Os preconceitos, o racismo, a homofobia, etc, etc, etc, são realidades lamentáveis. Mas as expressões histéricas de susceptibilidades desproporcionadas ou de todo injustificadas são um mau serviço às causas das minorias. Até porque as pessoas decentes suportam os direitos da Comunidade Gay mas ninguém tem pachôrra para bichas histéricas.
Estávamos em 1995. Eu era caloiro de Direito na Lusíada. Deixem-me que vos diga duas coisas acerca do ensino privado, pelo menos na Lusíada, pelo menos em Direito, pelo menos naquele tempo - e estou a semi-divagar em relação ao tema principal ou a pintar um contexto, não sei bem: aquela Universidade tinha uma proposta de ensino séria e exigente. A coisa dava-se em funil, em triagem de muitos chumbos e processos de amadurecimento. Quando eu cheguei ao terceiro ano estava numa turma de tipos razoavelmente competentes. Quando terminei o curso a safra era de média para cima. Mas isso pouca importa. Porque interessa é que estávamos no primeiro ano e houvesse dinheiro para pagar a propina e se se conseguisse falsificar um certificado de habilitações de décimo segundo ano para um porco... ... ele era aceite na Lusíada. A triagem começaria rapidamente nas frequências de primeiro semestre e nas primeiras negativas arrasadoras a convidar à fuga para uma Instituição "à Relvas". Mas até lá, valia tudo e os caloiros de Direito eram um enorme de bando a incluir muito do mais calão, néscio, ignorante ou simplesmente burro que o ensino secundário em Portugal na área de Humanísticas tivesse regorgitado.
Entre estes militava a Preta que ainda não tinha um extintor.
A Preta para começar nem era Preta. Pelo menos não me parecia, eu achava-lhe ar de Timorense. Mas na volta era mesmo preta porque o mito urbano a dava como uma dessas filhas burras das elites angolanas emergentes que andavam a passear livros em Portugal. A Preta, de idade indefinida mas por certo mais velha que o resto da caloirada era da minha turma. E apesar de militar numa turma de quase duzentas almas em que eu adivinhava dezenas de burros a competir pela coroa aquela era provavelmente a mais burra de todas. Era um autêntico calhau que só dizia disparates, somava fracassos atrás de fracassos em exame mas clamava a cada reprovação que a prejudicavam porque era preta.
A situação atingiu o apogeu, pelo menos do que eu sei da história, quando em Frequências de segundo semestre a Preta foi a oral com um Assistente de que não retenho o nome. Era um daqueles jovens professores meio pedantes que gostavam de triturar alunos na oral. Só que naquele dia a oral era a da Preta e vir-se-ia a demonstrar um erro crasso humilhá-la. A Preta tinha calo de ser chumbada. Que remédio... ... mas humilhar é uma coisa diferente e estava por testar se era seguro. Provou-se nesse dia que não era. Quando o Assistente Pedante começou a troçar da evidente ignorância da examinanda saíu-lhe o tiro pela culatra. A Preta gritou-lhe na cara:
"Só fazes isso porque eu sou preta!"
Vai daí vai buscar um extintor e corre atrás dele para lhe ensinar a sua versão pessoal do direito à indignação numa versão "pelos cornos abaixo"
E foi um regalo ver o Assistente aflito a correr porta fora com a Preta que agora já era a Preta do extintor no seu encalço.
Mas o que é importante para a moral desta história é que a Preta era de facto muito burra e mesmo se essa burrice e a troça do Assistente eram lamentáveis a coisa nada teve a ver com racismo.
Os preconceitos, o racismo, a homofobia, etc, etc, etc, são realidades lamentáveis. Mas as expressões histéricas de susceptibilidades desproporcionadas ou de todo injustificadas são um mau serviço às causas das minorias. Até porque as pessoas decentes suportam os direitos da Comunidade Gay mas ninguém tem pachôrra para bichas histéricas.
Que é como quem diz, como dizia a Marisa, "Deslarguem lá o José Rodrigues dos Santos"
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