quinta-feira, 22 de novembro de 2012

GPS

Sabemos realmente o que queremos, o que procuramos? À queima roupa muitos dirão que sim. Mas se começarmos a esgravatar em nós próprios? 

Temo bem que apenas a incompleição do objetivo e a gana de lá chegar disfarce, adie, sei lá, a constatação de que não era assim tão importante. Deve ser por isso que quando às vezes comungo daquele devaneio pornográfico do "e se me saísse o Euromilhões" me assusto. Depois disso é preciso ter sonhos a sério para não perigarmos na constatação de que afinal não tínhamos nenhum.E nesta forma de estar nem tudo se perde, deixem que vos diga. Descobrir que afinal não estamos nada dececionados com as nossas deceções é de uma redenção surpreendente. Às tantas damos por nós a pensar que vamos a jogo pelas lições e pelas sensações. Nada mau, digo-vos eu...


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Criar valor versus Lei de Murphy

Um CEO comentava numa ocasião que observava sempre com interesse a forma como as empresas reagiam e se adaptavam à sua volta, mesmo nas situações mais corriqueiras em que ele fosse mais um consumidor a comprar pão no Pingo Doce. E dava o exemplo sobre como justamente o Pingo Doce tinha feito uma óbvia redução em custos de RH por intermédio de alguns processos de flexibilidade e polivalência.

O valor é um dos lugares comuns do Marketing. Trocado por miúdos significa qualquer ideia que de alguma forma melhore a performance de uma operação a qualquer nível. E isto pode significar a reivenção da roda ou coisas muito simples.

Por exemplo!

Espreitava a conversa das minhas vizinhas do lado ao balcão da Picasso enquanto comia a sopinha. E elas conspiravam acerca de uma outra gaja qualquer que pelos vistos seria asquerosa e de como isso tinha influído na reorganização do Departamento de há tempos. Como não havia quem quisesse ficar nas vizinhanças da fulana, a Diretora lá desenhou o espaço de modo a que sobretudo a si própria saísse a fava. Ora se eu suspeito que isto é o tipo de fotonovela sem valor nenhum, por outro lado, até aqui (!) pode haver valor acrescentado de um ponto de vista de marketing operacional.

Mas a coisa pode ser ainda mais simples - e a meu ver mais relevante.

Eu hoje também criei valor!

Há dias que um dos meus phones se finou. A coisa em si não tem grande mal imediato porque seja como for ouço sempre a minha excelsa seleção de mp3 apenas com um phone quedando-se um ouvido inquilino do mundo real. O problema era que numa manifestação inequívoca da Lei de Murphy sempre que colocava o phone no ouvido, em semanas, nem uma - é que nem uma vez! - logrei colocar o phone funcional à primeira tentativa. Um gajo que tenha 50% de chances em alguma coisa e se insistir em tentar, mais tarde ou mais cedo, acerta. Menos eu! Até que hoje exasperado decidi deixar de me queixar da minha má sorte e tomar o destino nas minhas mãos. Criar valor!

Retirei a borrachinha protetora do phone mau.

E, claro, estou orgulhoso!

domingo, 18 de novembro de 2012

Felicidade


Ser feliz é a manhã de Sol
é a chuva que bate fria lá fora
é o usufruto do teu chá quente
é beber a vida  em cada hora
é amansar eu os meus sonhos
esses loucos cruéis que nem sonhos são
e negar-lhes a fome, sempre a fome
é saber dizer-lhes que não
A felicidade não se conquista
Não está lá longe do outro lado do muro
E se me aquieto no silêncio
no abraço do porto seguro
ergue-se-à então essa voz
da trégua simples que um dia esquecida
morou sempre cá dentro de nós

sábado, 17 de novembro de 2012

Traição à pátria

Alguém se lamentava da ambivalência que lhe ia no peito. Aquele amigo que tanto gostava dera em defender coisas de um racismo extremo. Até tinha dificuldade em perceber como alguém em quem reconhecia tanto carinho pudesse dizer tais coisas. Mas essa não era a única dificuldade. Custava-lhe perceber como persistia em não deixar de gostar tanto dele. 

Porque às vezes não sabemos bem se é o nosso coração que nos trai os ideais. Ou ao contrário. 

Pouco importa, é uma equação sem solução. E só percebemos a banalidade da sua possibilidade quando sopra a tempestade e às vezes temos mesmo que tomar partido de um só lado do muito que somos.

Os Deuses chamaram-lhe Tragédia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Intervalo

Vida em câmara lenta...

Não, não é nada disto! Intervalo nas crónicas. Seja como for não tenho nada de jeito para dizer e não posso descrever a cidade todo o santo dia.

Voltemos à praia esquecida a ver o que esmiframos dali.

Volto quando as crónicas voltarem. São elas quem mandam, não eu!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Calçada

Vim a pé. E primeiro pensei que Lisboa inteira estivesse de greve ou de ronha ou naquilo que cada um creia que é melhor para si. Junto ao Tejo parecia Domingo de manhã. De uma manhã bonita. E eu fui meio sózinho. Até que lá para o Campo das Cebolas a cidade acordou-nos nos passos dos alguns outros pela rua. Virei sob o Arco da Augusta para Norte. A Rua está quase deserta. As primeiras lojas abrem portas estremunhadas e as carrinhas fazem a distribuição.Porta sim, portas não o comércio morre, em fachadas empoeiradas, trancas à porta e números de telefone "Vende-se" - "Aluga-se" - "Vende-se Lisboa, o próprio" - Ou não, e olho a persistência de charme passado de moda das modas da Baixa. Está frio. A loira bonita passa por mim em corrida e a cuspir vapor no ofego da respiração. Os dois engravatados estugam o passo. Eu não, eu caminho, passada calculada de quem vai chegar à hora e não quer chegar antes nem depois. Baixo o olhar à velha gorda que sorri num sorriso pateta e desdentado. Esparrama o rabo enorme no apoio do primeiro de três troleis de viagem quase tão acabados como ela. Eu olho-a. Posso-a olhar porque para ela nem estou ali. Com um lápis pequenino escrevinha qualquer coisa numa volha de papel. Recita para que se lembre do que escreve "Se-gun-da-fei-ra. Du-as-ho-ras..." - Agenda. De quê? Não sei.  Do hospital, de loucura, de nada. Não, não sei. Os dois criados vêm a sair da pastelaria chique. "Oh não sei quantos, não fizeste greve?" - O colega da concorrência desempilha mesas na esplanada e ri. - "Se eu fosse mulher morria virgem!" - Chilreia o magriço de rosto encarquilhado. Faz contraste com a fatiota de colete que trás. Não jogam. Ri e repete "Se eu fosse mulher morria virgem". Desconfio que é a sua deixa fetiche. Desconfio que se ficasse ali a assistir ao resto da sua vida se repetiria sempre, muito para além do meu cansaço. Mas não fico. Já estou quase no Rossio. Depois virá a Avenida da Liberdade. E o preto rechonchudo que acorda do canto da calçada onde dormiu. Faz um ar quase bonito e tacteia a garrafa de vinho meia ao lado. Primeiro gole do dia. Há mais corpos na calçada. Não estão mortos, ainda não. Ainda dormem, alheios ao zumbido que se eleva. Como que a ignorar a cidade de vingança desta os ignorar a eles. Afinal estamos todos em Lisboa. Mas equivocam-se se a julgarem de todos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O elogio da loucura - ou nem por isso...

Somos todos um pouco loucos. Desde manhã nas caretas desvairadas ao espelho. Em cada divagação. Megalómanos, predadores, desamparados. E se nos não adivinha o desvario, é porque seguimos calados na multidão. Secretamente sonhamos e desejamos e alucinamos coisas loucas e não desconfiamos que o somos. Ou às tantas, sei lá, se por acaso acertamos mesmo em cheio na justeza das coisas e na fórmula do universo, não nos apercebemos, não acreditamos. Abanamos a cabeça na dúvida de que estejamos a ficar loucos. E é justamente porque não estamos que é também loucura. Nem sequer perceber as coisas que sabemos ver. A loucura. Ah, ela está por todo o lado e em cada mania e em cada intransigência  santa e caída. Em braços abertos ou prostrados. Em fé, desalento, audácia e pavor. Adivinha-se no brilho e no vazio dos olhares, vidas desarrumadas e prateleiras de livros simétricos. Cosmos, caos, extremo, centro.

Vocês são todos loucos. Não faz mal. Eu também. Somos todos. 

Apenas que uns são mais do que outros.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Porque é quase Natal e ainda mais quase subsídio. Coiso...

Os doze meses de Natal


No subsídio de Natal o Gaspar deu-me a mim
Uma taxa especial
no subsídio de Natal
Aumento no IVA
Do perfume e da pizza
Revisão do IMI
Da casa em que vivi
Mas já não vivo mais
Voltei para casa dos meus pais
Outra lembrança de Natal
Foi na taxa social
No Natal vou ter sossego
Porque já não tenho emprego
E por cima uma beijoca tax free

Fuga para a vitória

Lá em casa todos os bichos já fugiram pelo menos uma vez. Gosto de pensar que a Marta não fugiu, caiu da janela. É diferente e eu não acredito que a persa mais molengona do mundo realmente fugisse intencionalmente da zona de conforto. A outra gata rafeira, seja fuga ou queda, já vai na segunda...               ... Sexta-feira até a tartaruga deu de fuga embora, não, não tenha sido ao sprint que me bateu.

Hoje estava aqui a fazer reciclagem aos ficheiros que já não me fazem falta e encontrei o cartaz de "Procura-se" que fiz da última vez que a bichana me desapareceu. A primeira ideia foi apagar. Mas depois pensando bem, deixei ficar. É daquelas coisas que pode muito bem voltar a fazer falta.


domingo, 11 de novembro de 2012

Gatos perdidos, marmelada e outras questões de vizinhança

Vinha a entrar em casa quando a vizinha me interpelou. É uma mulher magra que vive duas portas abaixo. "Olhe vizinho, já viu essa raspadela que tem no carro?" - Não tinha visto.- "Tirei a matrícula a quem lhe fez isso. Mas sabe, não vale a pena. Quem era nem carta deve ter quanto mais seguro." - E aponta para o casario a montante. Há uma linha na rua que separa a Graça castiça do casario lá de cima que é outra coisa. Às tantas reconhece-me. - "Olhe é o senhor da gatinha!" - Sou. E ela é a vizinha protetora dos animais que num fim de tarde de meio de Verão andou comigo a calcorrear abaixo e a cima e a bater em todas as portas "V'zinha, viu a gatinha deste v'zinho?" - Lá lhe expliquei que a gatinha tinha voltado. - "O meu cãozinho entretanto morreu." - lá disse ela. Nessa tarde ela trazia o seu caniche, velhinho, muito velhinho. - "Trago-o à rua ao colo porque gosta. Mas já é cego." - Entretanto tivera que o abater do sofrimento. O esgar esmorece-se. Mas os olhos negros brilham de novo e diz que "Olhe, a minha sobrinha até diz que foi coisa da minha Lela lá no Céu dos bichinhos mas dias depois os dois gatinhos pequeninos da rua subiram escadas de incêndio acima e foram comer os restos da comida da Lela. E como ao fim de dois dias não saíam de lá, abri-lhes a porta." - Rio-me. Aquela vizinha é engraçada. E digo o que ia pensando se diria enquanto a ouvia - "Olhe, gosta de marmelada!" - Os olhos acendem-se que sim e eu tiro uma caixa do saco que trazia à tiracolo "Marmelada caseira! Fez a minha mãe e deu-me para mim e para oferecer a amigos. Teria todo o gosto em dar-lhe uma caixinha, aceita?" - Que sim, que sim, adora no pão, com queijo e com banana. As mãos abrem-se à caixa e o sorriso a mim. E eu lembro-me do Fernando que me dizia há dias que oxalá tudo isto de mau traga alguma coisa de boa na solidariedade e calor das relações.

E foi assim.

Não sei se já vos disse mas eu gosto da Graça.


Caderno de cartão

Oferecemos um caderno com capa de cartão ao Miguel. Aquele em que cada um escrevinhou saudades antecipadas e votos de fortuna. As épocas têm tiques e agora são cada vez mais os amigos que nos deixam e saem do país à procura de coisas que por cá já não acham. E não é o mesmo emigrar que vi ocasionalmente à minha volta. Esse era mais ocasional,  com sabor de folha caduca de uma comissão de serviço lá fora. Agora vejo a fuga da mão cheia de nada cá dentro. E francamente duvido que os meus amigos voltem e francamente até eu sonho mais vezes em partir.

No entretanto e nestas coisas fica aquele pedacinho vazio. Não é como que os nossos amigos morressem, nada disso. É apenas que morre uma peça do puzzle da vida como nos habituámos. E eu fico a pensar numa engenharia de dominó diabólica que não empurra só ocasos económicos em filinha pirilau. Empurra tudo, empurra todo o nosso Cosmos e afagos e sonhos.

Mas o Miquinhas tem razão. Dizia-mo ontem. "Nada me prende. Vou lá ver. Não quero ir com demasiada expetativa, não quero ir já de dois pés atrás. Vou lá ver." - É, é isso Miguel. Não vale a pena amuarmos e descabelarmos-nos que exigimos que nada mude. Mais vale ir lá ver o que vem a seguir.

E no fim? Bom, no fim, hajam saudades, olha, sejam dos amigos que vão embora e não do plafond de crédito.

Amén...

sábado, 10 de novembro de 2012

A farsa do Princípe de Gales

Um dos meus melhores amigos deixou a nave espacial estacionada algures e não se lembra onde. Eu suponho que seja por isso que não consegue voltar para o seu planeta e foi ficando por cá. Num desses encontros imediatos do terceiro grau em jeito de acasos felizes a amizade entre nós nasceu. O Filipe é uma peça rara. Arguto, um coração raro e com essa virtude que admiro da simplicidade. Mas claro que isto não é um memorial nem um elogio, é uma crónica e as minhas crónicas têm sempre água no bico. E aqui o que mete água é que o gajo é a coisa mais despojada de vaidade e sentido de moda que se possa imaginar. Um passarão enorme que aparece onde quer que seja como muito bem lhe parecer bem a ele - o que não coincide necessaria nem provavelmente com o que pareça bem à maioria - e o resto é conversa.

Hoje fui com a Eva comprar roupa. Decidi convidar o gajo na megalomania de um revivalismo da fábula de Pigmalião. Em conspiração achávamos que o gajo lá se havia de sentir tentado a comprar uns trapitos e nós - pumba! - vai de introduzir uma pitada de fashion no universo eclético de retro e desbunda que é apanágio do Filipe.

Tá bem, tá...

Meia hora dentro da loja e já eu tinha desistido. À minha conta tinha uma série de peças escolhidas para experimentar e ele nada. Tinha vindo pelo convívio, diz que.

Às tantas dá-me para o disparate. Tem dias. E vai que lanço o olhar em farol à procura do casaco mais feio que pude eleger. E ele estava lá a rir-se para mim. Um blaser de Princípe de Gales de um amarelo chibante debruado a bordeaus. Em suma, uma peça horrível que talvez tivesse sido um must nos anos 50. Vesti aquilo sob o olhar de uma Eva surpreendida que se indagava do propósito daquilo. Mas eu estava felícíssimo e já escolhia a gravata mais feia que fizesse o pendant diabólico. 

Eis que...

"Por acaso casaco muita giro, já lhe tinha metido os olhos..." - o Filipe, pois claro.


A Eva vai ter um colapso. Arranca cabelos, rasga as vestes. Rimos todos. . "Proíbo-te de comprares isso, pro+ibo-te, estás a ouvir?!" - Diz ela. Rimos todos. Ele encolhe os ombros como quem diz "Tá bem, abelha..."

A tarde continuou, tarde lânguida e cinzenta de um Outono e uma paródia entre amigos. Amiúde, o casaco de príncipe de Gales lá vinha à baila de novo. Nós trocistas, o Filipe com um desportivismo ímpar."

Quando o deixámos na Expo ainda voltou atrás para meter a cabeça dentro do carro e matar o debate.

"E fiquem sabendo que só não o trouxe porque hoje não queria mesmo comprar roupa. Se não...            ... ai tinha vindo! E ainda sou gajo para lá ir comprar um dia destes."

O pior é que é mesmo!

Como não adorar um gajo assim?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Montanhas que parem evidências

Lá fui ouvir o discurso da Isabel Jonet atraído pelo odor da polémica.

Não percebi o escândalo.

Os tempos exigem austeridade e também acredito que há todo um lado higiénico na sobriedade que agora se exigirá. O sabor amargo do Nestum são contas de outro rosário mais dramático, claro. Mas algures entre as franjas dos espoliados da sorte que podem não ter tido culpa nenhuma e dos iníquos que deixam a culpa solteira no altar, estamos nós. Os assim-assim. Assim-assim empobrecidos, assim-assim culpados, assim-assim prejudicados. Sem a cruz do Nestum mesmo se expatriados de um quinhão dos nossos sonhos algo fúteis, cabe-nos a escolha de amuar sem que isso sirva de nada ou aprender  a viver sem o supérfluo e a cerrar dentes no essencial.

Se bem entendi dizia-se sobretudo isto. Desde que a crise começou tenho meditado numa série de coisas saudáveis: dar mais valor ao emprego mesmo se anda longe de ser perfeito, como poupar, como empreender, como ter algum contributo solidário. A necessidade apura o engenho. Mais do que isso, pode espevitar a vida em nós. Lá está, em tempos de guerra não deprimimos. A humanidade é curiosa.

Isto tudo para dizer que ouvi e não me revoltou.

Lá está...

Não percebi o escândalo.


Se gostas partilha se não gostas bota like!

Está na moda. A mais das vezes são frases piegas. Do estilo...

"Cabra que parte coração de moça é safadão, é sim!"

Ou

"Si ocê quiser muito, ocê dá um jeito, vici?"


Ou então são coisas com um cheirinho a sondagem Lapaliciana do tipo

"Se gostas do Toppo Gigio dá um like, se não gostas, partilha."

E eu fico a pensar...

Ca raio...

E rezo para que sob a aparência néscia fofa e inconsequente da cena esteja algo cerebral, maquiavélico que seja, focado em roubar endereços para ciberpirataria, testar comportamentos de compra para os tentáculos tenebrosos do capítalismo, algo assim!

Porque se no fim disto tudo concluo que é apenas mais uma vaga parva...

Esmorecem as minhas já poucas esperanças na humanidade...

Questão batida (piada de duplo sentido)

Eu já falei disto várias vezes.

Porque é que em qualquer canal que permita fórum a malta se engalfunha sempre toda, independentemente do tema?

- Ignorante és tu, oh tripeiro de merda!
- Vai aprender a escrever!
- Preto de um cabrão, volta para o teu país e não fales do que não é teu!
- Isto pedia era outro Salazar!
- É um Governo de filhos de puta


O tema era a Katie Melua e o primeiro comentário dizia

"Voz e cara de anjo. Lindo!"

Trezentos comentários mais à frente não faço puto de ideia de como chegámos a isto...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Auto das hormonas

E vai ele e diz  “Não queria nada!”
E vai eu “De certeza…?”
E vai ele “Quando precisar de uma namorada arranjo, não preciso de roubar!”
E vai eu “E se for uma gorda!”
E vai ele “Ou uma de óculos já agora…”
E vai eu “Óculos podias arranjar.”
E vai ele “Achas?!”
E vai eu “Só estou a dizer que de óculos não é nada do outro mundo.”

Pausa

- Não achas que ele gosta mas é da Sara?
- Ah isso não, o Henrique era incapaz.
- Eles são todos incapazes e depois…
- Não, isso, não conheço o Henrique bué da bem, era impossível.
- Oh como se tivesses a certeza!
- E tenho, conheço bué da bem o Henrique. Népia. Não era capaz, tenho a certezinha absoluta e metia as mãos no fogo. O Henrique não!

Pausa

- Sabes que o Pedro tem músculo?
- Wooow…
- Sério, até me deixou sentir. Ele pediu-me que o avaliasse.
- Que o avaliasses?
- De 0 a 10. Por partes. Corpo, olhos, cabelo. Tipo isso. No cabelo dei-lhe logo 2.
- Ya…
- Ele quer por parte porque sabe que em partes é muito melhor que no todo.
- Ya bem visto.

Pausa

- Ontem os meus pais foram às compras. Man…          … bué de coisas e depois puseram-me a mim a arrumar aquilo tudo. A nossa dispensa agora parece o Pingo Doce.
- O meu pai anda stressado.  É aquela cena, sabes? Estou naquela fase em que estou a deixar de ser menina e a ser mulher. Ele diz que se está a tentar habituar.
- Eu nunca me zango com o meu pai. O meu pai é fixe.
- Ya, o meu também. No Domingo quando acordei fui-lhe logo dar um abraço para ele ver que não estou zangada com ele. Até se assustaram. Depois ficaram para lá resmungões e eu saí do quarto.
- Epá, pareces os putos a ir ter com os pais à cama ao Domingo de manhã.
- Ya…

O 112 para ali ao pé do Conde Redondo e as duas adolescentes que me vinham a deliciar nas minhas costas sem que as pudesse ver saem. São duas miúdas giras e frescas. Do outro lado do vidro ainda vão a tagarelar. Com pena já não as ouço.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O meu nome é Dado, Enfadado

Porque é que insisto em tentar-me na curiosidade de ver os 007?

Enfadam-me os filmes de ação em que o exagero das proezas aproximam a coisa mais dos heróis da Marvel do que dos duros de carne em osso. Mesmo que carne e osso idealizada de Hollywood que obviamente está a anos de luz da realidade. Ainda assim...      O 007 é sempre isso, proezas a mais, história a menos. E já agora o James cada vez mais despido em proporção e tendência inversa às Bond Girls.

Assim não...

Não me intepretem mal. É um bom 007 para quem aprecie a saga. Não é o meu caso.

Quais são as possibilidades?

Arrastamos os pés pela Galeria Comercial a fazer tempo para o James Bond. Vamos a abandonar a zona de restauração quando passam as duas moças empinadas por nós. É tudo empinado, narizes, mamas, rabos, atitude. Gosto de umas coisas. Menos de outras. Uma solta o desabafo ao roçarmos quase o ombro "Epá, que cheiro a comida." - E retive pelo simples motivo de que uma certa neutralidade no tom me deixou na dúvida sobre se era o prazer da antecipação palatal e da fome ou de repugna pelo cheiro vagamente saturado em óleos que a zona tem.

O Vasco da Gama é grandinho. O meu périplo em tempo até ao rendez-vous com o James também. Dei voltas arrastado pela Eva que me enfadava no vagar de entrar em lojas. E às tantas reconheço as duas empinadas de novo em contra-mão. De novo voltamos a roçar ombros e a outra diz de novo. "Epá neste Shoping cheira a comida chinesa em todo o lado!"

Quais são as possibilidades?

Vou para casa a pensar que talvez tenha um crepe chines no bolso do casaco e não saiba!


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Planos alternativos de carreira

O gajo andava ansioso porque algo acontecesse. Tentava adivinhar o quê em qualquer trejeito do Chefe. Sabia que ia mudar e só não sabia se para melhor ou pior. E por isso adivinhava, ou inventava sabia lá. O outro permanecia opaco, insondável. Mas já saberia aquilo que sobretudo a si lhe interessava saber. De certo que sim.

De modo que foi com ansiedade que naquele fim de serão já a pensar em ir dormir foi conferir o email e lá estava o inusitado de um email da chefia para a sua caixa pessoal de email. Borrifou-se em todas as restantes mensagens e foi naquela que clicou tão rápido quanto pode, trapalhão na ânsia.

Era um convite para serem vizinhos no Farmville.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Líderes de opinião

Hoje fiquei ofendido com o Rodolfo. Para fazer conversa atirei com dois filmes que recomendava que visse. O gajo demorou uns segundos a responder - estávamos em chat - e depois disse, lacónico, sem coração "Estão mal classificados no Rotten Tomatoes." - "Olha que lata!" - Em vez de se fiar na opinião do seu amigo mais iluminado vai ver a média aritmética das opiniões de uma data de tipos manhosos que nem conhece. É tão absurdo como dizer-me "Epá, isso é uma merda! A malta do prédio do Sandro já viu toda e ninguém gostou!" - Há por isso dois motivos para que eu achasse que o Rodolfo não devesse dar crédito a este parecer de inteligência coletiva, a saber: não conhece a credibilidade intelectual da maior parte dos votantes; conhece a pouca credibilidade do Sandro! E apeteceu-me cuspir a réplica "ah, sites muito credíveis, tipo metem o Batman nos 10 melhores filmes de sempre..." - Mas depois lembrei-me que o Rodolfo também mete e preferi ficar calado.

Mas eu já nem estava a pensar no Rodolfo. Estava a pensar nos Gurus líderes de opinião. Porque é que alguém há-de estar minimamente interessado no que a Oprah diz? E o Cristiano Ronaldo! Qual é que pode ser positivamente o meu interesse na opinião dele sobre champôs ou aplicações financeiras? Eu só ouviria o Cristiano se ainda tivesse esperança de ser aceite na equipa de futebol da Z e precisasse de um método de treino. Olho muitas vezes para os outdoors com estrelas sorridentes e raramente sinto que a opinião da estrela engajada sobre o produto me influencie. São coisas que me ultrapassam assim como me ultrapassa que o pessoal não esteja interessado na minha opinião sobre uma série de coisas!

Também devo dizer que não gosto dos semi-reality-shows-semi-concursos-da-moda. Ele é cantores, chefs, pasteleiros, especialistas em casamentos, especialistas em moda, bailarinos, eu sei lá. Uma data de wannabes muito, pouco e nada talentosos e um painel de juris. Ora é o painel de juris que me irrita! Acho-os a mais das vezes uns tretas. E eu tenho uma série  de perguntas. Bom primeiro, vocês têm uma: "porque é que vês isso tudo?" - "E eu digo, porque a Eva monopoliza o comando." - Mas agora é a minha vez! 

Como é que o Tony Carreira pode ser juri num programa de música? Ele devia era dar aulas de Marketing no ISEG!

Porque é que a Bárbara Guimarães é juri num programa de música? Ela devia...             ... olhem, nem sei, ser doméstica que já nem para cara bonita da Chuva de Estrelas ia bem...

Porque é que os dois juris daquele programa das mal vestidas usam roupa tão feia?

Porque é que nunca ninguém fez Bitoque nem strogonof no Master Chef?

Porque é que eu não sou juri destes programas todos?


domingo, 4 de novembro de 2012

Sementes de coisas de que não gosto

Eu na caixa para pagar o saco de terra. O jardim Zen vai e agora a Eva quer cenouras. A mim pouco me importa. O ritual faz-me bem, dê o que der. E de repente começa o sururu. Dois gajos de mau ar estão a armar sururu. Qualquer coisa acerca de lâmpadas que não funcionam e que o chinês não quer trocar. Não sei quem tenha razão mas sei quem a está a perder. Os tipos começam a dar pontapés por todo o lado. Gritam, ameaçam. Às tantas um funcionário chinês empurra um deles que em semi-voo mete o pé fora da loja. "Filhos de puta, querem roubar vão roubar para o vosso país. No meu não roubam vocês..."

Paguei e saio sem saber o fim da história. Mas trago um travo de mau prenúncio destes tempos preso na garganta.




sábado, 3 de novembro de 2012

Casados e solteiros

Um dos temas recorrentes dos meus anos de solteirice foi o romantismo da vida dos solitários na cidade. Talvez não seja impossível voltar aí mas será uma escrita de memória sem o sabor fresco de ir todos os dias beber à fonte. É um clássico. A vida a dois muda-nos os tiques. E suponho que também essa dê mil crónicas. Penso nisso na constatação de que a mais das vezes agora acordo naturalmente cedo a um Sábado. Desde logo porque é raríssimo que me tenha deitado madrugada a dentro. Acordar cedo, tratar das lides domésticas. Lembro-me de como sempre caricaturei os tiques de "cota" ao Sábado de manhã. Despertar cedo, ir comprar peixinho, comprar o jornal. Depois recordo-me dessa anedota com o Paulo. Foi há uns cinco, seis anos, já nem sei. O Paulo tinha acabado de se divorciar e tinha caído de chapão desajeitado na vida de solteiro, ainda atordoado. Nessa noite levei-o para jantar mais a Aurora e a Vera, creio que era a Vera. Ele estava a precisar de amigos solteiros. Para um recém-solteiro aturar os amigos casados é a mais das vezes veneno na veia, toda a gente sabe. E por isso fomos. Às tantas a Aurora, que era a raínhas das noites hard-core primeiro escalão pergunta-lhe "Se já tinha acabado as manhãs no Europa." - O Paulo sorriu e disse que nos últimos anos as manhãs dele eram mais no Continente.

A vida é cíclica, claro. Entretanto o Paulo terá descoberto o Europa e o resto de um admirável mundo novo. Entretanto conheceu a Mónica, juntou os trapinhos e o filme deu mais uma volta. Aposto que a esta hora está de novo no Continente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Casar com a Evita - Parte I - Vendedores de banha da Boda

O périplo na procura de onde fazer o casamento terminou. Ainda não tomámos uma decisão mas temos três propostas finalistas sobre as quais meditaremos sem sair de casa. O périplo esse terminou.

Para trás fica uma estupada de análises de espaços e preços e propostas mais ou menos indiferenciadas mas que levantavam dúvidas existenciais sobre se era preferível ter caipirinha ou camarão. De entre as milhentas propostas acabei por concluir que a diferença das coisas está no preço e no potencial do espaço. Ter o capital ou a herança que permitam um espaço nobre não é para todos. E é por isso que vimos espaços onde dava vontade de casar e outros em que dava vontade de comer frango no churrasco e em que até o epíteto de "Quinta" nos parecia abusado. 

Basicamente é isso! 

A comida é uma variável pouco variável. Haja dinheiro e haverá paparoca, muita e da boa. Se é boa realmente, lamentavelmente saber-se-à tarde demais. Nas ementas os nomes soam todos muito bem, com aquele toque de nouvelle cuisine com que os tempos rebatizaram todos os pratos, mesmo os banais.

A decoração é a tal coisa. Passei horas enfadonhas a ouvir narrar com não disfarçado orgulho os pergaminhos de cada casa. Alguém lhes devia dizer que oferecem todos o mesmo, embora todos teimam que têm a melhor decoradora floral e o melhor pasteleiro designer, com especializações feitas na Conchichina. Mas nem tudo foi tempo perdido. Eu sou um gajo simples que até à data distinguia sete cores, pouco mais. Mas achei fantástico saber que qualquer que seja a cor que enfeite as mesas do meu casamento, vai ser uma diferente destas sete que eu conhecia.

Finalmente a animação. A animação também é sempre igual. Má, portanto. Podia não ser má, claro. Se eu fosse rico. E trouxesse um quarteto de cordas para a apoteose da entrada da Eva na cerimónia. Depois podia ter um stand up do Ricardo Araújo Pereira e depois os Xutos pela noite dentro. Mas como o orçamento talvez dê para fogo de artifício (uau) mas não dá para nada disto, desconfio das propostas. Und DJs a preços escabrosos tendo em conta que vão tocar o que eu penso que vão tocar, umas bandas que vão ter que correr à frente da Eva quando não resistirem a tocar pimba e....                     ... bom o melhor são os apontamentos cénicos! Uma senhora descrevia-me com orgulho como seria a apoteose da entrada do bolo. "Então, é assim, vêm os nossos empregados com archotes e a carregar o bolo sobre uma espécie de liteira. E eles vêm todos vestidos de monge com uma música de canto gregoriano" - "Uau!" - pensei eu - e apeteceu perguntar se ela tinha pensado naquilo tudo sozinha.

Mas finalmente, não! A crónica desta demanda não ficaria completa sem referir o best of das tretas da banha da cobra com que nos brindaram...

Medalha de bronze - Eu comentei jocoso com a senhora que a Eva queria à força caipirinhas no copo de água e que estava com um favoritismo irracional pelas propostas que as incluíssem. Naquela quinta não era o caso. E por isso a senhora olhou para os números meditou por um segundo e atirou "Bom, não é por isso que deixaremos de negociar. Eu ofereço uma caipirinha aos noivos à chegada!" - "Eix! Prodigalidade!" - Seria uma para cada um?

Medalha de Prata - A comercial mostrava-nos a sua Quinta. Era a coisa mais feia que já tínhamos visto, pensava cada um para si. A moça que não deve ler pensamentos e não sabia por onde tínhamos andado parecia no entanto adivinhar o que nos ia na mente. E lá argumentou no desespero da venda quase perdida. "Sabe, isto decorado...            ... e depois depende muito do fotógrafo! Nas fotos parece outra coisa se for bem fotografado!" - E eu a pensar para mim "Isso é que é importante! Todos os que não vierem ao casamento não vão sonhar que era uma merda!"

Medalha de Ouro - Na mesma quinta - que se devia chamar Quinta das Ostras porque era só pérolas - a moça a ver a venda cada vez mais perdida esbarra noutra dificuldade quando nos diz que o espaço fecharia à meia-noite e a resposta é um esgar de desagrado.             ...   silêncio constrangedor entre as trincheiras da negociação...        ... sabe diz ela...            ... fazemos isto para proteger os noivos! A partir de determinada hora os convidados bebem demais, armam confusões, figuras tristes....             ... e estragam o dia.!     - E eu a pensar que o faziam porque as horas extra em pessoal roem a margem de lucro...           ... ah que gente de coração grande!

Bom, mas já está...

Próximo passo, local definitivo, data, convidados.

Aposto que isto ainda dá mais um monte de crónicas!