvia. Já a parte dos sacrifícios do Governo por acaso não entendo assim como não entendo a parte do que estávamos a sair do buraco. Não estávamos, permanecemos sempre em défice e a dívida cresceu. Tudo o que se alcançou - os ditos cofres cheios e os orgulhosos pagamentos antecipados de dívida foi baseado pura e simplesmente na brutal carga de impostos e nas receitas extraordinárias de venda de Estado. O problema não é tanto se havia a absoluta necessidade de fazer muito do que foi feito. Provavelmente, sim. O problema é só se ter feito isto e não a reforma do Estado prometida - com todos os efeitos colaterais na vida dos portugueses e na depressão económica. E o problema é saber que soluções restariam para a segunda legislatura. Carregar ainda mais impostos? Vender ainda mais Estado? Muito provavelmente sim. Até porque  como na primeira legislatura o problema mantém-se e o Estado permanece esmagado em dívida e sôfrego de recursos.


Treta 2 - "Conquistámos a confiança dos mercados"

Claro que sim! Aqui a treta não está propriamente na afirmação mas no contexto de fundo. Imaginem que vocês eram credores do Governo Português e que o Primeiro Ministro vos dizia! Somos honrados e não ficaremos a dever um tostão! Vamos mandar os nossos porquitos todos para o abate a com a venda da chicha vamos pagar tudo e como juros!" - Vocês não confiariam num devedor sério assim? Pois claro! O problema é que na realidade vocês não são os credores, são os porcos! Não, ou talvez não sejam os porcos e por isso é que achem tudo muito bom. Eu no fundo também não sou, pelo menos não muito. Mas muitos dos nossos compatriotas têm-no dolorosamente sido. No fundo o que quero dizer é que a Confiança dos Mercados é boa mas é perigoso que seja o único estandarte de uma vitoria de Pirro.


Treta 3 - "Ganhámos as eleições!"

Ganharam, é verdade. Tanto que Pedro Passos Coelho formou Governo. Mas não porque A Coligação PAF tenha tido mais votos. O Sistema Político português não é a bola. Não ganha quem marcar mais golos ou tiver o melhor jogador em campo ou alegar vitória moral ou estatística de jogos passados. Ganharam porque na complexidade desse sistema eleitoral reuniram em determinado momento as condições para formar Governo. E perderam quando no momento seguinte- hoje -  as condições se tornaram propícias à queda desse Governo. Dúvidas haja de que perderam sobra um argumento retumbante: o Governo caiu e que eu saiba não houve nenhum golpe de Estado. Há dúvidas?


Treta 4 - "O Povo português quis dar à Coligação mandato para governar!"

É verdade, quis. Como na última legislatura quis dar ao PSD e ao CDS Mandato para terem maioria absoluta se se entendessem. Só que, infelizmente, nesta legislatura também quis dar à Oposição a capacidade de derrubar o governo e governar desde que se entendessem. Assim como quis eleger um Presidente da República que agora coloque eventualmente o  Pedro Passos de Coelho na camisa-de-forças de um Governo de Gestão. O Povo tudo isto quis e quer! Ou isto é tudo treta e, claro, o povo sabe-se lá o que quis realmente. Mas são as regras que temos, às vezes dão jeito, outras não, é a vida..."


E pronto é assim, vamos lá ver o que se segue e continuar a exercer o salutar exercício da dialética no quase tudo digno de discussão. Mas, façam-me o favor, sem insistir nas tretas de 1 a 4. Agora que  já expliquei bem explicadinho seria burrice insistir!

Sem comentários:

Enviar um comentário