domingo, 25 de outubro de 2015

O Governo do chouriço

Não, não é o de Pedro Passos Coelho. Bom podia ser. Mas para o caso não é. Pedro Passos Coelho é um chouriço no sentido figurativo de triste figura e eu estou a falar em chouriço a sério. Enchido do bom.  Éramos nós os três de volta dos petiscos à mesa. Um à direita, outro mais ao centro. E gracejavam estes dois que eu era o comunista de serviço. Mas era só porque faltava ali um camarada para me definir como um troca tintas do centro. Lá está, é como nos telemóveis, é preciso três antenas para nos posicionar exatamente.

Mas eu dei por mim a pensar que, mais divergência, menos divergência todos concordávamos no essencial: que a esquerda pode depois não ter razão em muitas soluções de matriz ideológica que ninguém quer mas que tem no diagnóstico: tal como está a dívida é pura e siplesmente impagável e que nos vamos eternizar como servos da glebe de uma agiotagem financeira; e que esta direita em concreto tudo o que implementou foi uma uma solução de confisco que adia tudo: o estouro das contas e a reforma necessária; e que mais tarde ou mais cedo vamos ter que dizer para dentro que a reforma é necessária e para fora que a dívida tem que ser negociada. Não fazer nada e permanecer nesta solução - fácil para uns e dolorosa para outros - de imposto é inútil: reformar só, renegociar só, tudo é inútil. Há que fazer tudo, por muito que nem os portugueses nem os credores gostem que lhes digam "não vai ser tudo como queres". 

Concordávamos numa outra coisa. 

Precisamos de outros que façam isto. Não é este governo de cobradores do fraque por endosso que o vai fazer. Certamente não são os nossos credores que o vão fazer. 

Precisamos de algo que não é de esquerda nem de direita porque pode ser isso tudo e nada disso.  De uma visão nacional. 
Este Governo não tem visão nacional, não tem competência e é muito óbvio que não tem honestidade. A alternativa de Oposição tem na minha opinião pessoal apenas o benefício da dúvida porque também pouco se explica de soluções que me dê grandes convicções.

Pelo meio fica um povo português de auto-estima esquizofrénica. Que rasga as vestes de indignação a cada choque fiscal e que sai à rua a maldizer o Governo e a Troika. Que crê que somos credores de toda a solidariedade e devedores de responsabilização nenhuma ou que faz a apologia dos maiores sacrifícios conquanto não sejam exercidos na primeira pessoa. Um povo que se divide a querer sair da Europa sem saber realmente como e de abanar a cauda como um cão sempre que a Europa e o mercado lhe façam uma festinha. E eu, nós, ali à volta do chouriço, a concluir que as relações não têm que ser nem de fratura nem de submissão. Mas isso pede que nos responsabilizemos. Cumpramos, exijamos, organizemos e sim, sacrifiquemos.

E a verdade é que conclusões assim são apenas a abertura de portas para muitas interrogações. E isso não me choca.

O que me choca é ver tanta gente com tantas certezas. De que este Governo é a solução. De que uma Esquerda fraturante é a solução. Porque afinal se três palermas divergentes à volta do chouriço conseguiam concordar em que tudo isto é um disparate que adia o caminho é porque isto não deve ser assim tão pouco óbvio.

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