quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O essencial das coisas

Hoje ouvi na rádio que muitos admitem ter cortado custos. Têm menos créditos, andam mais de transportes, a pé, de bicicleta. Baixaram a factura energética. Lá está, em tudo de bom há sempre algo de mau. Vice versa também é verdade. 

No apertar o cinto não há só fome, também há a lição do comedimento. E eu lembrei-me de uma conversa que já terá uma meia dúzia de anos com a Bê. Jantávamos em casa dela e ela dizia que um dia isto ia ter que estourar. Era produção a mais, era consumo a mais, era desperdício a mais. Na nossa apatia de carneiros deleitávamos-nos na hipnose do último automóvel, do último telemóvel, do último qualquer coisa. Não dava! É que nem era só a conta fiada na mercearia a Portugal que um dia se esgotaria. Era o Mundo que se esgotava nos excessos de tudo de uns e nas ausências do nada de outros. Está certo que Portugal tinha pergaminhos para se desmoronar ainda antes, mas em última instância tudo se desmorona. E, claro, eram filosofias de jantar, trauteadas a vinho e cigarros. A Bê continuava e dizia que a única saída seria a capacidade de uma geração de amor que emergisse. Eu não tinha tanta a certeza. Temos mais propensão para a dor e para o despudor do que para o amor e nem o abraço de uma miúda gira no corpo hirto de um gajo fardado me demoveu ainda destes cinismos. E por isso até ver só o primeiro capítulo da parte má das profecias da brasileira se confirma...

Estamos tesos. Não ainda não estamos tesos, nem todos nem completamente. Mas para lá caminhamos. E não nos iludamos, enfrentamos o lado ainda pior das coisas já de si más. Desamparo na carência, incerteza, desigualdade. Isto para dizer que não quero com esta conversa toda dizer que Pedro Passos Coelho seja o Messias da Geração do Amor e Despojamento que a Bethânia desejasse. Não nos confundamos, o Primeiro Ministro é apenas um tolo. Apenas isso. Um burro que traz alguma coisa preciosa no alforge não deixa por isso de ser um burro.

Então digo o quê?

Talvez a Bê também seja tola nas suas crenças. Mas bem menos que o Pedro. Bem menos..

E por isso, olha, reinterpretemos o sentido essencial das coisas e sejamos felizes.

Ou como dizia o outro, "Muita saúdinha!"

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