sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O Cavalo de Tróia da análise política

A arma mais insidiosa da publicidade é provavelmente a notícia jornalística por encomenda. E a arma mais insidiosa do marketing político é a análise política engajada. Assim se resolve o problema do descrédito das litigâncias em causa própria vendendo-se como análise isenta mera propaganda. Pensei nisto ao ler uma série de opiniões sobre a salganhada pós eleitoral e quem deva o PR nomear. A questão não é quem tem razão. A questão é que tentemos partir da conclusão para a fundamentação e não no sentido inverso.


Gosto de ler opinião política. Ajuda-me a formar os meus próprios pontos de vista.

O problema é que tenho cada vez mais a convicção de embuste.

Eu não me importo com as clivagens subjetivas ou ideológicas. E sobretudo não me importo com estas quando são honestas e evidentes. É bom ouvir vários pontos de vista que nos permitam situarmos-nos na constelação das possibilidades.

Tenho muito mais azedume quando ocorre que me estejam a vender banha da cobra sob o engodo de análise objetiva "quase científica". Porque podem suceder duas coisas. Ou eu tomo consciência disso e oscilo entre a irritação e o sorriso cínico, ou não tomo e às tantas dou por mim a ser levado no conto do vigário e a formar opiniões mal estruturadas. Não estou zangado porque sou agora uma besta contentinha a pensar que aprendeu algo. Mas devia estar zangado. E muito.

A arma mais insidiosa da publicidade é provavelmente notícia jornalística por encomenda. E a arma mais insidiosa do marketing político é a análise política engajada. Assim se resolve o problema do descrédito vendendo-se como análise isenta mera propaganda. Pensei nisto ao ler uma série de opiniões sobre a salganhada pós eleitoral e quem deva o PR nomear. A questão não é quem tem razão. A questão é que tentemos partir da conclusão para a fundamentação e não no sentido inverso.

Às tantas diz um cronista do DN

"Diz a Constituição que o Presidente da República convida o líder do partido mais votado a formar governo e é isso que deve acontecer."

Só que a Constituição o que diz é

CAPÍTULO II 
Formação e responsabilidade 
Artigo 187.º (Formação) 1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais. 



O que não é a mesma coisa.

O que eu quero dizer com isto é que há espaço interpretativo para o cenário parlamentar à luz da Constituição e qualquer hipótese de Governo que se concretize não será desprovida nem de legitimidade técnica nem política.

E eu não me importo que num plano meramente subjetivo todos palrem que "Ou nós ou o caos."

Mas era importante que nos conformássemos de que são apenas opiniões e não dogmas que devamos impor com artifícios de temor reverencial a pretensos "factos".


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