terça-feira, 11 de setembro de 2012

Montanhas russas

Hoje cruzei-me com a Sofia. Ela não me reconheceu. E eu fiz por isso, surpreendido, constrangido e a querer poupar o constrangimento provável. Lá estava ela no quiosque a comprar tabaco, ar acabado de terem passado por ela mais anos do que realmente passaram. Depois lá seguiu, boné da EMEL enfiado até aos olhos, a verificar os recibos de parquímetro rua abaixo.

Eu não via a Sofia há uns quê? Oito, dez anos. Crescemos mais ou menos juntos. Os nossos pais foram amigos e depois a vida separou-nos. Mas nunca me esqueci. Eram gente rica. Recordei sempre com graça o nosso aniversário. Fazíamos anos com dias de diferença. De modo que me lembro perfeitamente dos 19 anos. Tudo porque eu recebi uma guitarra e ela recebeu um Lótus Elan novinho em folha. No ano anterior eu recebera não sei o quê. Ela um motão. Lá está, as prendas dela eram mais memoráveis. A Sofia ria-se e desafiava-me para irmos dar uma volta. A Sofia era porreirinha. Toda muito dandy, uma queque. Mas porreirinha! 

Mas as vidas nunca são perfeitas por demasiado tempo mesmo se podem ser absolutamente imperfeitas às vezes para sempre. A Sofia percebeu isso em menos de um ano. Em menos de um ano o cancro ceifou-lhe primeiro o pai, depois a mãe. Assim, do nada. Ficou a Sofia com 20, 21 anos e o dinheiro. Só o dinheiro.

Depois foi-se perdendo. Os nossos destinos separaram-se antes que pudesse dizer categoricamente isso. Mas era já uma sensação. A Sofia ia perder-se.

Hoje cruzámos-nos. A Sofia de olhar apagado a verificar tickets da EMEL. Não que haja nada de errado nisso, entenda-se. Apenas que na montanha russa o que há de menos são certezas.

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