Os comentadores de direita, oficiais engajés e de vão de escada- tipo eu, de vão de escada, entenda-se, não de direita - andam numa campanha acirrada, assombrados pela hipótese da frente de esquerda do Tó Costa. Esgrimem-se uma série de argumentos. Alguns são facciosos, até ignorantes. Outros têm a legitimidade das coisas discutíveis desta vida e outros ainda poderão mesmo ser muito assertivos.
Há um que infelizmente muito me impressiona e é evidente e lamentavelmente na mouche: a simples possibilidade de um governo dessa potencial frente de esquerda já prejudicou os juros da dívida portuguesa nos mercados.
O facto é esse. Podemos depois discutir se a dívida é pagável. Podemos discutir se o mercado é ético. E podemos discutir se o caminho do governo de Centro Direita não é o caminho de cortar todas as árvores para comprarmos balões de oxigénio e no fim morrermos na mesma sufocados pela dívida, sem ar e sem nada com que comprar mais adiamentos a que nos afundemos de vez. Repito, tudo isto é discutível e admito opiniões em ambos os sentidos.
Mas se tudo isto é discutível creio que não o seja que dependemos absolutamente dos nossos credores, pelo menos no curto prazo e pelo menos a não ser que queiramos encetar processos de revolução social de consequências imprevisíveis e perigosas. Igualmente não é discutível que esse tal score dos mercados traduzido em juros e ratings - perversos que sejam - tem sobre nós o jugo de nos afundar ainda mais do que já estamos. E também não é discutível de que um governo de direita neoliberal tem à partida muito melhores condições de, só pelo cheiro, inspirar melhores indicativos para Portugal nos mercados.
E é por aqui que eu singro a minha tentação de direita, pelo menos desta direita. É uma tentação servil, note-se. É uma tentação que cheira ao medo da revolta do murro em ponta de faca. É a tentação de aceitar que as coisas são como são e não remar contra o curso da corrente que os nossos financiadores impõem. As coisas são como são.
E eu dou por mim a sentir estas coisas e a identificar-me com uma série de receios de pessoas de bem e de direita. E estou certo de que de algumas pessoas de esquerda e de centro que se identifiquem com estes mesmos receios. De que mais do que percentagens sobre pensões e ordenados levem o emprego e o pão da mesa.
Eu percebo.
Mas há coisas de que eu não gosto. Não gosto que a figura amorfa e imprecetível do "mercado" tenha o poder de ditar. Aceite esse poder hoje estão-nos a limitar os excessos de quem gasta o que não tem, amanhã estão-nos a escravizar. Só porque sim, só porque perceberam que podem. Que podem de novo como já puderam. Não gosto de que seja sim só por medo. Não gosto de não perceber os limites desse medo. E não gosto de euforias bacocas. Palminhas sempre que o mercado nos afague a cabeça, paternal, só porque demos mais uma volta atrás do próprio rabo e despimos mais uma peça de roupa. Percebo que tenha que ser feito. Percebo que tenha que ser assim. Na volta tem mesmo. Não percebo é que nos orgulhemos dessa capitulação.
Numa visão alucinada vejo o mercado a pedir que sacrifiquemos um em cada dez para fazer as vezes do Cabrito na mesa de Páscoa do mercado. E vejo o repto de que é patriótico que assim seja, desde que não nos calhe a nós.
E percebo, até percebo. Só não percebo que haja orgulho nisso. E não gosto. Mesmo nada...
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