A velha indecisa na farmácia. Medicamento dos diabetes ou do coração? Aposta-se que a reforma miserável só deixe escolher um. Aposta-se mais, esta não será nem a primeira nem a última transigência do mês de uma velha a negociar uma sobrevivência triste consigo mesma. "Quanto mais se bate no fundo mais ele desce." - Suspira.
Metade da história contou-me a Ana, as ilações óbvias são minhas. Não é preciso ser um Sherlock.
Dúvida metódica - da Ana, não minha - como é que é possível aprender tanto numa vida e chegar a isto?
Porque o mundo é dos espertos, suponho.
Sabedoria é crédito de outro campeonato. O caminho da sabedoria é de contemplação, de nos indagarmos e de perdermos tempo que chegue na dúvida de um caminho. Isso lá ganha campeonatos? Os campeões trazem um fogo a arder no peito, convicções enfáticas e o enfoque da vida numa só resposta a uma só pergunta: como ganhar? São pessoas absolutamente competentes nesse aspecto e a mais das vezes absurdamente estéreis da arte de perceber tudo o resto que os rodeie.
E de repente já não estava a pensar na velha da Ana. Ontem debatia com o Ricardo as (fracas) possibilidades de emergirmos desta crise. Ele dizia que éramos reféns de um sistema que permitimos. Precisávamos que emergisse um maluco. Corajoso, sério, um pouco sábio, suponho. Que fizesse como outro maluco e com o chicote expulsasse os vendilhões do templo. Nem se pedia a utopia de terminar a obra, que utopias e obras terminadas são coisas raras. Mas que algumas vergastadas devolvessem ao povo uma réstia de uma fé quase morta.
Mas a esse outro maluco crucificaram e até os gajos sábios são suficentemente espertos para não se meterem a jeito. E é por isso que somos reféns. A porca política atrai espertos, não sábios.
O que é que eu quero dizer com isto tudo?
Olha, Ana, tenho meia resposta para ti. Espero que chegue, vai ter que chegar. Eu cá não sei realmente se a velha é sábia nem como chegou a esse ponto.
Mas aposto que não foi esperta. Porque o Mundo é dos espertos. E está visto que a velha não tem quota.
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