quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Noite das bruxas

Isto ainda vai ser uma música

Nessa noite de bruxas
enfeitiçámos-nos tu e eu
foi sem Lua nem névoa com o tecto do teu quarto a fazer de céu
E eu bem sei que entretanto passaram tantas fases da Lua
e eu bem sei que em ti estou morto mas tu em mim continuas

Creio em vidas passadas e destinos por cumprir
mas se eras só carta marcada
então nem houve uma encruzilhada
Foste só uma má piada
e só eu não soube rir

Por isso mata-me outra vez
vai baralha depois parte ao meio
que às duas por três
nem eu ache feio
e se é pacto por selar
tu não vais ter que cumprir

Só que esta noite é noite de bruxas
e vens sempre arranhar a minha porta
e pingas sangue de uma chaga fechada
é que a memória é uma faca que corta

E nem preciso de olhar
para ver as bruxas em circulos no céu
como na noite
em que pensei que o mundo era meu
mas nesta noite
a casa assombrada sou eu

Os ricos morrem de pé

Há quem diga que no nascer e no morrer somos todos iguais. Não é verdade.  Os berços são diferentes. Tudo o mais é diferente ao longo da vida. Até num simples peido. Os pobres peidam-se os ricos aliviam-se. A morte não havia de ser diferente.

E eu pensei isto tudo ao passar à porta das instalações que o Banco Privado Português mantém aqui nas imediações. Uma placa dourada em baixo relevo com augustas letras cinzeladas impõe a majestosidade mesmo se fúnebre. "Banco Privado Português - Em Liquidação" - Nem mais! Até as letras do epíteto fúnebre "Em Liquidação" são de uma elegância nobre. Os gajos mesmo falidos mandaram fazer uma placa novinha para incluir - sempre em baixo relevo - a nota de rodapé de que o dinheiro ardeu, o deles e o dos clientes.

Quer dizer...

Eu percebo pouco de contabilidade mas arrisco-me a dizer que se não estou falido quer dizer que a minha situação patrimonial é melhor que a do BPP. Ora a mim custar-me-ia pagar esta placa que dá ares de ter custado uma pequena fortuna. E eu já decidi que não me meto em mais encargos enquanto não acabar de pagar o frigorífico. E por isso acho imoral que o Banco ande a gastar dinheiro dos credores nestes pequenos luxos.

Se fosse o Café do Xico Zé seria a fita-cola na vitrina que estaria uma folha A4 ramelosa a anunciar "Falimos. Deixe a correspondência na Mercearia do lado"
Mas ali não. Um banco daquele não dá o peido mestre - por muita merda que passe debaixo da ponte.

Liquida-se. Morre de pé!

Touché!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Balneário - Parte II

Primeiro foi o matulão com cara de cavalo. Já apanhei a conversa a meio. E por isso quando ele disse "Opá, é assim um toque suave, mas ao mesmo tempo fofo e com um cheirinho mesmo bom" - eu não soube exatamente do que ele falasse. O interlocutor ria-se "Estás a ficar maluco..." - "Tão não! Mas ela também pá, está toda entusiasmada com o jantar!" - Eu também sorrio e embora ainda não saiba concretamente o que é suave fofo e cheiroso arrisco-me a pensar que hoje o balneário está menos hard core.

Volto do duche. Vou primeiro e depois volto.

A euforia do tal jantar continua a pairar no ar e a misturar-se com o vapor de água. O gajo aprumadinho, musculado na proporção exata mas branquelas demais pergunta ao negão que arruma as últimas coisas no saco. "Tão mas não vais porquê?" - O outro ainda não respondeu e eu já o adivinho vexado. Mas antes que avance há que perceber que o negão é mesmo grande. Gajo para bater o primo Luz na contabilidade dos músculos e ainda lhe dar de 10-0 no aprumo da barba impecavelmente desenhada. E claro, já para não falar do espólio de tatuagens tribais e tachas pelo corpo. E por isso um negão assim adivinhamos que possa ser segurança, ator porno, qualquer coisa assim. Não sabemos se é. Mas podia! E para a moral da nossa história tanto chega. E tanta consideração para retomar a história no momento em que ele ainda não explicou porque não vai ao jantar mas eu vejo-lhe  um ar envergonhado. Seria de esperar que dissesse algo "Tenho uma dama para papar nesse dia, bro!" - Algo assim. Isto nas minhas especulações de gajo com pouco para fazer, claro. Mas não é nada disto que diz. Diz...            ... "Faço 5 anos, vou estar com a xavala." - O outro estranha-se e abana a cabeça. "5 anos? Mas cinco de anos de quê?" - "De namoro, meu!" - E haviam de ter visto o ar de quase repugnância do Adónis lavado em Omo - "Fodaaaaa-se....               ... mas tu festejas essas merdas?" - É que nem era ar de gozo. Era mesmo ar de estranheza. De um gajo que genuinamente é GAJO e não papa grupos de gajas armadas em românticas. O negão sorri meio envergonhado. Disfarça "Epá, eu estou-me a cagar, claro. Mas as chavalas dão importância, man, já sabes como é..." - A conversa continua. O Brancão vai dando baile sem eu próprio ter a certeza se lhe está a dar gozo ou é um genuíno macho. E o outro está mesmo encabulado e vai-se justificando mais a meter os pés pelas mãos do que outra coisa qualquer.

Eu por mim rio-me. E penso que ao menos em algo o Primo Luz vence na comparação. Eu não lhe consigo dar bailes destes...

domingo, 28 de outubro de 2012

Charme, take one

Um gajo de vez em quando deixa-se levar por uns devaneios num misto de elan e consumismo e drible da banalidade dos dias. Ontem não resisti à última pechincha do LIDL e trouxe um tabuleiro daqueles com pés para tomar augustos pequenos almoços na cama.

E hoje foi com entusiasmo que acordei e acorri à cozinha. Uma bela meia de leite home-made, requeijão e alface sobre fatias de pão saloio. O charme da vida está nessas pequenas coisas com que nos mimemos.

Mas o charme da vida não está em que, depois de tudo pronto e equilibrado sobre o tabuleiro, uma das pernas, demasiado próxima do precipício do fim da mesa da cozinha, resvale no caos de um chão de mosaico lavado a leite com café e a minha sandes transformada em açorda. Pelo meio, danos colaterais, peças de roupa da Eva que dobrara carinhosamente a um canto, vindas da rotina de lava e seca (passar é que não) voltam ao início da linha de montagem comigo na incerteza de que aquelas nódoas saiam.

Respiro fundo.

Mas sou um charmoso persistente e repito todo o processo de confeção do meu pequeno almoço na cama.

Desta vez a coisa correu sem percalços.

Até chegar à cama...

Nada daquilo bate certo. O meu edredão que parece uma nuvem soa-me a solo demasiado instável onde arrisque nova tragédia com o tabuleiro. As pernas parecem demasiado curtas para colocar em ponte sobre o caudal da minha silhueta pouco esguia. Contrariado, esqueço o tabuleiro e pouso o repasto na mesa de cabeceira. A Eva olha-me em tom de gozo. Como estamos zangados não me diz nada. Mas deve estar a gozar a cena à grande numa gargalhada contida.

Mas eu não desisto!

Ainda hei-de ficar na cama a comer torradinhas e a ver chover. Apenas não estava escrito que seria hoje. Seja como for está Sol.


sábado, 27 de outubro de 2012

Presidentes da Junta

A Dona Margarida contava-me hoje das vias de facto a que chegaram as lutas de poder da LUSALMA. O Presidente da Lista Vencida há meses nas eleições para a Direção foi acarinhando primeiro uma guerra psicológica de "elogios" veiculados pelo Facebook contra o Presidente que renovou o seu mandato. Como se isso não chegasse acabou por o confrontar numa ocasião social do organismo. Conseguiu o que provavelmente sentiu a necessidade de fazer desde o primeiro instante, dar um par de valentes murraças no outro e limpar no punho a vergonha do descalabro nas urnas.

Bom mas talvez eu devesse ter começado por vos dizer que a LUSALMA é um projeto de universidade de terceira idade em Almada e que os antagonistas têm selo geriátrico: um padre que descobriu nova vocação no amor de uma paroquiana e no Inverno da vida novo rebanho nos discentes reformados...          ... e um Coronel na reserva que provavelmente não conteve as saudades da guerra.

Importa também dizer que a LUSALMA não tem quinhão de fortuna, fama ou glória que se possa saquear. É um projeto louvável e humilde de dinamização para a terceira idade. Dá trabalho, suponho que o gozo das obras feitas. Pouco mais...

E então, porquê?

Um velho professor disse-me que há dois tipos de guerras, as económicas e as ideológicas. E que sob o pretexto e a bandeira de ideologias quase sempre se esgrimem na verdade ascendentes económicos.

Mas eu vou mais longe a desmontar a matrioska e diria que da Guerra Mundial às Guerras do Alecrim e da Manjerouna se esgrimem sobretudo egos. Egos gordos, mórbidos, doentios que esmagam tudo o que houver em redor e propiciam tragédias na depredação que os alimente.

Pode ser o Trono do Mundo ou a Junta de Freguesia. Pode até ser a LUSALMA. Pode até ser muito menos...

Em tempos inventei em meu redor a paródia do Clube dos Solteiros, firma que traduzia um grupo de amigos simpáticos e encalhadíssimos que bebia copos em alcateia para driblar a solidão das coisas. Era apenas isso. E foi por extensão da paródia que inventei cargos e tudo. Uma Presidente, um Secretário Geral - cargo que reservei para mim numa manifestação da minha própria megalomania. Os outros eram os vogais, comuns mortais sem protagonismo nesta secreta sociedade. Mas não há modelos societários unânimes. Não tardaria a que me chegasse o desabafo dos espoliados da glória "Sabes, Rui, fulana pergunta-se porque é que a Presidente há-de ser cicrana e não ela..." -    

... suspiro...

... note-se que a Presidência apenas consagrava um direito. Que lhe fossem consagrados muitos brindes, inflamados e vagamente patetas na partitura das noites que perdíamos todos juntos por aí. Mas os egos são gulosos ogados que limpam o prato até à migalha. Agora que penso, e sem certeza de uma memória que por vezes já me dribla, também aqui a fação contestatária meteu a mão na cara do poder instituído. Será? Ia jurar que sim...

E no fim? Bom e no fim fica um vencedor, sempre, sobre um monte de cadáveres dos corpos e dos egos derrotados. Glorioso, finalmente satisfeito até que tenha fome de novo. Sorri e confessa-nos, não sem vaidade, a parafrasear esse velho boneco do Herman

"Eu é que sou o Prrrrresidente da Junta!"

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Onomatopeias

Há coisas difíceis de traduzir pela palavra escrita. Os sons. Porque as onomatopeias ainda não evoluíram ossuficiente. Metade da magia perde-se. Uma palavra pode valer mil imagens mas não vale nem meio som. Assim é e ainda assim tentarei descrever-vos a peripécia de há pouco.

A porta do elevador em Santa Apolónia ia fechar. Corro e por pouco não fico de fora. Mas entrei. Agora sei que foi o Deus das Crónicas patetas que manteve a porta aberta para que eu entrasse. E eu entrei! Vamos cinco lá dentro, a adolescente rechonchuda que me lança um sorriso simpático do "à queima" com que me esgueirei lá para dentro, as duas amigas sessentonas de ar zangado com a vida ou com qualquer outra coisa. E depois o tipo de fato e gravata que arrasta um trolley de viagem. Vamos todos calados menos ele. E todos sabemos disso menos ele que leva a música demasiado alta nos ouvidos. Essas coisas dão por vezes asneiras. Apercebi-me disso no dia em que bebi no Departamento café demasiado quente  com a música demasiado alta. E não percebi logo porque é que todos se riam para mim com aquele ar semi-carinhoso-semi-trocista. Mais tarde alguém me diria que o estrilho com que sorvia o café se devia ouvir dois pisos abaixo. Continuemos. Este tipo não bebe café mas canta. Não, não é verdade, não canta. Antes cantasse. Aliás faltam gajos com os tomates e a espontaneidade para coisas assim. Eu conheço a Joana que assobia lindas áreas enquanto trabalha o excel. Embora ao cabo das horas aquele sibilo dela me mexa com os nervos eu admiro-a pela jovialidade. Mas este gajo não canta. Isso era giro! Que soltasse um "Há sempre música entre nós" e depois vergasse a espinha a uma das velhas num beijo cinematográfico. Isso era giro e arrojado e renovaria a minha esperança na humanidade. Mas o gajo não canta, é demasiado tímido para isso. Ou melhor canta. Ou pior, pensa que canta suficientemente baixo, só para si. Um "hmmmmm, hmmmm, hmmmmm, a aflautar na voz presa na garganta notas imperfeitas de uma pauta irreconhecível nessa clausura. Vai com aquele ar descontraído do recato que ninguém o ouve. Mas ouvimos todos. Não soa a canção, soa a gemido lascivo de orgasmo prestes a rebentar. Soa mesmo. O gajo vai para ali a gemer com o ar sereno de que não é um engravatado a gemer no elevador para uma adolescente duas velhas mais o Rui. E nós vamos todos deleitados a ouvir. Até as velhas já não têm um ar zangado com o Mundo.

A porta do elevador abre dois pisos acima. Soube a pouco.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O rapto das mamocas

Não conheço bem o Silva. Apenas comungamos na mesma rotina parva em que o Silva é mais uma peça e eu mais outra de um "ram ram" bizarro. Pouco sei sobre ele. O que pensa da vida, o que faz quando sai dali, se é casado, se tem filhos. Pouco sei. Sei que é Sportinguista ferrenho e isso chega. Alimenta as conversas de ocasião que lhe faço só para driblar quanto possível o enfado das horas. - "'Tão Silva, o Sporting lá foi de novo. É desta que te trago a proposta?" - O Silva encolhe os ombros e faz aquele seu sorriso de gajo meigo e tímido. Mas não, é mentira, sei outra coisa sobre o Silva. Sei que quando sai dali desce a rua com um ar que dá gosto ver. Caramba, dá mesmo! O Silva desce a rua com a alegria serena dos gajos simples. Não sei para onde vai mas sei de onde vem e sei que o Silva tira gozo do caminho pela avenida a baixo ao fim de mais um dia. E ao cabo disto tudo, olhem, a verdade é que gosto do Silva que dá ares a quem se indigna e reflete e questiona bem menos do que eu mas, pôrra, tem um ar bem consigo! Tem mesmo!

Hoje eu entrava no cantinho dele com uns posteres institucionais debaixo do braço. Quando viu que lhe ia levar as molduras antigas resmungou "Decoração nova? E trazes alguma coisa de jeito?" - Eu já me ria "Silva, pá, estou de bom humor, hoje até te dou a escolher. Gajas nuas ou craques do Benfica?" - E lá vem o sorriso meigo do Silva. Depois ficou para ali a refletir e a olhar para um canto da parede onde não estava nada. Quase melancólico...      "Gajas? Tínhamos cá uma sim. Ali, colada naquele cantinho discreto. Olha, vês, ainda ficou lá um canto do papel preso a fita-cola. Um dia cheguei cá e tinham tirado. Até isso! Nunca soube quem foi o sacana! Ainda gostava de saber quem veio cá tirar o poster e nem disse nada...." - O Silva reflete e olha para o vazio enorme que a pin up deixou no rasto trágico do seu rapto. Eu também olho. E desta vez quase que também consigo ver. O Silva inspira...   "Epá, tão, sabia bem, um gajo está para aqui a virar frangos e de vez em quando lançava os olhos aquelas mamocas e até sorria. Mas até isso levaram! Quem terá sido?"

Também suspiro para comigo. 

Efetivamente...

"Quem terá sido?"

Movimentos simples

Polaroids num painel de cortiça

18:30 - O Rui e a Eva pedalam imenso sem sair do mesmo sítio no ginásio. Ele comenta que está a adorar o livro que está a ler. Ela que ainda pensava ser o anterior estranha-se "Gostaste disso?" - Refere-se a "Na Estação de Grand Central sentei e chorei (algo assim) - não, claro que não...    - "Opá, não, desse desisti, é intragável!" - Ela abranda o ritmo quase a chegar à meta dos 15 minutos e encolhe os ombros . "Estava a ver. Mas sei lá. Como és um bocado pseudo-intelectual..." - Que lata! E de repente lembro-me da Ritinha que me achincalhava do mesmo só porque estraçalhava a sua devoção pela saga dos Transformers.

01:00 - Acabei de ver o Taken no Hollywood. Ainda estou meio a tremer. Mas que bela chachada de ação! Emocionante, heróica, violenta e com os ingredientes certos de adrenalina e sentimentalismo. Um ex operacional da CIA vai salvar a filha de uma rede de tráfico de mulheres. Salva mesmo e pelo meio, contas do IMDB mata 35 fulanos que realmente as estavam a pedir. Pôrra! Adorei o filme. Mas isso deixa-me constrangido. É um filme com uma dose forte de disparate que me faz lembrar uma velha rábula do Herman "Raptaram o Presidente dos Estados Unidos e Joe Fagundes entra em ação!" - Vou para o Facebook em acto de contrição parodiar o meu próprio entusiasmo. Aparece a Ana "Epá, esse filme é muito bom!" - Se há gaja culta e arguta que eu conheço é a Ana. Devia estar constrangida de dizer aquilo sem mais nem menos "Esse filme é muito bom!"    ...        ... sem, sem...         ... pudor! Ao menos não me chamou pseudo! Menos mal...

01:10 - Lembro-me de como ontem a Vera me desabafava sobre o marido "não é culto, enfim, não há pessoas perfeitas!" - E eu guardava na altura e recuperava agora a sensação de que a Vera é parva. Sem rendilhados o Pedro é das pessoas mais sensíveis e sensatas que conheço. Em compensação a Vera nos seus ares de designer empertigada é apenas parva e nem toda a bagagem cultural sobre o dandismo e o cubismo a salvam disso. "Mas eu não sou pseudo!" - acrescenta o Rui ao rol das suas divagações e vai dormir no processo de osmose de sonhar isso e aprender alguma coisa.

07:00 - O Rui abre ao acaso uma página que fala sobre o princípio fundamental de Krav Maga. "O movimento mais simples é sempre o melhor"


...


não necessariamente, claro. Mas não tem que ser o pior.

As coisas são ou não são. Na sua simplicidade. Mesmo na sua facilidade, se quisermos. Ou no culto intrincado de reinventar o que é por baralhar muito bem e dar de novo.

O resto são exercícios de ego. Não, não é verdade. São sedentarismos de egos que andam por aí gordos e bem podiam perder uns quilos a exercitar-se na simplicidade e tolerãncia.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Berço

Num fio condutor mais ou menos arrevezado e inconfesso da crónica anterior hoje apetece-me falar de Berço. Há muitos berços. Uns são o topo de gama da Chico, outros são de marca branca. Alguns herdam-se de geração em geração e isso normalmente quer dizer que ou se tem muito berço ou muito pouco. Tudo visto no entanto, são apenas camitas XS e está por demonstrar que moldem o caráter de quem quer que seja...

Mas este prefácio em guisa de piada non sense não responde à questão simbólica do peso de um nome. Os nomes são coisas importantes. E talvez isto seja difícil de compreender pelos Martins ou pelos Silvas mas o nome encerra em si todo o valor de marca que precede sequer a auto-consciência do fenómeno do Marketing. Qualquer produtozito enfezado com um logo sonante é logo outra coisa. E é por isso que nos esforçamos por adquirir uma marca prestigiada quando ela não veio desde logo gravada a letras douradas no nosso berço. Há várias formas de o fazer, claro. Pelo rebranding de escrever Marttins com dois "ts" ou por uma joint venture de um matrimónio que credibilize. "Cortez e Silva" é logo outra coisa. Ainda não é perfeito, é certo. Mas com sorte o tempo lavará o mau sangue dos Silvas dos mosaicos da estirpe. Deus queira...

Mas a grande questão é: quanto é que vale de facto um nome?

E eu digo. Muito. E pouco. Se for bom, se for realmente bom, se for o nome de um pai honrado, de uma avó virtuosa, de um tetaravô que seja que marcou a diferença, se for enfim um nome que envoque memórias honradas, então esse nome terá o encargo de um farol que nos convide a ir por aí, crentes no exemplo e fiados na vaga probabilidade acrescida da genética.

De resto muito pouco.

Um nome não é a presunção inilidível da superioridade de idiotas que crêem em mitos que lhe tragam guarida. Ou melhor, é. É-o tantas e iníquas vezes...            ... mas uma mentira vivida todos os dias não deixa por isso de ser apenas isso, um logro.

Eu creio cá para mim que devemos todos ter um nome secreto, inconfessável. Aquele que nós próprios só no fim de contas percebemos que é por esse nome que devamos ser chamados como quem chama os bois.

No fim é por ele e apenas por ele que valemos.


domingo, 21 de outubro de 2012

Bégate ou Ser amigo

Despertei para o fim da manhã com um repto. Tu que gostas de te rir dos outros, pensar mal dos outros e escrever mal dos outros vai aqui e mata a gula. "Aqui" era um post de facebook. Abaixo do mote aparentemente inóquo de uma foto de uma salada às tantas a coisa descambava para uma das peixeiradas mais surreais, kafkianas - olhem, nem sei - que jamais li na vida. Ana, amiga de Bela X, dirigia uma mensagem empestada de ira a Bela Y por usar o diminutivo carinhoso Bé! E isto porque, alegava-se, Bé era o timbre e o monopólio da Bela X e seria de extremo mau gosto a outra também querer ser chamada de Bé. Aquilo interessou-me, claro. Mas como sou um cronista sério decidi ir investigar melhor a história antes de escrever. Aquilo ali havia de haver má vontade e o Bégate parecia-me um óbvio pretexto para declarar guerra. Mas fontes que preferiram o anonimato disseram-me que não, que Ana, não conhecia sequer Bé Y e que entre Bé X e Bé Y, sendo que se conheceriam não se alimentava nenhuma quezília ou rancor por ratearem o petit nom. Era portanto uma genuína revolta por algo que à falta de melhor definição definição vou definir como um sentimento pugente e visceral de respeito pela propriedade intelectual. Pois então! Pumba!

Bom mas a crónica de hoje não é realmente sobre posições imbecis em disputas imbecis.

A crónica é sobre outra coisa. É sobre a forma certa de amarmos os nossos amigos imbecis.

Há muito tempo teorizei sobre as guerras entre clãs de amigos. E dizia eu à data que nessas trincheiras é tudo mais uma questão de contar espingardas e solidariedades do que de medir a justeza das causas. É. No fim ganha quem tiver mais amigos.

Mas, meus queridos, há guerras e guerras. E algumas são nados mortos. Waterloos por defeito genético. São guerras incondicionalmente perdidas...

E digo isto porque aquilo que mais me fez pensar sorrir da condição humana neste debate delicioso é que às tantas apareciam alguns amigos da tal moça imbecil com discursos do tipo "Querida, eu sei que é com a melhor das intenções e com sentimentos de amiga. E já se sabe que as dores de amor nos fazem hiper-sensíveis. Mas querida, a querida estará a exagerar. Porque a querida é linda por dentro, sabe e hiper-sensível aos horrores do mundo, fofa, né? Pois. Mas também não é caso para tanto, rica... Cutxi, cutxi, etcétera e tal...

Opá...

Eu cá tenho o vício de chamar os bois pelos nomes e num caso como estes ou prestamos a nós próprios o bom serviço de assobiar para o lado e fingir que não vemos que um amigo se expõe ao ridículo (provavelmente o melhor...)

Ou não nos delapidamos a nós próprios a defender causas perdidas. 

Não...

Ligamos. Ligamos imediatamente e dizemos. "Desliga imediatamente o computador. Não fales com ninguém, não atendas chamadas. Vou a voar para aí. Primeiro vou-te chamar todos os nomes. Depois um par de estalos e depois vamos pensar juntos no futuro. Morada nova, nome novo. Quem sabe uma plástica. Vais ver, este erro resolve-se! Ainda vais ser feliz"

Ser amigo é isso

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Métricas na rede

As coisas que movem as pessoas na net são engraçadas. E por isso é sempre curioso acompanhar as métricas de tráfego dos nossos blogs, sites, páginas de rede social.

Por exemplo, lembro-me de uma crónica que escrevi há uns anos. Era das poucas que me atraía público para além dos poucos amigos que me fazem o frete de me ir lendo. Esta não! Atraía um público vasto e mundialmente disperso. Porquê? Simplesmente porque se chamava "Hairdo" e era uma reflexão profunda sobre cortes de cabelo. Magia! Queijo na minha ratoeira para os ratitos virtuais a meditar sobre cortes de cabelo.

Anos depois mantenho dois blogs em simultâneo. Este em que vou escrevinhando crónicas ao acaso como a que agora vos ofereço e um outro em que publiquei online o meu único e famigerado romance "A Guilda dos Melancólicos". E o fenómeno das visitas virtuais repete-se. Uns quantos tugas que suponho que sejam os amigos, umas visitas ocasionais da Irlanda que desconfio de quem sejam, um pequeno público groupie incondicional nos Estados Unidos e Brasil - a família da Bê Pagin, portanto...              ... e depois as visitas da Rússia -  que devem ser gajos a tentar meter vírus - e apontamentos ocasionalíssimos de lugares como Coreia do Sul e coisas assim que vá lá alguém perceber como aterram nas minhas palavras...

Hoje tinha a minha primeira visita de Moçambique. Curioso lá fui investigar do caminho que conduzira ao meu blog...

Palavras de pesquisa no Google...        "foder pretas em Moçambique"...

Bonito, não estou a ser famoso propriamente no segmento que imaginei nos meus sonhos de fama e glória com direito a Prémio Nobel, mas pronto, um leitor é um leitor!

Lol...

E agora que penso conheço uns quantos gajos que emigraram para Moçambique...

Malandros!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O comprimido da felicidade

O gajo encheu o peito de ar. Uma peitaça grande, cheia então... "O comprimido resulta mesmo, pôrra!" - a malta riu mas ninguém deu sequência. Take 2. "Ah caralho, é que a merda do comprimido resulta mesmo!" - Pôrra, estou a ficar lixado, se os amigos não lhe dão sequência atiro eu um "Então pá?" - Mas não foi preciso. Sai um gajo do duche a rir-se. "Então pá?" - "Epá, quando lá cheguei já ia maluco, apertei logo com ela! Foi na cozinha. Depois quis fugir! Mas eu disse-lhe, "anda cá..." -  e pimba foi sempre a abrir. Hoje deve estar toda assada." - Se houver um segmento de bazófia porno, é este gajo. O gajo esvazia a peitação grande num suspiro. "Ahhh, é que o comprimido faz mesmo efeito..."   - Suspiro. Eu normalmente colo-me a roubar as conversas dos outros para escrever crónicas. Desta vez não foi preciso. O gajo está a declamar poesia para aquele balneário cheio de testosterona tatuada. É o Cícero da zona. "Dezassete aninhos, ainda custa. Mas já é mulherzinha, tem que ser..." - Há um gajo que atira a ironia "Mulherzinha mas menor, meu..." - "Ah já sei quem é, é aquela que ficou a fazer a segunda aula?" - "Ya..." - Vai outro gajo para o duche a rir "Epá, bacano da tua parte contares tudo. Mas não valia a pena, daqui a bocado perguntávamos a ela." - Eu pego no saco, rio-me para mim e preparo-me para sair. Já tenho crónica. Uma crónica parva, gratuíta, gráfica e com cheiro a gel de duche e mistura de desodorizantes machos. Levo apenas um travo a amargo na boca. Ali só eu pareço não saber quem é ela. Tenho que fazer amigos no balneário!

Pilatos

Entrei na sala e desconfiei. Só gajas. A namorada levara-me para aquela aula e eu nem sabia bem o que era. Deram-me uma bola grande e puseram uma música Zen. "O que é isto?" - "Pilatos" - responde a Eva...            ... "Oh Diabo..." - penso eu. Se a malta da bola me apanha nestes preparos amaricados acaba-se a minha reputação. Ou acabava se eu ainda tivesse uma...

Quarenta e cinco depois o suplício acaba. Venho azuado e trago uma plaquinha ao peito que diz "Pior de todos".

Bati no fundo. Não é verdade, não bati e eu já nem tenho essa ilusão. Disse o mesmo quando fui tocar violoncelo no Dia Mundial da Criança num quarteto de putos (embora eu tivesse 33 anos). Mas trata-se do Rui. Coisas piores, muitas e muito piores estarão por suceder. Acreditem-me...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Rendimentos mínimos salomónicos

Hoje debatia uma querela pessoal com um amigo. Às tantas ele diz-me que no fundo ambos - eu e esse terceiro- tínhamos culpa. Espantei-me e quis saber que quota me cabia. Ele encolheu os ombros. "Não sei pá, mas creio que em qualquer desavença há-de haver sempre culpa de lado a lado.

A pensar naquilo ocorreu-me que era uma espécie de média tendencial da História do Universo. Mas pôrra, lá estatística é justiça?! Ah, quero que Salomão se dane. Na verdade tem culpa de metade do rosário de horrores da Humanidade. Se no fim metade da culpa é sempre nossa, nem mais, nem menos, para quê tecer o esforço de sermos absolutamente corretos?

Pensei, "opá, vai-te lixar com essa teoria!" - E até lhe podia ter batido, partido tudo à nossa volta e soltado todo o meu mau génio numa baixaria inqualificável e gratuita. É que qual Fenix renasceria imaculado de metade da minha culpa. Essa seria sempre dele.


Troika boa, Troika má

Um amigo hoje perguntava-me se não há a quem possamos na Europa fazer queixa do Estado português, dizer-lhes "Olhem, venham cá meter ordem nestes tipos, prendam-nos, levem-nos, façam o que quiserem. Porque eles não são bons nem para vocês da Europa nem para nós por cá." E como se eu não lhe desse resposta muito animadora dizia ele.  "Opá, tem que haver! Imagina que lá em Proença-a-Nova - o Pedro é de Proença-a-Nova - ia uma pouca vergonha do pior. Então não haverá processos técnicos para ir meter lá ordem naquilo. Pois, aqui é a mesma coisa mas à maior escala! E eu fiquei a pensar que o Pedro está cheio de razão. 

Andam para aí com palavras de ordem para correr com a Troika. Não estão a ver bem, o Pedro é que está. E pedirmos à Troika de fazer o jeitinho de correr com o nosso Estado?


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A apologia de Gasparzinho

Aos tacanhos de espírito falta lucidez para perceber a genialidade desta política fiscal.

A classe média vai ter mais poder de compra. Porquê? Porque doravante vai ser constituída por aqueles tipos com ordenados simpáticos mas que se começam a encolher todos com as bordoadas. Armados em espertos, pareciam tartarugas amontoadas a tentar trepar pelo balde fora para o lado dos ricos. Queriam! O Gaspar trata-lhes da saúde e ficamos com uma classe média toda catita que ainda passa umas boas férias mas agora no Algarve e dá um saltinho ao Health Club. Mas já não vão a ricos. Se for preciso comem mais enlatados e vendem uma das casas para ajudar a pagar a outra mais o IMI. Tem que ser. Ora isto é ao mesmo tempo coerente do ponto de vista da esquerda radical, de combater as prodigalidades da burguesia como coerente é de um ponto de vista mais meramente esteto-fútil de se ter uma classe média gira.

E agora que a temos não precisamos da antiga. Até porque esta desaparece mesmo. São neo-pobres. Doravante contam tostões, comem galinha  quando não for só sopa. Têm o essencial. O essencial é uma espécie de ir vivendo a caminho de lentamente não ter realmente nada. Por ora as pontas seguram-se. O que resta do Estado-Previdência dá uma ajuda, os pais e os sogros enchem-nos o frigorífico todas as semanas, os putos estudam na escola pública, com sorte entram numa universidade pública. Quando o nariz pinga vai-se para as filas da Caixa. Paga-se taxas moderadoras mas não se morre por isso. Menos mal. Até que os pais morram, até que a Saúde Pública e o Ensino Público e o Público em Geral morra vai-se vivendo. Menos mal mesmo. Depois talvez tenhamos que lhes meter um carimbo novo.

E os outros? Os outros que se fodam de vez. Vejo a água subir-me da cintura para o peito. Não é preciso ser muito esperto para perceber que para alguns ela já estava pelo queixo. O resto adivinhem vocês. A parábola da velha que na farmácia escolhia em um-do-li-tá que medicamento comprar que a reforma se recusava a pagar todos. Os desempregados de longa duração sem soluções nem subsídios nem pais para ajudar. Os que perdem as casas, qualquer dia nem é para os bancos, é para o estado mesmo. Os sem saúde e sem educação e sem nada. Este país não é só para velhos que não é. Simplesmente muito menos para eles! E depois? Temos novos pobres. Até mais catitas. Estes tipos até dão mais despesa que receita fiscal. Às vezes a humanidade turva-nos a visão. Mas o Gasparzinho percebeu na lucidez dos números que  estes gajos são todos dispensáveis. Que desapareçam de vez. Nem são baixas colaterais. Nem são baixas, são gorduras. Antes eles que andarmos de Clio.

Os que sobrevivem mordem o pano, quem sabe um dia não tapamos mesmo o buraco.

E depois? E depois eles podem começar a cavar-lo de novo.

Eles? Quem são eles?

Nenhuns dos descritos acima, asseguro-vos.

Tu é que a sabes toda, Gaspar...



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A fórmula mágica do Clio e da caneta Bic

Dêem Clios aos titulares de cargos políticos. Melhor, façam-nos andar de transportes. E canetas bic e uma cantina apenas digna para matar o bicho. Façam deles funcionários públicos ou melhor, recordem-lhes que é isso que eles são, é isso que sempre deveriam ter sido. Mas não, cultiva-se a praxe de que o aparelho político exibe sempre fausto, não importa quando nem como e sobretudo nem porquê. Nem que o país esteja empenhado até às orelhas e o luxo seja a prestações a pagar por gerações.

Se pensarmos bem, a primeira revolução devia ser a da frugalidade de tudo o que fosse supérfluono estatuto da classe política. Porquê?

Podíamos dizer que fosse para moralizar os sacrifícios que se pedem.

Poderíamos dizer que fosse sinal de uma evolução de mentalidade decadente que tanta falta faria.

Poderíamos dizer que seria mais uma simbólica poupança que fosse neste caos empenhado.

E tudo isso seria verdade mas nada disso explicaria o mais elementar benefício de tudo isso.

O mais importante é que essa austeridade traria o passe de mágica de em pouco tempo levar da classe política quase todos os parasitas que lá estão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ego

Ah pudesse eu com uma tesoura cortar em mim este meu ego
este mesmo que me faz cego
e que me dá às dores como ninguém
a iludir-me trágico da afronta que quase dor não tem
seria leve e doce
poder despir as garras com que firo e na dor que causo mirro
assim fosse
poder despir a pele por que me rasga o esbirro
E dizer-lhe a ele e a mim
"Faz como quiseres,
Tu não és mas sou eu livre por fim"
Não, não é que fosse então imortal
senhor e dono da equação que tria o bem e o mal
apenas livre desse peso que sei ser e nem nego
Ah pudesse eu com uma tesoura cortar em mim este meu ego




domingo, 7 de outubro de 2012

De volta à bola

O Porto ganhou ao Sporting. Nem sei por quantos. Saber que ganhou é o suficiente para fazer duas ou três piadolas requentadas. E basta. Mas a minha cena da bola hoje foi antes sequer do jogo. Vinha do jogging e a cortar caminho atravessei o bairro manhoso espécie de micro-cosmos manhoso na Graça típica, e que portanto é ainda mais típico. Ainda não intui completamente o perigo de passear lá dentro. Faço-o ocasionalmente. Até ver não correu mal. Até ao dia...        ... mas até que chegue ao dia hoje foi um dia e um dia não são dias. E hoje estavam alguns dos Jimbras dos costume a coçar o rabo num carro estacionado lá para o meio. Eu cresci na margem sul. Lá os artistas têm um ar diferente no guetto. Primeiro porque querem ser pretos e por isso embora pareçam sobretudo morar justamente ali a verdade é que têm um je ne sais quoi de South Central gangsta Rap. Na Graça não. É uma tribo urbana diferente e estes gajos não creio que queiram ser pretos pelo que me fazem muito mais lembrar o Banlieue dos  filmes de acção franceses. Eu passava a correr e a perguntar-me se seria bem vindo. E os tipos olharam-me como quem a ver "quem vem lá" e depois continuaram o debate da bola. "Epá, têm que dar tempo ao homem para mostrar trabalho." - Eu não ouvi muito mais do que isso mas vim a sorrir e a pensar na gíria dos futebólogos de esquina e de como transborda uma certa ternura e empatia na comunhão de ser da bola. "Deixem o homem trabalhar pá!"-  ou quando a claque deposita todos os sonhos e esperanças na promessa de craque que subiu este ano dos júniores "Sacana do puto, trata mesmo bem a bola." E cinquenta  pais de família adoptam até ver aquele filho que nunca tiveram. E claro, falamos sempre na primeira e terceira pessoa do plural. Nós e eles. Inefavelmente volto sempre a essa recordação grata em que o Rodolfo debatia com o Viriato questões éticas em torno de se o Cardozo fizeram bem em mandar calar a multidão. "Nós é que lhe pagamos o salário!" - exasperava-se o pobre Rudy. E é a magia do futebol. Ali o Rudy podia dar murros cúmplices no ombro daqueles mafiosos de esquina e piscar o olho e dizer "Han, ontem o homem lá nos resolveu o jogo."- Quando percebemos o sentimento destas coisas pertencemos todos. Eu é que não. Menos mal, a corrida chega ao fim.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

História Trágico-Marítima aka "Esta Merda em verso"

Quem vai na ponte?
suspiro...
Fosse homem que conte...
Ah, aquele que nada teme!
como diria o outro, houvesse Homem ao Leme...
... suspiro eu também...
que ao Leme vão todos e ao Leme não vai ninguém
É que nesta nau catrineta a afundar cheia de gente
Não embarcaram Messias, nem Golias, nem Pastores ou Salvadores
Há quem se o diga por treta, há quem iluda mas mente
Não vão sábios, só doutores
E vai mais, claro, vai a raia miúda a quem a esperança vai turva
de ir sempre a naufragar, nau apanhada na curva
E clamam
"É uma merda! Calha sempre aos mesmos!"
Homessa! Havia de calhar a quem?
Oh Senhores, mas digam, havia de calhar a quem?
Aos ratos que roem as sacas? Mas e encontrá-los no porão?
E ao Leme vão muitos...        ... mas ao Leme não vai ninguém!
Pois pague o povo marinheiro,
E afundem com a barca aqueles todos que lá vão
E no meio da tragédia alguém grita assim!
"Aos Salva Vidas! Mulheres e crianças, primeiro!"
Pois sim...
Mas primeiro o Capitão!
E os ratos?
Ah, criaturas de asco!
Vieram e foram com a maré...
deixaram roído o casco
E hoje apeteceu-me assim em verso
dizer que a outra não tem razão
no desabafo "Vão-se foder."
Porque quem se fode é o mexilhão

(lol)