Um amigo publicou um livro há dias. Uma dessas publicações de Vanity Writing Publishing. E cá veio parar um exemplar do romance a casa e a Eva começou a ler. E às tantas comenta-me que a mulher do meu amigo devia ter ficado furiosa ao ler sobre tantas mulheres. E eu respondi que podia ser tudo ficção. E a Eva respondeu que "ah o tanas". E eu perguntei se portanto isso significava que ai de mim que desatasse a ficcionar romances de amor com personagens femininos que não ela. E ela confirmou que era isso mesmo...
Encontro a minha maior inspiração para escrever nos outros. Não sou dado aos extremos nem da fantasia nem da filosofia que não tenham âncora suficiente na realidade dos outros. Sem os outros aborreço-me eu e mingua-me textura à prosa. É por isso que escrevo sobretudo sobre momentos e pessoas, a pretexto de conversas que tive ou roubei. Se ando demasiado só dou por mim calado. Ao ponto de associar alguns dos meus picos criativos a coisas tão aparentemente irrelevantes como que naquele mês encostei o carro e andei de transportes públicos. Ao ponto de por estes dias dar por mim a pensar que devia apanhar um autocarro para lado nenhum só para ouvir e inspirar-me. Sim, a sério. Não tenho imaginação suficiente para partir do nada, essa é que é essa. Há dias uma colega perguntava-me se era tudo verdade o que escrevia. Parecia-lhe fruta a mais para não ser mentira. Mas até é tudo verdade. Mentira haja nas minhas crónicas a única mentira é o rebuscado adornado do meu ponto de vista. A única mentira sou eu.
Mas as minhas musas são um problema crescente que dá com uma mão e tira com a outra.
Conforme fui amadurecendo fui inventando este meu estilo de janela indiscreta sobre os outros. E durante muito tempo foi fácil e impune. Fui-me viciando a escrever crónicas sempre sobre pessoas para o pequeno público de meia dúzia de amigos. E a impunidade era a de que me podia esticar à vontade que os objetos da minha crítica a mais das vezes não o saberiam. E se de quando em vez escrevia sobre esses amigos fazia-o a risco moderado perante essa tropa fandanga que me perdoava a indiscrição solta aos sete ventos em terra de quase ninguém de um blog intimista.
Era o crime perfeito.
Só que depois sucederam setecentos e setenta e seis peripécias notáveis que embora à partida possam parecer coisa leve em muito vieram condicionar as minhas crónicas, a minha inspiração e a minha liberdade.
Primeiro apareceu o Facebook.
Depois adicionei setecentos e setenta e quatro amigos no Facebook.
Por fim casei.
Comecemos pela relevância dos setecentos e setenta e quatro amigos e o Facebook.
Se por um lado potenciaram a possibilidade grata ao ego de que nos leiam e elogiem. Há sempre alguém que o faz e comenta e bota o gosto e nós rejubilamos...
... por outro lado potenciaram a possibilidade de levar um carolo de alguém de cada vez que dou largas ao estilo sarcástico. Porque, lá está, eu falo sempre de pessoas e nem sempre bem.
Não tive logo a consciência mas acabei por perceber depois de uma série de momentos bons e maus que tinha o meu amado público a respirar-me junto à orelha para o bem e para o mal. E de repente era possível que recebesse uma mensagem ou me cruzasse com alguém no elevador da empresa ou a passear a cadela em Arroios. E que os meus devaneios viessem à baila. Para me dizer que escrevo coisas giríssimas... ... ou para sugerir que metesse a viola no saco antes que tivessem que me afinar as cordas... ... felizmente que no cara a cara os momentos foram gratos e tudo de azedo veio sempre sobre a forma de mensagem. Mas uma coisa era certa, era o início do fim da Impunidade Criativa.
O Mundo estava a mudar!
Depois casei. E para perceberem como casar é relevante contar-vos-ei uma história.
Um amigo publicou um livro há dias. Uma dessas publicações dos Vanity Writing Publishers. E cá veio parar um exemplar do romance a casa e a Eva começou a ler. E às tantas comenta-me que a mulher do meu amigo devia ter ficado furiosa ao ler sobre tantas mulheres. E eu respondi que podia ser tudo ficção. E a Eva respondeu que "ah o tanas". E eu perguntei se portanto isso significava que ai de mim que desatasse a ficcionar romances de amor com personagens femininos que não ela. E ela confirmou que era isso mesmo...
...
E portanto o casamento é o fim absoluto da liberdade de expressão cronística.
Um tipo já estava condicionado de malhar ou ser simplesmente indiscreto sobre a vida dos setecentos e setenta e quatro amigos do Facebook. Com a mulher fia ainda mais fino. Não podemos falar da nossa mulher, muito menos para dizer mal dela. Mas ai de nós se a ignoramos porque num sentido que só aparentemente é contraditório com o primeiro devíamos falar apenas e exclusivamente dela. Bem, claro! Odes de amor por amor à pele!
E eu estava a imaginar a vida sofrida que um Saramago deve ter tido na vida doméstica com a sua Pilar.
"Blimunda? Blimunda?!!! Eu dou-te a Blimunda! Quem é essa porca? Sobre mim não escreves tu!"
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