sábado, 14 de novembro de 2015

A impressão do espelho

"Atacaram Paris."

Estava num jantar de colegas. Uma daquelas pândegas à antiga com petiscos e garrafas de vinho a rodar na mesa. É uma improbabilidade de uma tasca típica destas jantaradas típicas mas não havia uma televisão ligada. E por isso foi uma surpresa quando alguém que chega diz 

"Atacaram Paris. Está o caos."

Dentro e pouco estamos todos a esgravatar os smart phones para saber mais. As notícias vão caindo, difusas, confusas. E estamos impressionados, estamos mesmo. 

Porquê?

Porque a bala nos assobia aos ouvidos. Assobia mesmo. Alguém pergunta ao Rafael se ainda tem lá família. Alguém comenta que um colega voou para lá ontem. Eu lembro-me da Céline que vive em Paris. Provavelmente todos temos algumas indagações. Mas não é só isso. É porque somos todos Paris, somos mesmo. Paris é demasiado perto. Os parisiences têm demasiado em comum connosco para nos podermos esquivar do semblante blazé habitual com que encaramos outras tragédias. Estamos a ser atacados. Condoermo-nos com a Palestina e a Síria pede demasiado trabalho de empatia. Se uma imagem forte não ajudar, nada sentimos. Paris sentimos. Não é preciso muito trabalho para imaginar que era Lisboa, que éramos nós.

Não pensem que esta é uma posta de pescada de um chico esperto armado em hater ou cínico de serviço, não é. Não se achincalha um luto e não se desvaloriza todos os perigos que um bafo do Diabo como este levanta, isso seria absolutamente imbecil. 

Mas aproveitemos o nosso luto para pensar em todos os fogos que ardem agora que também nós estamos sob fogo.

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