quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O fim da não discussão

Decidi parar de discutir política. Pelo menos aqui. Mesmo esta crónica já não é uma crónica sobre política. É uma crónica sobre discussão política, isso é outra coisa...

Há dias alguém me dizia que até no bar lá da empresa os ânimos se estavam a exaltar. O povão anda em ponto de açúcar e vive-se um daqueles momentos raros da cidadania em que a política exalta mais do que o Benfica. Isso por um lado é bom. Mas também é perigoso. O futebol é aquela coisa infinitamente pateta que pega fogo mas é insuscetível de queimar realmente a cidade. A política é um assunto muito sério e encerra em si o demónio de incendiar o país. No debate político chocam as visões sobre a vida real e transparece a famigerada luta de classes e de interesses. Ao contrário do Benfica que só devia bater-se em campo, em política a guerrilha bairro a bairro é a continuação da democracia por outros meios. E percebe-se porquê e por isso é que é perigoso.

Mas não é só porque é perigoso que não vale a pena falar mais de política. É porque não vale realmente a pena. Ninguém discute política para aprender coisa alguma. O Ricardo é que tem razão. É-se do Benfica e pronto! Mas isso lá é dissecável por racionalidade alguma? Mas lá é possível ficarmos com dúvidas de que o Benfica é sempre o maior?! Em política é o mesmo! Ninguém está na luta para levar uma bordoada e vir para casa todo contente "Eh Maria, o Xico Manel deu-me uma coça. Levei quinze a zero! E olha que se não me convenceu pelo menos deixou-me dúvidas! Foi mesmo bom!". Nada disso. A discussão política é guerrilha, é ardil, sofisma, esquiva, contra golpe. De construtivo tem pouco.

Mas a discussão política não é só inútil do ponto de vista de explicar o que quer que seja a quem quer que seja. Também é inútil do ponto de vista de aprender o que quer que seja. A maior parte dos contendores não tem a mínima ciência ou honestidade ou sensatez sobre os assuntos versados. Mas não é só ciência que não têm. O mais curioso é que dúvidas também não! E é assim nas conversas de café e é assim nos artigos de opinião até porque os artigos de opinião são escritos com a mira de doutrinar a malta nos cafés.

As opiniões estão realmente crispadas e cada lado da barricada sugere que o outro significa o caos. Eu acho que ambos os lados têm razão porque a mim de ambos os lados me aflige o maniqueísmo e e a insensatez. E sim, em muitos casos a verdadeira ignorância ou desonestidade ou ambas.

É por isso que não vale a pena gastar latim.

Não falo mais de política. Ou falo. Com o Nuno, por exemplo. Gosto quando ele me provoca com um sorriso. "Então meu caro, vamos lá analisar os últimos eventos?" E sai uma hora de debate. Já sabemos que não será unanimista. Mas terá pontes e a esquizofrenia salutar de ele gostar de malhar à direita e de eu ter o dedo leve a maldizer a esquerda. E de ambos termos algumas convicções e muitas dúvidas. E sim, os nossos facciosismos. Faz parte.

Ser do Benfica desde pequenino não é algo que se ultrapasse num piscar de olhos. 

Mas os homens razoáveis quando tem que ser chegam lá.

Sem comentários:

Enviar um comentário