domingo, 21 de outubro de 2012

Bégate ou Ser amigo

Despertei para o fim da manhã com um repto. Tu que gostas de te rir dos outros, pensar mal dos outros e escrever mal dos outros vai aqui e mata a gula. "Aqui" era um post de facebook. Abaixo do mote aparentemente inóquo de uma foto de uma salada às tantas a coisa descambava para uma das peixeiradas mais surreais, kafkianas - olhem, nem sei - que jamais li na vida. Ana, amiga de Bela X, dirigia uma mensagem empestada de ira a Bela Y por usar o diminutivo carinhoso Bé! E isto porque, alegava-se, Bé era o timbre e o monopólio da Bela X e seria de extremo mau gosto a outra também querer ser chamada de Bé. Aquilo interessou-me, claro. Mas como sou um cronista sério decidi ir investigar melhor a história antes de escrever. Aquilo ali havia de haver má vontade e o Bégate parecia-me um óbvio pretexto para declarar guerra. Mas fontes que preferiram o anonimato disseram-me que não, que Ana, não conhecia sequer Bé Y e que entre Bé X e Bé Y, sendo que se conheceriam não se alimentava nenhuma quezília ou rancor por ratearem o petit nom. Era portanto uma genuína revolta por algo que à falta de melhor definição definição vou definir como um sentimento pugente e visceral de respeito pela propriedade intelectual. Pois então! Pumba!

Bom mas a crónica de hoje não é realmente sobre posições imbecis em disputas imbecis.

A crónica é sobre outra coisa. É sobre a forma certa de amarmos os nossos amigos imbecis.

Há muito tempo teorizei sobre as guerras entre clãs de amigos. E dizia eu à data que nessas trincheiras é tudo mais uma questão de contar espingardas e solidariedades do que de medir a justeza das causas. É. No fim ganha quem tiver mais amigos.

Mas, meus queridos, há guerras e guerras. E algumas são nados mortos. Waterloos por defeito genético. São guerras incondicionalmente perdidas...

E digo isto porque aquilo que mais me fez pensar sorrir da condição humana neste debate delicioso é que às tantas apareciam alguns amigos da tal moça imbecil com discursos do tipo "Querida, eu sei que é com a melhor das intenções e com sentimentos de amiga. E já se sabe que as dores de amor nos fazem hiper-sensíveis. Mas querida, a querida estará a exagerar. Porque a querida é linda por dentro, sabe e hiper-sensível aos horrores do mundo, fofa, né? Pois. Mas também não é caso para tanto, rica... Cutxi, cutxi, etcétera e tal...

Opá...

Eu cá tenho o vício de chamar os bois pelos nomes e num caso como estes ou prestamos a nós próprios o bom serviço de assobiar para o lado e fingir que não vemos que um amigo se expõe ao ridículo (provavelmente o melhor...)

Ou não nos delapidamos a nós próprios a defender causas perdidas. 

Não...

Ligamos. Ligamos imediatamente e dizemos. "Desliga imediatamente o computador. Não fales com ninguém, não atendas chamadas. Vou a voar para aí. Primeiro vou-te chamar todos os nomes. Depois um par de estalos e depois vamos pensar juntos no futuro. Morada nova, nome novo. Quem sabe uma plástica. Vais ver, este erro resolve-se! Ainda vais ser feliz"

Ser amigo é isso

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