sábado, 10 de novembro de 2012

A farsa do Princípe de Gales

Um dos meus melhores amigos deixou a nave espacial estacionada algures e não se lembra onde. Eu suponho que seja por isso que não consegue voltar para o seu planeta e foi ficando por cá. Num desses encontros imediatos do terceiro grau em jeito de acasos felizes a amizade entre nós nasceu. O Filipe é uma peça rara. Arguto, um coração raro e com essa virtude que admiro da simplicidade. Mas claro que isto não é um memorial nem um elogio, é uma crónica e as minhas crónicas têm sempre água no bico. E aqui o que mete água é que o gajo é a coisa mais despojada de vaidade e sentido de moda que se possa imaginar. Um passarão enorme que aparece onde quer que seja como muito bem lhe parecer bem a ele - o que não coincide necessaria nem provavelmente com o que pareça bem à maioria - e o resto é conversa.

Hoje fui com a Eva comprar roupa. Decidi convidar o gajo na megalomania de um revivalismo da fábula de Pigmalião. Em conspiração achávamos que o gajo lá se havia de sentir tentado a comprar uns trapitos e nós - pumba! - vai de introduzir uma pitada de fashion no universo eclético de retro e desbunda que é apanágio do Filipe.

Tá bem, tá...

Meia hora dentro da loja e já eu tinha desistido. À minha conta tinha uma série de peças escolhidas para experimentar e ele nada. Tinha vindo pelo convívio, diz que.

Às tantas dá-me para o disparate. Tem dias. E vai que lanço o olhar em farol à procura do casaco mais feio que pude eleger. E ele estava lá a rir-se para mim. Um blaser de Princípe de Gales de um amarelo chibante debruado a bordeaus. Em suma, uma peça horrível que talvez tivesse sido um must nos anos 50. Vesti aquilo sob o olhar de uma Eva surpreendida que se indagava do propósito daquilo. Mas eu estava felícíssimo e já escolhia a gravata mais feia que fizesse o pendant diabólico. 

Eis que...

"Por acaso casaco muita giro, já lhe tinha metido os olhos..." - o Filipe, pois claro.


A Eva vai ter um colapso. Arranca cabelos, rasga as vestes. Rimos todos. . "Proíbo-te de comprares isso, pro+ibo-te, estás a ouvir?!" - Diz ela. Rimos todos. Ele encolhe os ombros como quem diz "Tá bem, abelha..."

A tarde continuou, tarde lânguida e cinzenta de um Outono e uma paródia entre amigos. Amiúde, o casaco de príncipe de Gales lá vinha à baila de novo. Nós trocistas, o Filipe com um desportivismo ímpar."

Quando o deixámos na Expo ainda voltou atrás para meter a cabeça dentro do carro e matar o debate.

"E fiquem sabendo que só não o trouxe porque hoje não queria mesmo comprar roupa. Se não...            ... ai tinha vindo! E ainda sou gajo para lá ir comprar um dia destes."

O pior é que é mesmo!

Como não adorar um gajo assim?

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