No fundo o que eu quero dizer é que infelizmente o copo menstrual não é o nosso problema mais premente. Poucos de nós estamos prontos para abdicar dos nossos pensos higiénicos, só os muito sensatos. Nenhum de nós tem infelizmente condições para abdicar do emprego na fábrica dos pensos higiénicos, nem os mais sensatos.
Mas o problema está lá e, lentamente, os pensos higiénicos crescem do outro lado do muro.
As reações ao programa eleitoral do PAN e a esta cereja no topo do bolo do copo mentrual variarão entre o sorriso irónico e a ira que eu já vi plasmada do "Copos menstruais?!!! Os meus impostos pagam isto??!!! Vão todos levar no cu, os gajos do PAN e os que os elegeram!"
A verdade é que temos todos problemas mais complicados que o copo menstrual.
Ou não?
Era uma vez uma aldeia global cuja bandeira era um Penso Higiénico. Os aldeões e as aldeãs eram todos felizes. Todos usavam pensos higiénicos. Na verdade todos trabalhavam na fábrica dos pensos higiénicos. Todos os dias se produziam e consumiam milhões de pensos higiénicos. Todos os dias saíam novos modelos mais sofisticados de penso higiénico e todos os dias os aldeões rejubilavam a deitavam fora o penso higiénico do dia anterior para experimentar a nova maravilha da Corporação do Penso Higiénico para que todos trabalhavam. Não que precisassem de mudar de penso higiénico. Nesta aldeia maravilhosa há muito que se inventara o penso higiénico muitas e muitas vezes reutilizável. E no entanto ninguém usava o mesmo penso higiénico duas vezes. Compravam o modelo de penso higiénico seguinte e iam atirar o penso higiénico antigo por cima do muro que separava a aldeia feliz do resto-do-mundo-desconhecido.
Um dia bateram-lhes à porta. Era uma raposa que trazia um penso higiénico na cabeça. A aldeia veio ver em peso ver o que estaria o logo do Mozilla a fazer ali com um penso higiénico na cabeça, ainda por cima um modelo tão demodé. Ora a raposinha vinha reclamar que o resto-do-mundo-desconhecido estava atulhado numa lixeira de pensos higiénicos dos aldeões felizes e queria saber para que eles tinham necessidade de trocar de penso higiénico todos os dias. Afinal a raposinha e o resto dos animais e das pessoas que viviam como animais no resto-do-mundo-desconhecido rapidamente tinham percebido que cada penso higiénico durava bué. E, então, porquê?
Os aldeões felizes entreolharam-se e poucos sabiam realmente porquê. Olha, porque sim. Porque os pensos higiénicos davam sentido à vida, alegria, frescura! Nos seus modelos sempre renovados com novas designs, cores e aplicações! Porque é que usavam todos os dias um pensinho novo, em vez de estimar e fazer render? Ou, olhem, porque é que não usavam um copo menstrual? Os aldeões felizes não sabiam ao certo porquê...
No entanto o CEO da Corporação do Penso Higiénico e o Rei da Aldeia sabiam porquê...
Era absolutamente necessário que houvesse pensos higiénicos. Muitos, renovados, reinventados, todos os dias!
Primeiro porque aqueles eram os aldeões felizes. E a sua ilusão de felicidade - poucas felicidades são realmente mais que ilusão - eram um artifício baseado em duas coisas: fabulosos pensos higiénicos e não saber de nada que se passasse para lá do muro.
Mas havia mais problemas. Se não se fabricassem mais pensos higiénicos a Corporação dos Pensos Higiénicos faliria. O CEO do Penso Higiénico ficaria pobre e todos os aldeões sem emprego e sem dinheiro. Não só para comprar pensos higiénicos mas também para comprar batatas e coisas assim. A aldeia feliz seria em meses a aldeia do caos.
Sabiam disso. Sabiam da pescadinha de rabo na boca que sustentava o eco-sistema da aldeia. E infelizmente não faziam ideia de como resolver o problema.
Não, não se podia parar de fabricar pensos higiénicos. E não, havia definitivamente que evitar que se espreitasse por cima do muro. Quando a altura de pensos higiénicos acumulados transbordasse para o lado de cá logo se pensaria nisso. Talvez um muro mais alto!
No fundo o que eu quero dizer é que infelizmente o copo menstrual não é o nosso problema mais premente. Poucos de nós estamos prontos para abdicar dos nossos pensos higiénicos, só os muito sensatos. Nenhum de nós tem infelizmente condições para abdicar do emprego na fábrica dos pensos higiénicos, nem os mais sensatos.
Mas o problema está lá e, lentamente, os pensos higiénicos crescem do outro lado do muro.
No mínimo dos mínimos é pertinente que alguns "loucos" comecem a recordar-nos do assunto mesmo se o tema essencial da conversa ainda não é esse...
... mas um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos ter que repensar os modelos atuais ou desaparecer com eles.
E por isso, não, não é estúpido falar-se de copos mentruais no Parlamento.
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