Há coisas difíceis de traduzir pela palavra escrita. Os sons. Porque as onomatopeias ainda não evoluíram ossuficiente. Metade da magia perde-se. Uma palavra pode valer mil imagens mas não vale nem meio som. Assim é e ainda assim tentarei descrever-vos a peripécia de há pouco.
A porta do elevador em Santa Apolónia ia fechar. Corro e por pouco não fico de fora. Mas entrei. Agora sei que foi o Deus das Crónicas patetas que manteve a porta aberta para que eu entrasse. E eu entrei! Vamos cinco lá dentro, a adolescente rechonchuda que me lança um sorriso simpático do "à queima" com que me esgueirei lá para dentro, as duas amigas sessentonas de ar zangado com a vida ou com qualquer outra coisa. E depois o tipo de fato e gravata que arrasta um trolley de viagem. Vamos todos calados menos ele. E todos sabemos disso menos ele que leva a música demasiado alta nos ouvidos. Essas coisas dão por vezes asneiras. Apercebi-me disso no dia em que bebi no Departamento café demasiado quente com a música demasiado alta. E não percebi logo porque é que todos se riam para mim com aquele ar semi-carinhoso-semi-trocista. Mais tarde alguém me diria que o estrilho com que sorvia o café se devia ouvir dois pisos abaixo. Continuemos. Este tipo não bebe café mas canta. Não, não é verdade, não canta. Antes cantasse. Aliás faltam gajos com os tomates e a espontaneidade para coisas assim. Eu conheço a Joana que assobia lindas áreas enquanto trabalha o excel. Embora ao cabo das horas aquele sibilo dela me mexa com os nervos eu admiro-a pela jovialidade. Mas este gajo não canta. Isso era giro! Que soltasse um "Há sempre música entre nós" e depois vergasse a espinha a uma das velhas num beijo cinematográfico. Isso era giro e arrojado e renovaria a minha esperança na humanidade. Mas o gajo não canta, é demasiado tímido para isso. Ou melhor canta. Ou pior, pensa que canta suficientemente baixo, só para si. Um "hmmmmm, hmmmm, hmmmmm, a aflautar na voz presa na garganta notas imperfeitas de uma pauta irreconhecível nessa clausura. Vai com aquele ar descontraído do recato que ninguém o ouve. Mas ouvimos todos. Não soa a canção, soa a gemido lascivo de orgasmo prestes a rebentar. Soa mesmo. O gajo vai para ali a gemer com o ar sereno de que não é um engravatado a gemer no elevador para uma adolescente duas velhas mais o Rui. E nós vamos todos deleitados a ouvir. Até as velhas já não têm um ar zangado com o Mundo.
A porta do elevador abre dois pisos acima. Soube a pouco.
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