Vim a pé. E primeiro pensei que Lisboa inteira estivesse de greve ou de ronha ou naquilo que cada um creia que é melhor para si. Junto ao Tejo parecia Domingo de manhã. De uma manhã bonita. E eu fui meio sózinho. Até que lá para o Campo das Cebolas a cidade acordou-nos nos passos dos alguns outros pela rua. Virei sob o Arco da Augusta para Norte. A Rua está quase deserta. As primeiras lojas abrem portas estremunhadas e as carrinhas fazem a distribuição.Porta sim, portas não o comércio morre, em fachadas empoeiradas, trancas à porta e números de telefone "Vende-se" - "Aluga-se" - "Vende-se Lisboa, o próprio" - Ou não, e olho a persistência de charme passado de moda das modas da Baixa. Está frio. A loira bonita passa por mim em corrida e a cuspir vapor no ofego da respiração. Os dois engravatados estugam o passo. Eu não, eu caminho, passada calculada de quem vai chegar à hora e não quer chegar antes nem depois. Baixo o olhar à velha gorda que sorri num sorriso pateta e desdentado. Esparrama o rabo enorme no apoio do primeiro de três troleis de viagem quase tão acabados como ela. Eu olho-a. Posso-a olhar porque para ela nem estou ali. Com um lápis pequenino escrevinha qualquer coisa numa volha de papel. Recita para que se lembre do que escreve "Se-gun-da-fei-ra. Du-as-ho-ras..." - Agenda. De quê? Não sei. Do hospital, de loucura, de nada. Não, não sei. Os dois criados vêm a sair da pastelaria chique. "Oh não sei quantos, não fizeste greve?" - O colega da concorrência desempilha mesas na esplanada e ri. - "Se eu fosse mulher morria virgem!" - Chilreia o magriço de rosto encarquilhado. Faz contraste com a fatiota de colete que trás. Não jogam. Ri e repete "Se eu fosse mulher morria virgem". Desconfio que é a sua deixa fetiche. Desconfio que se ficasse ali a assistir ao resto da sua vida se repetiria sempre, muito para além do meu cansaço. Mas não fico. Já estou quase no Rossio. Depois virá a Avenida da Liberdade. E o preto rechonchudo que acorda do canto da calçada onde dormiu. Faz um ar quase bonito e tacteia a garrafa de vinho meia ao lado. Primeiro gole do dia. Há mais corpos na calçada. Não estão mortos, ainda não. Ainda dormem, alheios ao zumbido que se eleva. Como que a ignorar a cidade de vingança desta os ignorar a eles. Afinal estamos todos em Lisboa. Mas equivocam-se se a julgarem de todos.
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