Eu não me lembro da maior parte dos professores que tive. Como em tudo as memórias vão-se desvanecendo mesmo se algumas são recentes. Esquecemos. Lentamente esquecemos tudo. Mas houve um tempo especial que marcou. Tínhamos quinze, dezasseis anos. E éramos uns putos em nada especiais. Deve ter sido por isso que a vida não fez de nós ricos ou famosos. Mas aquele tempo foi especial, pelo menos para nós, pelo menos para mim. É por isso que me lembro. E mesmo se me esqueci de quase todos os professores que vieram depois e de outros tantos que vieram antes, a verdade é que daqueles nunca esqueci. Recordo-os amiúde, com um sorriso. Ainda consigo recordar com frescura alguns episódios. O Professor Cunha com a sua fleuma e humanidade e meio termo de vontade e desacerto em cativar um bando de putos vagamente palermas, a Professora Luísa que nos levava à certa no seu estilo cúmplice de gajita do nosso tamanho que era quase "tu cá tu lá". O Professor Alberto, genial, cego que nem um morcego e que nos abismava de parecer que via mais que nós. A Professora de Latim. O Professor Norberto, por quem ficámos a dever uns tantos pecadilhos de putos parvos na nossa conta pessoal com Deus. Sim, recordamos-los a todos com carinho. Mas se houvesse que eleger uma memória particularmente indelével desses dias eu creio que todos exclamariam o nome do Professor Rocheteau. Talvez não fosse o melhor professor de filosofia do mundo, não, não seria. Mas o que nos ensinou foi muito para além disso. Lembro-me de uma das suas primeiras aulas e da forma como definiu as regras do jogo "Eu trato-vos por senhores, vocês tratam-me por professor. Se conquistarmos o respeito e a amizade uns dos outros tratar-nos-emos todos pelo primeiro nome, por tu." - Começava uma viagem. Talvez com menos Kant e Platão do que o programa recomendaria, talvez. Mas uma viagem marcante, poética, estética, absurda, docemente absurda. De um homem que declamaria poesia nas aulas e se emocionaria com as suas próprias palavras. Enérgico, no seu desafio constante a que despertássemos para a melhor literatura, para o melhor cinema. Perguntaria entusiasta "E Kundera, alguém leu?" - Os putos riam, néscios e o Professor Rocheteau esboçaria um esgar enfadado "É um livro lindo. Mas vocês são um bando de imbecis que não se interessam por nada." A turma riria mais ainda. Mais Hegel, pouco mais. E depois um debate político e algures a meio o Pedro ia para a rua por disparatar. O Pedro ir para a rua era rotina mas ali ir para a rua era diferente. "Pedro, ponha-se na alheta antes que lhe atire com um apagador nos cornos!" - O Pedro ria e saía. Mas depois voltava. Ali as coisas eram diferentes e o desrespeito era uma espécie de pantomina cúmplice. Na verdade não existia.
Pôrra, passaram, 20 anos...
Há tempos juntámos-nos num jantar de memórias. Um Rocheteau grisalho, velho e mirrado do homenzarrão que era como eu o recordava, juntou-se a nós. Rimos, já sem os "senhores" e o "professor", que todos tinham passado no exame do respeito e da amizade. Como sempre o velho mestre ao centro a contar histórias que os alunos iam espicaçando deleitados. Eu ouvia e sorria para mim daquela vida tão diletante, tão profundamente trágica nos seu espalhafato agridoce de sensibilidade excêntrica e disparatada eternamente à deriva. A minha namorada, carta fora do baralho daquela noite nostálgica escutava boquiaberta em espanto: "Este velho louco foi vosso professor?" - Foi. Um professor e peras! Meio doido, claro, mas um professor e peras. Às tantas um tipo cruzou-se connosco. O Rocheteau cumprimentou-o e abriu os braços na nossa direção "São os meus alunos."
Hoje o velho Rocheteau faleceu. Recebi a notícia por uma colega desses dias. O tempo passa. Já lá vão vinte anos. Mas as coisas boas não apetece esquecer. Na minha memória ele vem lá sempre, no seu estilo jovial de hippie fora de prazo com um bando de putos a saltitar à sua volta.
Até sempre, velho mestre...
Bom texto este, boas memorias estas... Grande mestre!!!
ResponderEliminarÉ verdade, o Armando Rocheteau era um ser humano muito especial. Longe de perfeito, longe de vulgar
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