Trocado por miúdos para que só os miúdos - eventualmente- não entendam...
Mas, não antes disso...
Há pouco estava a ler uma entrevista de um dos mentores da Troika. O que ele em resumo dizia era que perante uma situação como a portuguesa, de bolso pequeno e dívida grande, não há soluções fáceis, bata-se onde bater. E por isso de alguma forma o Governo, embora tudo seja questionável e incerto, tomava uma opção que nem era absurda. Apenas difícil de aceitar. Acrescentava outra coisa: todo o debate se tem feito acerca da extrema dureza das medidas, da injustiça que acarretam. É verdade. Mas ninguém ainda indicou uma alternativa.
O gajo tem razão
Claro que o gajo também não tece juízos de valor sobre uma série de coisas: como é que aparece e quem dá causa à situação portuguesa; o sistema é justo; gostas mais do pai ou da mãe? Nada disto. Há uma dívida para pagar, ponto 1. Que soluções existem para a liquidar que não impliquem a falência absoluta do sistema (o que em última instância não se confunde com a justiça do sistema, infelizmente), ponto 2?
Ponto final. É só isto e apenas isto na sua crueza.
Ora foi a partir daqui que desatei a refletir no farmville e nas metáforas que a coisa me inspirou.
Nós, os portugueses, parecemos uma Cooperativa Agrícola dos arrebaldes. Que na verdade não coopera, não se interessa, não age. Viemos de malas aviadas para a cidade grande que é mais confortável e deixámos as terras entregues a uns caseiros que nem nunca quisemos conhecer como deve ser. Raramente visitámos a fazenda ou quisemos saber que fruto dava e porque mester. Desde que nos fossem caindo, ocasionalmente, galinhas na mesa, borrifámos-nos. Mesmo se fomos desconfiando que as coisas iam por caminhos enviusados, borrifámos-nos e lá foi ficando o caseiro com as terras.
Só que o caseiro não plantou nada e colheu o que havia a colher. E quando nada havia a colher pediu emprestado. Pelo meio todos ganharam algo. Galinhas gordas para os caseiros, para os amigos dos caseiros. Até para nós, proprietários dolentes desta plantação fandanga foi havendo galinha. Magra, é certo, mas galinha. E por isso e apesar disso nos borrifámos.
Mas agora quem emprestou aparece a cobrar o preço deste longo almoço que por um longo instante pareceu mesmo que afinal os havia grátis. O caseiro não tem como, claro. Os patrões que paguem as favas.
E nós atiramos-nos ao ar! Não fomos nós que deixámos os campos secarem e que chuchámos as tetas das vacas até darem sangue em vez de leite. Pois não. Mas permitimos que o fizessem. Permitimos na nossa quintinha. A dívida não é de quem nomeámos para que gerisse os nossos negócios. A dívida é nossa. E agora não vale a pena dizer que não pagamos. Até porque não pagar significa que nos fechem as torneiras dos rios e que tudo seque para que em vez de vacas magras tenhamos vacas mortas.
A culpa é nossa que estamos sempre à espera de um paizinho, de um Sebastião, de um Salazar, de um Mourinho, de um FMI. Alguém que nos limpe o rabo. Inevitavelmente é uma maneira de estar na vida que realmente dá merda.
A culpa é nossa que estamos sempre à espera de um paizinho, de um Sebastião, de um Salazar, de um Mourinho, de um FMI. Alguém que nos limpe o rabo. Inevitavelmente é uma maneira de estar na vida que realmente dá merda.
Moral da história?
Não vale a pena dizer mal da Troika e que o sistema é injusto. Quem não quer o Diabo não dança com ele.
Não vale a pena só indignarmos-nos todos, porque só a indignação é fácil. Nem protestarmos que emigraremos já que só alguns conseguirão.
O que vale a pena é perguntarmos-nos o que fazemos a seguir, como mudamos isto. O que vale a pena é refletir no valor do nosso próximo voto e na responsabilidade que existe em encolhermos os ombros a próxima vez que virmos o caseiro roubar.
É que, de forma retorcida, em toda a injustiça destes tempos permanece uma profunda lição que andamos a pedir desde o tempo de D. Afonso Henriques.
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