Vinha a entrar em casa quando a vizinha me interpelou. É uma mulher magra que vive duas portas abaixo. "Olhe vizinho, já viu essa raspadela que tem no carro?" - Não tinha visto.- "Tirei a matrícula a quem lhe fez isso. Mas sabe, não vale a pena. Quem era nem carta deve ter quanto mais seguro." - E aponta para o casario a montante. Há uma linha na rua que separa a Graça castiça do casario lá de cima que é outra coisa. Às tantas reconhece-me. - "Olhe é o senhor da gatinha!" - Sou. E ela é a vizinha protetora dos animais que num fim de tarde de meio de Verão andou comigo a calcorrear abaixo e a cima e a bater em todas as portas "V'zinha, viu a gatinha deste v'zinho?" - Lá lhe expliquei que a gatinha tinha voltado. - "O meu cãozinho entretanto morreu." - lá disse ela. Nessa tarde ela trazia o seu caniche, velhinho, muito velhinho. - "Trago-o à rua ao colo porque gosta. Mas já é cego." - Entretanto tivera que o abater do sofrimento. O esgar esmorece-se. Mas os olhos negros brilham de novo e diz que "Olhe, a minha sobrinha até diz que foi coisa da minha Lela lá no Céu dos bichinhos mas dias depois os dois gatinhos pequeninos da rua subiram escadas de incêndio acima e foram comer os restos da comida da Lela. E como ao fim de dois dias não saíam de lá, abri-lhes a porta." - Rio-me. Aquela vizinha é engraçada. E digo o que ia pensando se diria enquanto a ouvia - "Olhe, gosta de marmelada!" - Os olhos acendem-se que sim e eu tiro uma caixa do saco que trazia à tiracolo "Marmelada caseira! Fez a minha mãe e deu-me para mim e para oferecer a amigos. Teria todo o gosto em dar-lhe uma caixinha, aceita?" - Que sim, que sim, adora no pão, com queijo e com banana. As mãos abrem-se à caixa e o sorriso a mim. E eu lembro-me do Fernando que me dizia há dias que oxalá tudo isto de mau traga alguma coisa de boa na solidariedade e calor das relações.
E foi assim.
Não sei se já vos disse mas eu gosto da Graça.
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