terça-feira, 6 de outubro de 2015

A oportunidade de ouro ao Centro (esquerda)

Arranjem um líder edgy com a fralda para fora à Tsipras, barba por fazer como o Judas tinha, tacha na orelha como o Galamba. Que saiba erguer o punho à esquerda, malhar na direita e governar ao centro. 


Ser-se de esquerda - pelo menos em determinado bom sentido - evidencia coisas que me me agradam. Como solidariedade social. No entanto, a exultação dos chavões de esquerda sem um plano que lhes confira uma espinha dorsal económica sustentável é ou ingénuo ou hipócrita. A esquerda portuguesa tem pecado algures por aqui. Em determinado sentido. Num outro sentido apresentam-nos soluções de ruptura radical com o modelo vigente: nacionalizações, saída da UE, etc. E sem antever juízos críticos sobre probabilidade de exito da solução direi apenas que, mal ou bem, a massa crítica essencial do eleitorado não está disposto a esse risco. Não, nem uma boa parte dos que votam nos programas eleitorais que a preconizam.

É por isto tudo que, mesmo que possamos achar que isso é lamentável, o país não é governável à esquerda, realmente à esquerda. O entrosamento em determinadas lógicas político-económico-financeiras nacionais e internacionais não o permitem sem enormes riscos. Que quase ninguém quer correr.

Mas há uma oportunidade de ouro ao Centro. Prefiro nem falar de Centro Esquerda. Não tem que ser um monopólio da esquerda. Prefiro falar de um centro que assuma o que não é possível mesmo que muito se quisesse e que assuma o que é preciso fazer sem rodeios de populismo ou vã esperança. Mas que depois seja um centro brutalmente atento à medida do possível da solidariedade, do Estado Social, brutalmente atento à possibilidade de ser, sempre que possível, de esquerda, chamem-lhe assim se preferirem.

E essa é uma oportunidade porque esse centro pragmático com vocação social está algo deserto.

Chegar a ele nem me parece um monopólio da esquerda. Não o é em abstrato mas é-o neste cenário concreto em que este PSD e este CDS em concreto não têm ponta de vontade ou sensibilidade para essa vocação social.

Por outro lado a todas as esquerdas que se perfilam falta alguma coisa. À CDU e ao BE falta aceitarem que não é possível governar realmente à esquerda. Vêm de uma cultura de oposição competente à esquerda para mitigar o desvio demasiado à direita. Mas isso não chega nem serve no desafio de governar. Ao PS falta resolver a crise de entidade interna. A oscilação entre ser de centro e só isso e a medo de não ter uma proposta valor que o distinga do PSD e clivar-se demasiado à esquerda sabendo que, justamente, não é possível governar à esquerda.

Mas ao PS falta outra coisa. Falta uma renovação da marca. Em política isso é muito. O BE tem uma boa marca. O seu âmago pode ser o da UDP e da ortodoxia bem clivada à tal esquerda que quase ninguém que vote neles quer realmente. Mas tiveram sempre e conseguiram ter de novo agora lideranças carismáticas que fazem esquecer esse âmago e arrancam discursos de genica em que o centrão se reveja. Em determinado sentido o BE finge, e bem, que está ao centro. Só se percebe que assim não é quando se colide na evidência que não transije ao centro sequer para poder governar. O PS esse tem a vocação de governar ao centro. Mas precisa de uma marca que lhe atraia os votos que lhe fogem à esquerda. Precisa de despachar os senadores barrigudos ultrapassados e chamuscados. Mas o que é que já interessa a esclerose vaidosa de Soares, a galhardia inconsequente do Alegre, a pinta de boneca de porcelana demodé de Maria de Belém? Reformem-nos e tragam uma geração edgy que saiba governar a esse centro atento à esquerda. A coisa nem passa por gajos como o Perestrelo com ar aburguesado que prometem transformar-se em tempo recorde em caricaturas novas de um PS velho. Isso não distinguiria o visual PS dos visuais betinhos dos novos valores à direita. Perestrelo é demasiado igual a Nuno Melo. Arranjem um líder edgy com a fralda para fora à Tsipras, barba por fazer como o Judas tinha, tacha na orelha como o Galamba. Que saiba erguer o punho à esquerda, malhar na direita e governar ao centro. 

É que é isso ou rezar que a esquerda ganhe juízo e zarpe a esse centro à mão de semear, metendo lá a bandeira antes dos socialistas.

Enquanto nada disso suceder vou continuar a votar no PAN.





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