É uma chatice antiga que me atormenta.
Deixei-me condicionar a mim mesmo de um modo pavloviano e assim que o meu inconsciente dá conta de que estou a chegar a casa começa a dança do mambo. Leia-se, o Rui a contorcer-se na distância psicologicamente lancinante que o separa da sua sanita. O GPS da minha bexiga desenvolveu pelos vistos uma precisão quase milimétrica e a coisa dá-se assim que entro na Rua de Arroios - ou onde quer que more, que a coisa é antiga e já passou por Almada, Corroios e Graça - de carro ou a pé. É súbito, é urgente e é inadiável. Sobretudo é localizada! Não sucede na empresa, não sucede na rua, não sucede onde quer que seja que me leve a minha agenda e nem sequer sucede nas residências pontuais de férias ou assim. Aí a minha bexiga, a sonsa, finge-se de uma paciência infinita. Dá, dá, não dá, não dá. Mas se entra na rua de Arroios exige. E eu ou correspondo ou um dia destes mijo-me pernas abaixo, é que mijo mesmo.
É toda uma coreografia.
Primeiro fazer os últimos metros de rua até à porta do prédio a disfarçar que me vou a contorcer todo. Com um andar que deve fazer lembrar uma bicha a tentar esmagar uma noz entre as nádegas enquanto caminha. Patética tentativa de dignidade. Pergunto-me se alguém me estará a observar. Tenho que fazer o caminho mais direito possível. Não há tempo a perder. Há dias armei-me em rebelde com a bexiga tirana. Há-de ser quando eu quiser! E por isso tinha que ir ao Multibanco e fui mesmo. Ia-a fazendo bonita e dei por mim a fazer passinhos jingões de dança à espera que a máquina se despachasse enquanto controlova os tipos do stand automóvel pelo canto do olho, a rezar para que não reparassem. Depois disparei a correr para casa.
Pequenos detalhes podem deitar tudo a perder. O elevador que ainda tenha que chamar do último piso, por exemplo. Ou que mais alguém queira entrar no elevador. Quero ir sozinho para poder ir desapertando o cinto, para estar na minha intimidade de dançar o twist enquanto repito para mim a mantra espiritual destes momentos "Guenta, guenta guenta!"
Se o elevador chega finalmente é a corrida desesperada. Não que sem a mais das vezes não subsistam alguns detalhes que querem que eu morra na praia e faça pelas pernas abaixo à porta de casa.
A Nádia. A sacana da ucraniana parece sincronizada com a bexiga e a mais das vezes sai-me ao caminho nestas horas de profunda aflição. A querer conversa, sorridente, no seu sotaque de leste. E eu a sorrir que sim e a tentar disfarçar o twist de anca. Há dias tive que lhe gritar. "Volto já, chamada muito urgente!" - e larga-se a correr. A cena seguinte são as chaves. Acertar com a fechadura e não deixar cair as chaves pode parecer uma tarefa simples mas nestes momentos não é.
Finalmente é a corrida desabrida final até à sanita. Se for preciso arrancam-se botões das calças e a cadela Yorkshire leva mesmo um pontapé se se mete aos saltinho a barrar o caminho. É a lei da sobrevivência. Não, é a lei da bexiga.
Mas hoje fiquei mais tranquilo. Decidi pesquisar sobre isto no Google. Acabrunhado confesso. Sentia-me uma ave rara.
Afinal não, Mundo fora há milhões de pessoas em guerra com a urgência da mijinha quando chegam a casa. Há animados fóruns online cheios de partilhas de experiências, confissões libertadoras, aprendizagens mútuas. Há quem tenha derrotado a bexiga e o sacana do Pavlov com técnicas de guerrilha psicológica. Mas estas coisas nunca são uma guerra definitivamente ganha. É um dia de cada vez.
E de repente senti-me mais leve, menos culpado, com vontade de dizer.
Olá a todos, eu sou o Rui. E sou um mijão territorial.
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