O Porto ganhou ao Sporting. Nem sei por quantos. Saber que ganhou é o suficiente para fazer duas ou três piadolas requentadas. E basta. Mas a minha cena da bola hoje foi antes sequer do jogo. Vinha do jogging e a cortar caminho atravessei o bairro manhoso espécie de micro-cosmos manhoso na Graça típica, e que portanto é ainda mais típico. Ainda não intui completamente o perigo de passear lá dentro. Faço-o ocasionalmente. Até ver não correu mal. Até ao dia... ... mas até que chegue ao dia hoje foi um dia e um dia não são dias. E hoje estavam alguns dos Jimbras dos costume a coçar o rabo num carro estacionado lá para o meio. Eu cresci na margem sul. Lá os artistas têm um ar diferente no guetto. Primeiro porque querem ser pretos e por isso embora pareçam sobretudo morar justamente ali a verdade é que têm um je ne sais quoi de South Central gangsta Rap. Na Graça não. É uma tribo urbana diferente e estes gajos não creio que queiram ser pretos pelo que me fazem muito mais lembrar o Banlieue dos filmes de acção franceses. Eu passava a correr e a perguntar-me se seria bem vindo. E os tipos olharam-me como quem a ver "quem vem lá" e depois continuaram o debate da bola. "Epá, têm que dar tempo ao homem para mostrar trabalho." - Eu não ouvi muito mais do que isso mas vim a sorrir e a pensar na gíria dos futebólogos de esquina e de como transborda uma certa ternura e empatia na comunhão de ser da bola. "Deixem o homem trabalhar pá!"- ou quando a claque deposita todos os sonhos e esperanças na promessa de craque que subiu este ano dos júniores "Sacana do puto, trata mesmo bem a bola." E cinquenta pais de família adoptam até ver aquele filho que nunca tiveram. E claro, falamos sempre na primeira e terceira pessoa do plural. Nós e eles. Inefavelmente volto sempre a essa recordação grata em que o Rodolfo debatia com o Viriato questões éticas em torno de se o Cardozo fizeram bem em mandar calar a multidão. "Nós é que lhe pagamos o salário!" - exasperava-se o pobre Rudy. E é a magia do futebol. Ali o Rudy podia dar murros cúmplices no ombro daqueles mafiosos de esquina e piscar o olho e dizer "Han, ontem o homem lá nos resolveu o jogo."- Quando percebemos o sentimento destas coisas pertencemos todos. Eu é que não. Menos mal, a corrida chega ao fim.
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