Aos tacanhos de espírito falta lucidez para perceber a genialidade desta política fiscal.
A classe média vai ter mais poder de compra. Porquê? Porque doravante vai ser constituída por aqueles tipos com ordenados simpáticos mas que se começam a encolher todos com as bordoadas. Armados em espertos, pareciam tartarugas amontoadas a tentar trepar pelo balde fora para o lado dos ricos. Queriam! O Gaspar trata-lhes da saúde e ficamos com uma classe média toda catita que ainda passa umas boas férias mas agora no Algarve e dá um saltinho ao Health Club. Mas já não vão a ricos. Se for preciso comem mais enlatados e vendem uma das casas para ajudar a pagar a outra mais o IMI. Tem que ser. Ora isto é ao mesmo tempo coerente do ponto de vista da esquerda radical, de combater as prodigalidades da burguesia como coerente é de um ponto de vista mais meramente esteto-fútil de se ter uma classe média gira.
E agora que a temos não precisamos da antiga. Até porque esta desaparece mesmo. São neo-pobres. Doravante contam tostões, comem galinha quando não for só sopa. Têm o essencial. O essencial é uma espécie de ir vivendo a caminho de lentamente não ter realmente nada. Por ora as pontas seguram-se. O que resta do Estado-Previdência dá uma ajuda, os pais e os sogros enchem-nos o frigorífico todas as semanas, os putos estudam na escola pública, com sorte entram numa universidade pública. Quando o nariz pinga vai-se para as filas da Caixa. Paga-se taxas moderadoras mas não se morre por isso. Menos mal. Até que os pais morram, até que a Saúde Pública e o Ensino Público e o Público em Geral morra vai-se vivendo. Menos mal mesmo. Depois talvez tenhamos que lhes meter um carimbo novo.
E os outros? Os outros que se fodam de vez. Vejo a água subir-me da cintura para o peito. Não é preciso ser muito esperto para perceber que para alguns ela já estava pelo queixo. O resto adivinhem vocês. A parábola da velha que na farmácia escolhia em um-do-li-tá que medicamento comprar que a reforma se recusava a pagar todos. Os desempregados de longa duração sem soluções nem subsídios nem pais para ajudar. Os que perdem as casas, qualquer dia nem é para os bancos, é para o estado mesmo. Os sem saúde e sem educação e sem nada. Este país não é só para velhos que não é. Simplesmente muito menos para eles! E depois? Temos novos pobres. Até mais catitas. Estes tipos até dão mais despesa que receita fiscal. Às vezes a humanidade turva-nos a visão. Mas o Gasparzinho percebeu na lucidez dos números que estes gajos são todos dispensáveis. Que desapareçam de vez. Nem são baixas colaterais. Nem são baixas, são gorduras. Antes eles que andarmos de Clio.
Os que sobrevivem mordem o pano, quem sabe um dia não tapamos mesmo o buraco.
E depois? E depois eles podem começar a cavar-lo de novo.
Eles? Quem são eles?
Nenhuns dos descritos acima, asseguro-vos.
Tu é que a sabes toda, Gaspar...
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