sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A crise adiada

Hoje descia à rua e vi os putos da faculdade no frenesim da praxe. Depois, ainda há pouco cruzei-me de novo com putos. Podiam bem ser os mesmos, apinhavam a rua ao largo dos bares de Santos. Efusivos nas pinturas de guerra da noite.

Perguntei-me como estará a cidade daqui a dois, três anos.

Nas conversas de amigos não falamos de outra coisa. De futuro, qual seja, haverá?

Os putos por ora não pensam nisso.

É quase aliciante. Será que os problemas para que eu me recuse a olhar persistirão em existir?


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Rocheteau

Eu não me lembro da maior parte dos professores que tive. Como em tudo as memórias vão-se desvanecendo mesmo se algumas são recentes. Esquecemos. Lentamente esquecemos tudo. Mas houve um tempo especial que marcou. Tínhamos quinze, dezasseis anos. E éramos uns putos em nada especiais. Deve ter sido por isso que a vida não fez de nós ricos ou famosos. Mas aquele tempo foi especial, pelo menos para nós, pelo menos para mim. É por isso que me lembro. E mesmo se me esqueci de quase todos os professores que vieram depois e de outros tantos que vieram antes, a verdade é que daqueles nunca esqueci. Recordo-os amiúde, com um sorriso. Ainda consigo recordar com frescura alguns episódios. O Professor Cunha com a sua fleuma e humanidade e meio termo de vontade  e desacerto em cativar um bando de putos vagamente palermas, a Professora Luísa que nos levava à certa no seu estilo cúmplice de gajita do nosso tamanho que era quase "tu cá tu lá". O Professor Alberto, genial, cego que nem um morcego e que nos abismava de parecer que via mais que nós. A Professora de Latim. O Professor Norberto, por quem ficámos a dever uns tantos pecadilhos de putos parvos na nossa conta pessoal com Deus. Sim, recordamos-los a todos com carinho. Mas se houvesse que eleger uma memória particularmente indelével desses dias eu creio que todos exclamariam o nome do Professor Rocheteau. Talvez não fosse o melhor professor de filosofia do mundo, não, não seria. Mas o que nos ensinou foi muito para além disso. Lembro-me de uma das suas primeiras aulas e da forma como definiu as regras do jogo "Eu trato-vos por senhores, vocês tratam-me por professor. Se conquistarmos o respeito e a amizade uns dos outros tratar-nos-emos todos pelo primeiro nome, por tu." -  Começava uma viagem. Talvez com menos Kant e Platão do que o programa recomendaria, talvez. Mas uma viagem marcante, poética, estética, absurda, docemente absurda. De um homem que declamaria poesia nas aulas e se emocionaria com as suas próprias palavras. Enérgico, no seu desafio constante a que despertássemos para a melhor literatura, para o melhor cinema. Perguntaria entusiasta "E Kundera, alguém leu?" - Os putos riam, néscios e o Professor Rocheteau esboçaria um esgar enfadado "É um livro lindo. Mas vocês são um bando de imbecis que não se interessam por nada." A turma riria mais ainda. Mais Hegel, pouco mais. E depois um debate político e algures a meio o Pedro ia para a rua por disparatar. O Pedro ir para a rua era rotina mas ali ir para a rua era diferente. "Pedro, ponha-se na alheta antes que lhe atire com um apagador nos cornos!" - O Pedro ria e saía. Mas depois voltava. Ali as coisas eram diferentes e o desrespeito era uma espécie de pantomina cúmplice. Na verdade não existia.

Pôrra, passaram, 20 anos...

Há tempos juntámos-nos num jantar de memórias. Um Rocheteau grisalho, velho e mirrado do homenzarrão que era como eu o recordava, juntou-se a nós. Rimos, já sem os "senhores" e o "professor", que todos tinham passado no exame do respeito e da amizade. Como sempre o velho mestre ao centro a contar histórias que os alunos iam espicaçando deleitados. Eu ouvia e sorria para mim daquela vida tão diletante, tão profundamente trágica nos seu espalhafato agridoce de sensibilidade excêntrica e disparatada eternamente à deriva. A minha namorada, carta fora do baralho daquela noite nostálgica escutava boquiaberta em espanto: "Este velho louco foi vosso professor?" - Foi. Um professor e peras! Meio doido, claro, mas um professor e peras. Às tantas um tipo cruzou-se connosco. O Rocheteau cumprimentou-o e abriu os braços na nossa direção "São os meus alunos."

Hoje o velho Rocheteau faleceu. Recebi a notícia por uma colega desses dias. O tempo passa. Já lá vão vinte anos. Mas as coisas boas não apetece esquecer. Na minha memória ele vem lá sempre, no seu estilo jovial de hippie fora de prazo com um bando de putos a saltitar à sua volta.

Até sempre, velho mestre...

sábado, 22 de setembro de 2012

Sábios e espertos

A velha indecisa na farmácia. Medicamento dos diabetes ou do coração? Aposta-se que a reforma miserável só deixe escolher um. Aposta-se mais, esta não será nem a primeira nem a última transigência do mês de uma velha a negociar uma sobrevivência triste consigo mesma. "Quanto mais se bate no fundo mais ele desce." - Suspira.

Metade da história contou-me a Ana, as ilações óbvias são minhas. Não é preciso ser um Sherlock.

Dúvida metódica - da Ana, não minha - como é que é possível aprender tanto numa vida e chegar a isto?

Porque o mundo é dos espertos, suponho. 

Sabedoria é crédito de outro campeonato. O caminho da sabedoria é de contemplação, de nos indagarmos e de perdermos tempo que chegue na dúvida de um caminho. Isso lá ganha campeonatos? Os campeões trazem um fogo a arder no peito, convicções enfáticas e o enfoque da vida numa só resposta a uma só pergunta: como ganhar? São pessoas absolutamente competentes nesse aspecto e a mais das vezes absurdamente estéreis da arte de perceber tudo o resto que os rodeie.

E de repente já não estava a pensar na velha da Ana. Ontem debatia com o Ricardo as (fracas) possibilidades de emergirmos desta crise. Ele dizia que éramos reféns de um sistema que permitimos. Precisávamos que emergisse um maluco. Corajoso, sério, um pouco sábio, suponho. Que fizesse como outro maluco e com o chicote expulsasse os vendilhões do templo. Nem se pedia a utopia de terminar a obra, que utopias e obras terminadas são coisas raras. Mas que algumas vergastadas devolvessem ao povo uma réstia de uma fé quase morta.

 Mas a esse outro maluco crucificaram e até os gajos sábios são suficentemente espertos para não se meterem a jeito. E é por isso que somos reféns. A porca política atrai espertos, não sábios.

O que é que eu quero dizer com isto tudo?

Olha, Ana, tenho meia resposta para ti. Espero que chegue, vai ter que chegar. Eu cá não sei realmente se a velha é sábia nem como chegou a esse ponto. 

Mas aposto que não foi esperta. Porque o Mundo é dos espertos. E está visto que a velha não tem quota.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O essencial das coisas

Hoje ouvi na rádio que muitos admitem ter cortado custos. Têm menos créditos, andam mais de transportes, a pé, de bicicleta. Baixaram a factura energética. Lá está, em tudo de bom há sempre algo de mau. Vice versa também é verdade. 

No apertar o cinto não há só fome, também há a lição do comedimento. E eu lembrei-me de uma conversa que já terá uma meia dúzia de anos com a Bê. Jantávamos em casa dela e ela dizia que um dia isto ia ter que estourar. Era produção a mais, era consumo a mais, era desperdício a mais. Na nossa apatia de carneiros deleitávamos-nos na hipnose do último automóvel, do último telemóvel, do último qualquer coisa. Não dava! É que nem era só a conta fiada na mercearia a Portugal que um dia se esgotaria. Era o Mundo que se esgotava nos excessos de tudo de uns e nas ausências do nada de outros. Está certo que Portugal tinha pergaminhos para se desmoronar ainda antes, mas em última instância tudo se desmorona. E, claro, eram filosofias de jantar, trauteadas a vinho e cigarros. A Bê continuava e dizia que a única saída seria a capacidade de uma geração de amor que emergisse. Eu não tinha tanta a certeza. Temos mais propensão para a dor e para o despudor do que para o amor e nem o abraço de uma miúda gira no corpo hirto de um gajo fardado me demoveu ainda destes cinismos. E por isso até ver só o primeiro capítulo da parte má das profecias da brasileira se confirma...

Estamos tesos. Não ainda não estamos tesos, nem todos nem completamente. Mas para lá caminhamos. E não nos iludamos, enfrentamos o lado ainda pior das coisas já de si más. Desamparo na carência, incerteza, desigualdade. Isto para dizer que não quero com esta conversa toda dizer que Pedro Passos Coelho seja o Messias da Geração do Amor e Despojamento que a Bethânia desejasse. Não nos confundamos, o Primeiro Ministro é apenas um tolo. Apenas isso. Um burro que traz alguma coisa preciosa no alforge não deixa por isso de ser um burro.

Então digo o quê?

Talvez a Bê também seja tola nas suas crenças. Mas bem menos que o Pedro. Bem menos..

E por isso, olha, reinterpretemos o sentido essencial das coisas e sejamos felizes.

Ou como dizia o outro, "Muita saúdinha!"

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Futebol total


-Tens um mau feitio... - suspira
- A tua tia é que tem mau feitio!

Ele sorri...

"Pôrra, já me lixei" -  pensa ela

Gajos 1 - Gajas 0

Mas é só a primeira parte. No fim perdemos sempre...

Recibos verdes

Eu antes só me perguntava porque é que os recibos verdes eram de facto azuis.

Agora, que dei por muito a estudar a coisa melhor, pergunto-me muito mais coisas e que são acerca da iniquidade do sistema.

A pesquisar sobre as regras deparei ao acaso com alguém que dizia algo como isto

"Trabalhei 3 anos a recibos verdes. Sem direitos, sem férias, sem baixas. Ao almoço comia sopa e alegava que estava de dieta, à noite bebia leite. A minha dignidade ficou no bolso de alguém."

Algo cheira a podre no reino. E não é da Dinamarca, é das bananas, mesmo.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

57 channels and nothing on

O Zapping é a minha auto-flagelação. Não me diz nada, não me dá nada. Mudo de canal nem sei porquê. Assim como liguei a televisão, nem sei porquê. Não sei porque não a desligo. Caramba, juro mesmo que não sei. Nada. Masco mais uma série. Mais uma pastilha seca de a ter mastigado bem para além do sabor que tem para me dar. Sempre a mesma receita, os ingredientes são sempre os mesmos. Até eu, cereja parola em cima do bolo. Já não há documentários. Há tempos ouvi alguém ironizar do Canal História, esse Canal de entretenimento e pseudo-cultura. Pois é. O controlo remoto rema para trás para a frente. Os extra-terrestres que ajudaram o Hitler a ganhar a guerra, casas assombradas e as mulheres dos mafiosos, tudo em estilo reality show...

E de repente ocorre-me uma coisa audaciosa. Vou ver um canal português, um dia não são dias! E pimba, aterro na TVI que vai na Edição 3 da Casa dos Segredos sem que eu tenha visto as duas primeiras. Arrisco-me portanto a não entender o enredo. Mas fico. Em boa hora! Vão ligar à Casa e eu de repente sinto-me alguns 15 anos mais novo e tenho vontade de gritar "Força, Zé Maria" - Está tudo igual, os mesmos mentecaptos a fazer a recruta que precederá a tômbola diabólica das presenças pagas em discotecas, capa de revista, escândalo, tentativa de suicídio e depois, nada, ocaso da oblivião do povo. Tudo em dois meses! Mas isso será depois. Por ora estão felizes. A Teresa cumprimenta para dentro da casa e eles respondem - meninos de coiro - "Olá Tereeeeeesa!" - E depois ela dirá as parvoíces do costume e o mais prodigioso é que não precisa de dizer mais nada. A fórmula ainda vende. Continua a ter ar de mono endiabrado, está mais gorda. De resto tudo igual. Mesmo! Eu esqueço-me do tempo e grito mesmo "Força, Zé Maria, não lhes ligues!" - Mas às tantas a realidade atropela-me. Ahhh, quem quero enganar? Já não há Zés Marias no meio daqueles Cristianos Ronaldos todos! A utopia morreu.

Mudo de canal.

Um dia destes liberto-me e desisto da Zon.

domingo, 16 de setembro de 2012

A festa

Alguns falaram da festa do povo, de que o 15 de Setembro foi sobretudo uma festa, apolítica e inconsequente...

As coisas são como são. Talvez os espanhóis e os franceses tenham mesmo mais propensão para lavrar um protesto a ferro e fogo. Talvez os gregos estejam simplesmente mais desesperados. Mas não é isso ou pelo menos não tem que ser isso que vinque a justeza de uma convicção. A história indicia que somos de facto e provavelmente menos aguerridos. A mim o que me ocorre dizer é, menos mal, não podíamos ser maus em tudo. Um amigo dizia há dias que de algum modo nos prejudica o jejum português de cheiro a sangue nas ruas, decorridos que são séculos sem que lavre uma guerra sem que seja lá longe, num ultramar qualquer. Mas eu estranho-me e dou por mim a pensar que só há três formas de dar verdade nesse pensamento: na frieza dos números de quem faça contas de uma guerra que não lute, na sede das hienas e no entusiasmo bacoco de quem justamente nunca sentiu o cheiro do sangue na rua.

Se eu ontem vi uma festa? De algum modo, sim. Mas de um modo bom. Sentia-se no ar um certo conforto de que tantos tivessem saído e uma certa harmonia de que se estivesse a conseguir fazer as coisas do modo certo. Perdi muito tempo a olhar em redor. A multidão guardava as dessintonias que se adiavam para depois, claro. Ali o fio condutor era apenas o suficiente de todos concordarem que discordavam. De resto houve uma coisa que me apaziguou, sou franco...

Serenidade...

Na normalidade das coisas somos vagamente rudes, hostilizamos-nos no trânsito, furamos quase à cotovelada na azáfama do dia-a-dia e ainda inventamos sectarismos de clubes e do diabo a sete para podermos beligerar ainda mais. Ali, mesmo no contexto tendencialmente nervoso de uma multidão sentiu-se uma concórdia e um respeito que me surpreendeu. Dirão que foi o fogo fátuo de uma cumplicidade efémera. Provavelmente, muito provavelmente. Mas ontem houve realmente festa.

Rescaldo político de um abraço

A foto da miúda gira a abraçar o polícia está a dar a volta à rede social. E ao ler os comentários lembrei-me da minha conversa de ontem com a Bê, enquanto cumpríamos o percurso da manifestação. A Bê dizia que estava curiosa para ver o rescaldo político e jornalístico da coisa. Ríamos a adivinhar que no fim todas as forças políticas fariam um balanço vitorioso. E de facto as posições são como as vaginas, lá dizia o outro, cada qual com a sua e dá como quer e a quem quer. E essa é uma verdade incontornável, mesmo no fait diver romântico mas no fim de contas pouco relevante de uma foto de um abraço. São aqueles momentos que sem significarem tantas vezes nada se arriscam a ficar cristalizados na História como símbolos de um todo. Nada ou tudo a verdade é que já estão aí as opiniões. Li algumas e vou inventar as que faltam, com vossa licença...

Pedro Passos de Coelho - O povo demonstrou serenidade e saiu à rua para manifestar o seu apoio ao Governo. A foto demonstra isso. Estamos unidos numa visão!

Paulo Portas - O Povo está no limite e nós também. O CDS está com o Povo e contra o Governo e na próxima manif também lá estarei a distribuir abracinhos. E eu sei que isto soa um bocado esquizo sendo que sou do Governo mas o que importa aqui é  abraço que é um abraço responsável com sentido de estado. Mas fofinho!

António José Seguro - O povo demonstrou serenidade e saiu à rua para manifestar a sua censura a este Governo. Todos os quadrantes sociais e as próprias forças de segurança estão unânimes neste chumbo às políticas do PSD. A foto demonstra isso, estamos prontos para governar!

Jerónimo de Sousa - A Comunicação Social e as redes sociais como sempre prejudicam a voz Partido e não estão a dar o devido destaque à fotografia de uma camarada idosa com uma pensão de fome a oferecer um cravo a um agente da autoridade!

Metade dos gajos anónimos - Ai quem me dera ser polícia.

Minoria significativa de gajos anónimos - Ai quem me dera ser manifestante!

Pessoal do contra - É tudo muito bonito. Eu queria ver era se fosse eu a lá ir em vez da gaja boa. Era logo bastonada!

Polícia - Malta, nem vão acreditar! A miúda gira da manif meteu-me um papel com o número dela no bolso da farda!

sábado, 15 de setembro de 2012

Prognósticos muito antes do fim do jogo

Daqui a bocado saímos à rua. Eu pelo menos saio. Outros sairão. Nunca saem todos mas sairão muitos. Suponho mais do que o que me lembro no meu tempo de vida. Essa será a primeira grande vitória de alguma coisa vaga. A vitória não começa quando realmente ganhamos nem acaba quando parece que tenhamos perdido. A vitória começa quando nos erguemos da apatia. Hoje é provavelmente isso o máximo que temos a ganhar. Mas já é tanto...

Um amigo que por acaso é financeiro dizia-me ontem com ironia que esta crise despertou um financeiro de bancada dentro de cada português. Eu direi mais, despertou finalmente políticos, financeiros, cidadãos, dentro de muitos portugueses. Finalmente! O país não se constrói de treinadores de bancada nem de mitos sebásticos do José Mourinho. Esta é a vida real e mesmo se custa é mais proveitoso que a discutamos no Facebook do que  plantemos nabos no Farmville!

A partir daqui tudo em aberto. Sentimos todos uma vaga unanimidade de meter um ponto final parágrafo em algumas coisas mas a partir daí não haja ilusões, dividimos-nos em muitas hipóteses e interrogações. Isto não é necessariamente mau. Não, reformulo, isto é bom. Que nos manifestemos mesmo que depois nos dividamos num debate de opiniões que eventualmente esprema algo de novo. Tenho ouvido muita coisa das quais discordo e concordo.  Vagamente, enfático? Nestas alturas todos têm opinião porque a bancada é mesmo assim. Até já ouvi clamar que o que nos fazia falta era um rei mais as províncias ultramarinas. Mas pouco importa! A verdade é que parece que sacudimos o pó do pensamento político. Isso é bom...

E é por isso que ao intervalo, e mesmo a perder por muitos a zero de alguma forma já se marca o primeiro golo.

Caso para dizer, que se foda o Benfica, carrega Portugal...


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Verdades lixadas no estilo Farmville

Trocado por miúdos para que só os miúdos - eventualmente- não entendam...

Mas, não antes disso...

Há pouco estava a ler uma entrevista de um dos mentores da Troika. O que ele em resumo dizia era que perante uma situação como a portuguesa, de bolso pequeno e dívida grande, não há soluções fáceis, bata-se onde bater. E por isso de alguma forma o Governo, embora tudo seja questionável e incerto, tomava uma opção que nem era absurda. Apenas difícil de aceitar. Acrescentava outra coisa: todo o debate se tem feito acerca da extrema dureza das medidas, da injustiça que acarretam. É verdade. Mas ninguém ainda  indicou uma alternativa.

O gajo tem razão

Claro que o gajo também não tece juízos de valor sobre uma série de coisas: como é que aparece e quem dá causa à situação portuguesa; o sistema é justo; gostas mais do pai ou da mãe? Nada disto. Há uma dívida para pagar, ponto 1. Que soluções existem para a liquidar que não impliquem a falência absoluta do sistema (o que em última instância não se confunde com a justiça do sistema, infelizmente), ponto 2?

Ponto final. É só isto e apenas isto na sua crueza. 

Ora foi a partir daqui que desatei a refletir no farmville e nas metáforas que a coisa me inspirou.

Nós, os portugueses, parecemos uma Cooperativa Agrícola dos arrebaldes. Que na verdade não coopera, não se interessa, não age. Viemos de malas aviadas para a cidade grande que é mais confortável e deixámos as terras entregues a uns caseiros que nem nunca quisemos conhecer como deve ser. Raramente visitámos a fazenda ou quisemos saber que fruto dava e porque mester. Desde que nos fossem caindo, ocasionalmente, galinhas na mesa, borrifámos-nos. Mesmo se fomos desconfiando que as coisas iam por caminhos enviusados, borrifámos-nos e lá foi ficando o caseiro com as terras.

Só que o caseiro não plantou nada e colheu o que havia a colher. E quando nada havia a colher pediu emprestado. Pelo meio todos ganharam algo. Galinhas gordas para os caseiros, para os amigos dos caseiros. Até para nós, proprietários dolentes desta plantação fandanga foi havendo galinha. Magra, é certo, mas galinha. E por isso e apesar disso nos borrifámos.

Mas agora quem emprestou aparece a cobrar o preço deste longo almoço que por um longo instante pareceu mesmo que afinal os havia grátis. O caseiro não tem como, claro. Os patrões que paguem as favas.

E nós atiramos-nos ao ar! Não fomos nós que deixámos os campos secarem e que chuchámos as tetas das vacas até darem sangue em vez de leite. Pois não. Mas permitimos que o fizessem. Permitimos na nossa quintinha. A dívida não é de quem nomeámos para que gerisse os nossos negócios. A dívida é nossa. E agora não vale a pena dizer que não pagamos. Até porque não pagar significa que nos fechem as torneiras dos rios e que tudo seque para que em vez de vacas magras tenhamos vacas mortas.

A culpa é nossa que estamos sempre à espera de um paizinho, de um Sebastião, de um Salazar, de um Mourinho, de um FMI. Alguém que nos limpe o rabo. Inevitavelmente é uma maneira de estar na vida que realmente dá merda.

Moral da história?

Não vale a pena dizer mal da Troika e que o sistema é injusto. Quem não quer o Diabo não dança com ele.

Não vale a pena só indignarmos-nos todos, porque só a indignação é fácil. Nem protestarmos que emigraremos já que só alguns conseguirão.

O que vale a pena é perguntarmos-nos o que fazemos a seguir, como mudamos isto. O que vale a pena é refletir no valor do nosso próximo voto e na responsabilidade que existe em encolhermos os ombros a próxima vez que virmos o caseiro roubar.

É que, de forma retorcida, em toda a injustiça destes tempos permanece uma profunda lição que andamos a pedir desde o tempo de D. Afonso Henriques.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Especulem-mos

Hoje estive a fazer contas à retrospetiva da fortuna que já paguei pela minha casa. Ainda nem metade do total do empréstimo foi, nem por sombras. Mas se lhe somarmos os juros já paguei quase tanto quanto a casa vale e que por sinal é substancialmente menos do que aquilo que paguei por ela. Depois olhei para a frente e vislumbrei o ano em que acabarei de pagar o empréstimo. Estarei velho. Provavelmente ainda trabalharei. Mas estarei velho. Isto se nenhum contratempo pelo meio me levar a casa bem antes de estar velho. Vendida já paga o empréstimo, rés-ves Campo de Ourique, mas paga. Menos mal. Uma coisa é certa, os sonhos de que a vida vá melhorando, ser promovido e tal e pagar a casa mais rápido, comprar uma casa maior, os putos o cão e o jardinzinho e todas essas coisas que sonhávamos quando ainda pensávamos que éramos classe média em ascensão...         ... todos esses sonhos se vão esfumando e fica só esta minha folha de excel tenebrosa em que de repente me sinto roubado embora não saiba bem como nem por quem...

O mais assustador é sentirmos que pouca escolha houve. Uma espécie de mão invisível move os dedos em cartel e faz rodar o ciclo da vida de uma quinta de formigas. Tive um chefe que adorava a expressão "levar os bois pelo curro". É isso mesmo. Boi em curro. Ocorrem-me mais metáforas, claro, como a da golpada do cigano que nos baralha com os trocos e nota vai, nota vem no fim ficamos com metade do dinheiro na mão. Mas a minha preferida é a de boi pelo curro. No fim morremos cansados no fim do calendário de prestações em que pagámos o equivalente a esta vida e à próxima encarnação. Língua de fora e só falta mesmo o corte de orelhas para que a glória do toureiro seja total. Não o conheço, mas ele tem que existir.

Olé...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Montanhas russas

Hoje cruzei-me com a Sofia. Ela não me reconheceu. E eu fiz por isso, surpreendido, constrangido e a querer poupar o constrangimento provável. Lá estava ela no quiosque a comprar tabaco, ar acabado de terem passado por ela mais anos do que realmente passaram. Depois lá seguiu, boné da EMEL enfiado até aos olhos, a verificar os recibos de parquímetro rua abaixo.

Eu não via a Sofia há uns quê? Oito, dez anos. Crescemos mais ou menos juntos. Os nossos pais foram amigos e depois a vida separou-nos. Mas nunca me esqueci. Eram gente rica. Recordei sempre com graça o nosso aniversário. Fazíamos anos com dias de diferença. De modo que me lembro perfeitamente dos 19 anos. Tudo porque eu recebi uma guitarra e ela recebeu um Lótus Elan novinho em folha. No ano anterior eu recebera não sei o quê. Ela um motão. Lá está, as prendas dela eram mais memoráveis. A Sofia ria-se e desafiava-me para irmos dar uma volta. A Sofia era porreirinha. Toda muito dandy, uma queque. Mas porreirinha! 

Mas as vidas nunca são perfeitas por demasiado tempo mesmo se podem ser absolutamente imperfeitas às vezes para sempre. A Sofia percebeu isso em menos de um ano. Em menos de um ano o cancro ceifou-lhe primeiro o pai, depois a mãe. Assim, do nada. Ficou a Sofia com 20, 21 anos e o dinheiro. Só o dinheiro.

Depois foi-se perdendo. Os nossos destinos separaram-se antes que pudesse dizer categoricamente isso. Mas era já uma sensação. A Sofia ia perder-se.

Hoje cruzámos-nos. A Sofia de olhar apagado a verificar tickets da EMEL. Não que haja nada de errado nisso, entenda-se. Apenas que na montanha russa o que há de menos são certezas.

E depois da mudança, fazemos o quê?


Gostava de perceber uma coisa, gostava de ouvir opiniões. E se...

E se Sábado fosse um marco? Praticamente 10 milhões de portugueses a ocupar as praças de Lisboa, Porto, todas as cidades, vilas aldeias. Num protesto unânime a renegar um Governo e um rumo. E se pela noite dentro a multidão não arredasse pé e exigisse a demissão do Governo e a mudança de rumo político. 

Vamos supor que isto tudo acontecia e vamos supor que o Primeiro Ministro algures na madrugada se demitia mesmo. Vamos supor que assim era...

As minhas dúvidas- enormes - e as minhas esperanças - pequenas - são. E depois? Como é que se dá a volta a isto? Demitir um Primeiro Ministro medíocre pode bem ser um início, ok. Mas nem por sombras é um fim.

O pior é o "e depois"? 

Reelegemos o PS que sai refrescado pelo unguento costumeiro de uns tempos de oposição em que as coisas nunca mudam, nós é que nos esquecemos um pouco? Mas isso muda realmente alguma coisa?

Votamos fora do habitual? Em quem? E essas alternativas têm condições para governar?

Rompemos com a Troika? Podemos sobreviver a isso?

Repensamos todo o sistema político. Podemos sobreviver a isso?

É isso que me aflige. Esbanjamos certezas do que não queremos mas temo que ninguém faça realmente ideia sobre para onde queremos ir.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Corrente de amor dos 20 €" ou "Como dar o troco ao Pingo Doce ou ainda "Como ajudar o Rui a destilar fel"

Saco o cartão Multibanco para pagar os dois jantares - 10 € -  e um empregado contrafeito, adivinhativo do que se seguiria e pesaroso diz que "menos de 20 € só em dinheiro..."   ... respiro fundo. Eu não sou de tratar mal um gajo que não tem culpa de estar ali. Mas como o patrão não me vai atender se lhe ligar à hora do jantar, em versão educada, lá tem que ser. E digo-lhe que montante mínimo de 20 € é escandaloso. Não serve de muito, claro e enquanto a comida arrefece no tabuleiro percorro todo o Pingo Doce para sair e levantar dinheiro. Fila. Cinco pessoas à minha frente. Claro, Multibanco à porta do Pingo Doce, esperava o quê?

Espero, bufo, penso. Pôrra, eu percebia um valor mínimo. Cinco Euros! Para coisas mais pequenas a mais das vezes temos uns trocos na carteira! Agora 20 €! É uma espécie de péssimo de Pareto, o buraco negro entre dois mundos em que o mexilhão se fode! 20 € é sempre mais do que temos na carteira e habitualmente menos do que o nosso objetivo de compras!

Bufo mais ainda e estou a começar a ficar iníquo. Já não odeio só o Pingo Doce. Também já odeio a rapariga dois lugares à frente que deve estar a pagar todas as contas do mês e que não se despacha. Até que houvesse via verde para a malta que quer ir ao Pingo Doce estas coisas deviam ser proibídas!

Finalmente levanto dinheiro. Toca a percorrer de novo o Pingo Doce de uma ponta à outra. É que não é um Pingo Doce qualquer, é dos grandes que eram Feira Nova! Passaram 20 minutos. A bebida já não está fria e a comida já não está quente. A minha serenidade é portanto a única coisa que não está morna!

E venho para casa a urdir juras de ódio. Primeiro juro que nunca mais lá volto. Depois penso, não nunca mais não, nunca mais é muito tempo para se jurar...        ... e agora?

E é aqui que me ocorre o princípio dos 20 €! O Pingo Doce só aceita receber pagamentos com Multibanco acima dos 20 €. Pois bem, justo seria que o consumidor só aceitasse então justamente lá gastar o máximo de 20 €, de preferência uma vez por mês e a dar uso à coleção de trocos que fosse amealhando e de preferência as moedas de 1 e 2 cêntimos. Porquê? Porque os parquímetros da EMEL 5 cêntimos ainda aceitam!            ... e a EMEL acaba de ser ultrapassada pelo Pingo Doce no meu pódium de shit list. Medalha de prata, portanto, que à frente vai o Governo.

E é assim...          ... eu sei que provavelmente não vou conseguir mobilizar uma manif. Mas pelo menos desabafei!

domingo, 9 de setembro de 2012

Crise, qual crise?


Falávamos de tudo o que se vai passando. Impostos, incerteza. O Jaime às tantas comentou que lentamente íamos a caminho de perder a possibilidade de uma vida digna. Depois riu-se, encolheu os ombros "E aqui estamos nós à espera de mesa na marisqueira a chorar de que não temos vidas dignas."

Mas não é a dignidade que se perde. Por ora ainda não. É a certeza do que quer que seja. Há um ano atrás o preço de uma tarde de petisco entre amigos, seria na mesma pesado para ser rotina, seria  na mesma um excesso, desses que dão a tal dignidade à vida em que um dia não são dias.

A diferença agora é que um ano depois pesa um pouco mais, só um pouco. Mas nem é por isso. A grande diferença é que um ano depois amarga um pouco a incerteza de que seja prudente permitirmos-nos isto.

Ainda não era uma crise da nossa vida. Pelo menos para aquele pequeno grupo de amigos a beber cerveja, a rir e a descascar marisco.

Mas já é a crise da nossa serenidade.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Capicua da culpa

Nas legislaturas pós democracia, parece que mais coisa menos coisa os Governos andaram metade do tempo a reclamar para si méritos do pretenso sucesso pós adesão à CEE. Com o declínio a partir da ponta final de Guterrismo o jogo mudou e agora trata-se sempre de culpar recíprocamente os tipos da legislatura anterior.

Eu lembrei-me de uma piada de contexto pré Abril que o meu pai cita por vezes. Dizia-se que um GNR a cavalo era uma capicua, com uma besta por cima e outra por baixo, como uma carta de jogo. É o que parece a nossa democracia, lida da frente para trás e de trás para a frente. Nunca houve bons Governos, apenas Governos com bolsos cheios. Infelizmente isto vale no sentido ingénuo de meios disponíveis no erário e no sentido cínico do que se levou a bolsos próprios.

Deviam-se ir embora, deviam mesmo ir-se todos embora e isso força-se não votando em quem permite que permaneçam.

Pensamento a propósito de que tenho medo de extremos. E os extremistas não tarda a que se comecem a afoitar a ser opções aparentemente prodigiosas aos olhos da deceção. E essa deceção é terreno fértil para que os raivosos pastem no peito dos tontos. O resto é História e é História cíclica.

E é por isso que dou por mim a pensar que é preciso limpar a cidade para não dar pretexto a que lhe peguem fogo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Facebook

Fui olhar os rostos. Nem foi nostalgia embora confesse que me deixou um pouco assim. Fui para ajudar à memória numa lista de eventuais convites para casamento. No fim deleitei-me e assombrei-me na constatação de que o mundo gira e o tempo passa embora só o percebamos de tempos a tempos.

Há dias falava com a Bê do nosso passado. Passado recente, passado antigo. 6, 8, 10 anos. Isso é o quê? É passado, é ontem a desvanecer-se e a retocar as memórias com cores falsas. Às vezes nem é isso. Ás vezes as memórias são cristalinas e precisas. Foi o presente que mudou.

Pensei nisto tudo a ver fotos das centenas de rostos que tenho no Facebook. Alguns nem sei quem são. Alguns sei. Mentira, soube, passou tanto tempo, já não sei. Há aqueles que de repente percebi que o tempo passou por eles. Noutros parece que foi ontem. Noutros foi mesmo. E noutros foi mesmo há muito tempo e apostaria que o tempo passou. A foto é que é antiga, patifes. É. Os que há muito estão distantes mas que em ainda fazem tinir coisas boas cá dentro e os que nunca se afastaram mas que na realidade não nos fazem sentir nada. Os afetos que achámos que podiam ser especiais mas duraram um dia e os que nunca o foram e duraram muito mais que isso. E sobretudo espantamos-nos - espanto a mais das vezes bom - de já ter cruzado tanta gente de tanta forma. Está certo, o Facebook engana, há ali muita palha. Mas ainda assim, muitos sorrisos, sim, há ali que recordar. E do bom!

Pensei foi que fosse mais fácil escolher quem convidar.

Tenho que inventar um critério...


Eu e o Coelho

Não somos assim tão diferentes. Primeiro porque nenhum de nós parece ter jeito para arrumar a casa ainda que ambos alegadamente nos esforcemos.

Eu cá sou dado a momentos obsessivo-compulsivos de meter ordem em tudo na minha vida: fazer a cama, varrer o chão; arrumar os CD's por ordem alfabética e as fotos por ordem cronológica. Mais! Começar a estudar como deve ser para aquele exame e fazer exercício e dieta e aprender coisas charmosas sobre culinária e vinhos e Feng Shui. E poupar dinheiro e não comer porcarias fora e tomar o pequeno almoço em casa e escovar a gata. E no fundo recuperar num período espártano, enriquecedor e intenso de todas as barbaridades com que semi arruinei e limitei a apoteose da minha existência nestes primeiros 36 anos de vida.

Repare-se que acabo por nunca fazer nada disto nem como deve ser nem em toda a abrangência de boas intenções nem durante mais do que uns dias. Porque todos esses frutos utópicos, se é que bem pensados valiam realmente a pena, tinham um preço alto: sangue, suor e lágrimas e fominha, já para não falar numa trabalheira desgraçada. No fundo no meio termo de não fazer nada e ir fazendo alguma coisa, sou mais feliz do que no não fazer mesmo nada e fazer mesmo tudo. Chama-se qualidade de vida porque a vida é isso, de equilíbrios entre a sobriedade e a efusão, a produção e o usufruto.

O problema é que o Primeiro Ministro parece não saber isso e está a viver uma idêntica obsessão de arrumar a casa. E mesmo que os números façam sentido(oxalá), pelo meio martela-se uma geração no orçamento para as coisas baterem certo daí para a frente(oxalá). Martelam-se acessos à saúde e à educação e à segurança social. Claro que há rúbricas que nunca se martelam mesmo que ajudassem a compor as contas. Porquê? Porque mais vale martelar uma geração do que martelar o dedo e até o Pedro sabe disso. Pôrra...

Em suma...

Estamos fodidos!


Talvez

Talvez seja bom que haja crise. 
Talvez seja bom que tenhamos este Governo.
Talvez seja bom que a lei liberte a liberdade que oprime.
Talvez seja bom que paguemos o que comprámos sem saber como pagar.
Talvez seja bom que paguemos o que não roubámos mas permitimos que roubado fosse.
Talvez tudo isto seja bom.

Talvez para a próxima exerçamos os nossos direitos, ergamos a voz a dizer "Basta"
Talvez para próxima nos indignemos em vez de encolher um par de ombros cúmplices.
Talvez o façamos finalmente amanhã.
Talvez um dia o façamos antes que mais disto suceda.