Alguns falaram da festa do povo, de que o 15 de Setembro foi sobretudo uma festa, apolítica e inconsequente...
As coisas são como são. Talvez os espanhóis e os franceses tenham mesmo mais propensão para lavrar um protesto a ferro e fogo. Talvez os gregos estejam simplesmente mais desesperados. Mas não é isso ou pelo menos não tem que ser isso que vinque a justeza de uma convicção. A história indicia que somos de facto e provavelmente menos aguerridos. A mim o que me ocorre dizer é, menos mal, não podíamos ser maus em tudo. Um amigo dizia há dias que de algum modo nos prejudica o jejum português de cheiro a sangue nas ruas, decorridos que são séculos sem que lavre uma guerra sem que seja lá longe, num ultramar qualquer. Mas eu estranho-me e dou por mim a pensar que só há três formas de dar verdade nesse pensamento: na frieza dos números de quem faça contas de uma guerra que não lute, na sede das hienas e no entusiasmo bacoco de quem justamente nunca sentiu o cheiro do sangue na rua.
Se eu ontem vi uma festa? De algum modo, sim. Mas de um modo bom. Sentia-se no ar um certo conforto de que tantos tivessem saído e uma certa harmonia de que se estivesse a conseguir fazer as coisas do modo certo. Perdi muito tempo a olhar em redor. A multidão guardava as dessintonias que se adiavam para depois, claro. Ali o fio condutor era apenas o suficiente de todos concordarem que discordavam. De resto houve uma coisa que me apaziguou, sou franco...
Serenidade...
Na normalidade das coisas somos vagamente rudes, hostilizamos-nos no trânsito, furamos quase à cotovelada na azáfama do dia-a-dia e ainda inventamos sectarismos de clubes e do diabo a sete para podermos beligerar ainda mais. Ali, mesmo no contexto tendencialmente nervoso de uma multidão sentiu-se uma concórdia e um respeito que me surpreendeu. Dirão que foi o fogo fátuo de uma cumplicidade efémera. Provavelmente, muito provavelmente. Mas ontem houve realmente festa.
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