sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Reflexão à esquerda

A esquerda esteve quase lá. Está quase lá, não se sabe bem. Há ainda uma terceira hipótese: que este cenário venha evidenciar que a esquerda, tal como se posiciona nunca vai passar disto. Do quase lá, em cenários raros como este: uma direita debilitada pelo desgaste de uma legislatura à bruta e um centro inepto que desague nesta conjuntura improvável em que teve os votos todos que potencialmente poderia ter e mais alguns absolutamente excecionais.

Mas pode estar sobre a mesa a evidência de que esta esquerda, assim, não tem como ir mais além.

Assim que se percebeu o peso inusitado da bancada esquerda, a Direita e até um certo Centro conjuraram o demónio de todos os preconceitos e fantasmas antigos que rodeiem a esquerda dita extrema, comunista, leninista, maoista, trotskista, etc, etc, etc.

Há muito de fanatismo e jogo sujo em todo este discurso exacerbado de Direita, a inspirar medo às hostes, claro que sim.

Mas também há medida de justiça já que PCP e BE não renegam o comunismo de todo, desde logo nas suas marcas partidária e em vários sentidos nos seus conteúdos programáticos. Se nos deitarmos a ler os seus programas eleitorais percebemos várias coisas: não há ali uma agenda nem de comer criancinhas ou de relançar o PREC como se sensacionaliza. E no entanto em várias questões a matriz ideológica comunista permanece lá como o dedo leve na nacionalização de - cá para o meu gosto - demasiado. Fala-se muito em direitos dos trabalhadores e eu gosto disso mas continua-se a olhar com um soslaio bacoco para o capital que fomente empregos e disso já não gosto tanto. Depois vem a Europa da qual se quer sair e renegociar a dívida sem explicar muito bem se somos viáveis sem esse Big Brother. Bom mas aí é justo, a Direita também não explica que a dívida é impagável e que a única solução que lhe ocorre é ir empatando a questão com cargas fiscais que não vão solucionar eternamente. Para treta, treta e meia!

Para lá daquilo em que a esquerda comunista e bloquista (eufemismo de mais comunistas) se demonstra melhor do que a pintam, exatamente como a pintam e igual na demagogia aos que a pintam sobra uma questão:

O que é que essa esquerda pode ser para corresponder realmente aos ensejos da sua base eleitoral? A sua base eleitoral possível para lá do fumo de votos de protesto e votos que lhes são dados não pelo seu programa como um todo mas ao invés, justamente, apesar de uma boa parte do seu programa?

Haverá realmente muitos comunistas para votarem convictamente em partidos comunistas?

Francamente creio que não.

Num país de cultura política pouco esclarecida creio que a esquerda, essa esquerda que navega de meio do PS para a esquerda confunde uma série de coisas com comunismos ou, por outra via, com a visão clara que não quer ser realmente comunista, confere o seu apoio aos comunistas por uma série de virtudes que se associam à esquerda portuguesa: a ausência de uma mácula totalitária como a que sujou a Direita do Estado Novo; a resistência a esse mesmo Estado Novo; a beligerância competente de Oposição e de Trabalho Autárquico, o contraditório de salvaguarda dos direitos dos trabalhadores e a conotação com uma série de valores mais tolerantes sempre que se esgrimiram as questões mais fraturantes de ética social.

Esta cultura demarcou, faça-se justiça, a esquerda do dito arco centro-direita da governação que por necessidade, oportunidade e simples estupidez genética nos cansou após o 25 de Abril em sucessivas legislaturas com tiques de corrupção, insensibilidade social, clientelismo e preconceito.

Mas eu creio, creio francamente, que esta massa de esquerda feita de todas estas motivações é muito mais vasta que o reduto de convicção comunista. E pergunto-me quantos comunistas haverá realmente nas esquerdas supostamente comunistas? Quantos quererão realmente sair da Europa à papo-seco ou recolocar de novo todas as cartas num gigantesco setor público, ou atacar como gato a bofe a livre iniciativa e a propriedade privada?

A questão é relevante porque em dias como estes, quase a chegar à praia do poder, esta esquerda talvez tenha que concluir que sem se reformar vai sempre morrer na praia. E nem é por marosca da Direita.É por lerem mal o sentido dos votos que tenham.

Diria que para PCP e BE a coerência pode estar na persistência em serem como são e isso é legítimo.

Mas o apoio popular esse está em ocupar o vazio da social democracia.

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