terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Haters - Uma forma rebuscada de desejar Feliz Natal a todos

O hater é aquele tipo que se manifesta contra tudo. Dedica metade da sua vida a vislumbrar o sentido da corrente para poder remar contra. Mas só dizer mal não chega. Há nuances. Um tipo que diz mal de tudo com um sorriso escarninho é apenas um cínico. Às vezes está mesmo contra, outras diz mal só pelo exercício de humor, outras num exercício de vaidade de mostrar que consegue dançar a valsa em contra-mão. Um cínico é apenas um pouco mais inteligente e muito mais vaidoso. Mas é preciso mais. Ou menos. Se é do contra e não consegue rir-se da ironia das diferenças e dos relativismos já não é cínico, é um enfadado. Um enfadado distingue-se de um cínico porque não sorri, tem um eterno ar de quem sofre de gases. Trocou o humor por uma visão deprimida e depressiva de que tudo no Mundo está mal e só ele está bem. Um hater é ainda mais do que isso. É um exaltado que sabe-se lá porquê quer que o Mundo expluda e que mais do que opor-se a tudo detesta tudo. São normalmente tipos pouco esclarecidos que exortam que se incendeie a floresta sem perceberem que no fundo só odeiam uma árvore. E no fundo nem é odiar. Não odeiam ninguém. É pavio curto, apenas isso. Quem é que vai odiar uma árvore? Até porque nem é uma árvore, é uma urtiga. Mas explicar isso a um hater? Os hater são irrascíveis e o que mais me perturba é que normalmente se confundem com os idealistas. Só ainda não percebi se são os idealistas que têm a tentação de ser haters ou vice versa.

Isto porque lia alguém que queria que a malta toda do OLX fosse toda queimada viva. E era porque um gajo qualquer estava a tentar vender por lá uma cadelita como se fosse carne. Tá bem...           ... mas eu adoro o OLX e não creio que mereça ser queimado vivo por lá ter vendido o ventilador. É que tinha dois, percebem? Não me queimem vivo, sou só uma arvorezinha!

E de repente dava por mim a perceber que sou um cínico. Um cínico detestável e trocista. Tirando quando tenho gases. Os gases dão-me um ar enfadado. Mas hater nunca!

Tudo isto para vos desejar Feliz Natal! A todos vocês! Às lorpas que dançam as coreografias da Quadra, aos cínicos e enfadados que criticam o consumismo e a hipocrisia e atcéteraletal, e até a vocês, haters revoltados mas no fundo os mais fofinhos de todos que apenas desejam, no fundo, no fundo...

Um abracinho repenicado!

Feliz Natal!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O dilema do confronto

Enquanto assistia à insurreição de quem batia com a mão na mesa dei por mim eu próprio a pensar nas virtudes e nos perigos de defendermos os nossos pontos de vista com ímpeto.

Há pessoas que dir-se-ia que engoliram o decálogo de todas as convicções e se pautam por pura e simplesmente nunca transigirem em nada. São tendencialmente pessoas de eterno dedo no ar e voz de megafone. Gostam de criticar tudo e dar ordens a todos. Às vezes porque são imbecis demais e crêem de facto na perfeição do seu ponto de vista. Outras vezes são simplesmente demasiado déspotas para ceder e impõem-se simplesmente porque querem e podem ou querem poder. Ter razão é-lhes na verdade irrelevante. Dirão que haverá os que realmente têm sempre razão. Mas eu não acredito nisso. Não acredito em déspotas 100% esclarecidos. E portanto dedico com frequência a esta tribo a minha prece esperançada de que o camião da vida lhes passe por cima.

No outro extremo estão os choninhas que nasceram - dir-se-ia - com défice de glóbulos brancos. Transigem a tudo, aceitam tudo. Há vários motivos que nos levam a comportarmos-nos como choninhas. Sermos de facto choninhas é o primeiro. A megalomania da pretensão a um estado Zen de ser como água que contorna os imbecis sem chocar com eles é outra boa explicação. E transigirmos porque realmente acabámos de perceber que não temos razão é outro bom motivo! Todavia raro...

O ideal é o equilíbrio de aprendermos a escolher a atitude certa para cada momento. Aprender a defender o que é nosso por direito e aprender a conceder no que é devido ou quando a querela é simplesmente gratuíta. Não é fácil todavia. Não é fácil termos a coragem de nos impormos a um oponente tão grande quão estúpido. Não é fácil fugir a uma argumentação desnecessária quando nos começa a fazer comichão cá dentro. Não é fácil resistir à tentação de ser déspota só porque podemos. E por isso eu já dei por mim ocasionalmente a sentir-me um choninhas, um zaragateiro, um tirano, ou simplesmente um justo mas um justo palerma a meter-se à frente de um comboio.

A ironia de tentarmos ser flexíveis, de escolhermos a atitude certa para cada ocasião é corrermos o risco de errar sempre.

E de repente eu concluía dessa outra ironia. 

De que há uma leveza e certeza na escolha de sermos sempre perfeitos calhaus a voar na mira da testa do outro ou ao invés não sermos nada, sermos o nada que se dobra a tudo.

Pelo menos às vezes acertaremos. 

Como um relógio parado que esteja certo duas vezes por dia.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os enviesados

No imediato rescaldo eleitoral a tendência dos comentadores era a de que a Coligação de Direita tinha a faca e o queijo na mão. A mim rapidamente me pareceu que este era um equívoco. Se os comentadores do costume gostassem de organizar jantaradas, como eu gosto, saberiam que o Rei da festa nunca é o tipo que leva nem o bom queijo nem a faca, nem sequer o cabrito. É o gajo que tem casa para dar a festa. É o tipo com veia de RP, o pivot que tenha mais amigos. Claramente que por aí Costa estava em vantagem embora não se pudesse dizer que já tivesse ganho as eleições. Este exercício eleitoral teve isso de curioso: não se concluiu com a contagem dos votos nas urnas; concluiu-se com a contagem de espingardas no Parlamento e solidificou-se na obstinação de Costa ao não vacilar perante os abanões desesperados da Presidência da República à solidez da estrutura gisada pelo Secretário Geral do PS. Costa podia ter perdido as eleições em qualquer um destes dois momentos. Podia e era até altamente provável. Afinal o PS sabia que não tinha a fatia de leão do tal queijo, nem a faca maior. A sua vitória dependia de dar uma jantarada mais concorrida e que os convivas não roessem a corda em cima da hora - quem dá jantares também sabe que isto é muito comum. Conseguiu-o. E por isso por muito que agora os cães ladrem a Caravana do Costa passará porque hoje ganhou as eleições. Ganhou-as simplesmente porque não as perdeu e a prova disso é será Primeiro Ministro. Tudo o mais são unguentos dos derrotados a lamber feridas. Vitórias morais de quem clama que tinha o queijo maior e o cabrito e a lampreia de ovos. É verdade. Mas não chega para formar Governo.

Essa é a minha primeira conclusão.

A segunda é que somos todos reféns de oppinion makers enviesados que nos querem enviesar a todos. Por aí não há inocentes, claro. No entanto a máquina de marketing político de esquerda tem tido a vida facilitada de ter razão na questão circunscrita da legitimidade para governar. Nesse ponto é como ter o plantel do Barcelona à disposição. Desde que não sejamos inábeis, não há como perder. E nesse ponto para a esquerda foi fácil porque pura e simplesmente tem razão nessa questão de legitimidade. Não precisaria de abrir a boca que não perderia a razão por isso. Mas mesmo do ponto de vista da substância da estratégia política ser de esquerda foi fácil até ao dia de hoje. É fácil explicar todos os pontos em que a política de direita falhou porque só não vê quem não quer. É fácil dizer que se sabe como se fazer mais e melhor até ao momento em que não tenha que se demonstrar. Até aqui foi tudo fácil para a esquerda porque se ficou pelas verdades óbvias e pelas alegações fáceis. A partir de hoje é que vai ser mais difícil. Acabou-se o fantasy football com o plantel do Barcelona, a partir daqui é a sério. E com o plantel do Águias da Musgueira: Portugal portanto.

Para a direita foi tudo mais complicado. Disfarçar tudo o que correu mal na legislatura e fugir a um esperado descalabro eleitoral. Esse era o primeiro desafio e foi ultrapassado com brilhantismo. O segundo foi disfarçar que ainda não tinha realmente ganho as eleições e tentar evitar que se perdessem de todo no fim das contas. O marketing político da PAF no fim perdeu. Mas a forma como se bateu é digna dos compêndios. Por pouco não ganhou. Francamente era o que eu esperava. Como é que isso é possível? Tony Blair dizia que o essencial é uma estratégia de "Repeat and remind". Um facto suficientemente repetido aceita-se, sobretudo se nos agrada. Um facto suficientemente ignorado esquece-se. A conclusão de coisas complexas é ao fim ao cabo um processo ele próprio complexo, subjetivo, faccioso. A verdade tem muito pouco a ver com nada e foi justamente assim que Coelho e Portas quase que se renovaram no Poder. Através de uma rede de comentadores a garantirem que o país estava a recuperar e que a Direita tinha ganho as eleições. Tecnicamente? Moralmente que fosse! Uma rede de comentadores a profetizar toda uma série de armagedões às mãos da esquerda. Que a esquerda jamais se entenderia. E que se entendesse seria imoral porque não devia mas que se se entendesse esse entendimento não resistiria às pré-negociações. E se resistisse a isso não resistiria aos primeiros meses da Legislatura. E se resistisse? Então será o país que não resiste e é a ruina e no fim da contas a esquerda equivale a isso mesmo: a ruína. Dê por onde der. É fatal que tudo corra mal. É fatal que os aliados esfaqueiem Costa no Senado. É fatal que esta guinada estratégica pulverize o PS. É fatal isto, aquilo, acoloutro, é tudo fatal!

Mas é mesmo?

Justamente. Não sei. Nem eu nem os marketeiros políticos de direita. Nem os de esquerda.

São cenários possíveis e que aliás me assustam.

Na verdade se assumirmos determinadas premissas como certas não é muito difícil tirar conclusões a partir destas. A opinião de direita tem partido desse princípio. Assume micro catástrofes a partir das quais se deduz facilmente a grande e transversal catástrofe de esquerda. Óbvio. Este governo fracassa, pulveriza o PS, devolve o PCP e o BE ao guetto e a Coligação volta coesa, reforçada e em braços para uma maioria absoluta gloriosa.

Diga-se de passagem que isto me parece uma franca possibilidade.

Mas o que falta sempre ao Oráculo de Direita é prever os cenários opostos.

E se a Coligação de esquerda se aguentar nem que seja só pela teimosia de não falhar?

E se o PS se for sustentando pelo menos não pior que o Governo cessante? E se os parceiros não tirarem o tapete?

Eu diria que rapidamente é no PSD e CDS que se dará o colapso. Que as oposições internas exigirão a cabeça dos líderes. É natural, os líderes sem poder para comprar amigos e assustar os rivais nunca duram muito. E por isso acusarão Passos de ter desvirtuado o PSD da sua matriz de Centro Direita, Portas de ter envergonhado a Democracia Cristã. Ambos serão acusados das más companhias um do outro. Cairão. Para que quaisquer novas lideranças levem o partido para o hiato da Oposição. Calha a todos.

Tudo isto é apenas uma mera possibilidade mas ainda assim uma possibilidade.

E então, porque é que nunca falam disso?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Mijas territoriais

É uma chatice antiga que me atormenta.

Deixei-me condicionar a mim mesmo de um modo pavloviano e assim que o meu inconsciente dá conta de que estou a chegar a casa começa a dança do mambo. Leia-se, o Rui a contorcer-se na distância psicologicamente lancinante que o separa da sua sanita. O GPS da minha bexiga desenvolveu pelos vistos uma precisão quase milimétrica e a coisa dá-se assim que entro na Rua de Arroios - ou onde quer que more, que a coisa é antiga e já passou por Almada, Corroios e Graça - de carro ou a pé. É súbito, é urgente e é inadiável. Sobretudo é localizada! Não sucede na empresa, não sucede na rua, não sucede onde quer que seja que me leve a minha agenda e nem sequer sucede nas residências pontuais de férias ou assim. Aí a minha bexiga, a sonsa, finge-se de uma paciência infinita. Dá, dá, não dá, não dá. Mas se entra na rua de Arroios exige. E eu ou correspondo ou um dia destes mijo-me pernas abaixo, é que mijo mesmo.

É toda uma coreografia.

Primeiro fazer os últimos metros de rua até à porta do prédio a disfarçar que me vou a contorcer todo. Com um andar que deve fazer lembrar uma bicha a tentar esmagar uma noz entre as nádegas enquanto caminha. Patética tentativa de dignidade. Pergunto-me se alguém me estará a observar. Tenho que fazer o caminho mais direito possível. Não há tempo a perder. Há dias armei-me em rebelde com a bexiga tirana. Há-de ser quando eu quiser! E por isso tinha que ir ao Multibanco e fui mesmo. Ia-a fazendo bonita e dei por mim a fazer passinhos jingões de dança à espera que a máquina se despachasse enquanto controlova os tipos do stand automóvel pelo canto do olho, a rezar para que não reparassem. Depois disparei a correr para casa.

Pequenos detalhes podem deitar tudo a perder. O elevador que ainda tenha que chamar do último piso, por exemplo. Ou que mais alguém queira entrar no elevador. Quero ir sozinho para poder ir desapertando o cinto, para estar na minha intimidade de dançar o twist enquanto repito para mim a mantra espiritual destes momentos "Guenta, guenta guenta!"

Se o elevador chega finalmente é a corrida desesperada. Não que sem a mais das vezes não subsistam alguns detalhes que querem que eu morra na praia e faça pelas pernas abaixo à porta de casa.


A Nádia. A sacana da ucraniana parece sincronizada com a bexiga e a mais das vezes sai-me ao caminho nestas horas de profunda aflição. A querer conversa, sorridente, no seu sotaque de leste. E eu a sorrir que sim e a tentar disfarçar o twist de anca. Há dias tive que lhe gritar. "Volto já, chamada muito urgente!" - e larga-se a correr. A cena seguinte são as chaves. Acertar com a fechadura e não deixar cair as chaves pode parecer uma tarefa simples mas nestes momentos não é.

Finalmente é a corrida desabrida final até à sanita. Se for preciso arrancam-se botões das calças e a cadela Yorkshire leva mesmo um pontapé se se mete aos saltinho a barrar o caminho. É a lei da sobrevivência. Não, é a lei da bexiga.

Mas hoje fiquei mais tranquilo. Decidi pesquisar sobre isto no Google. Acabrunhado confesso. Sentia-me uma ave rara.

Afinal não, Mundo fora há milhões de pessoas em guerra com a urgência da mijinha quando chegam a casa. Há animados fóruns online cheios de partilhas de experiências, confissões libertadoras, aprendizagens mútuas. Há quem tenha derrotado a bexiga e o sacana do Pavlov com técnicas de guerrilha psicológica. Mas estas coisas nunca são uma guerra definitivamente ganha. É um dia de cada vez.

E de repente senti-me mais leve, menos culpado, com vontade de dizer.

Olá a todos, eu sou o Rui. E sou um mijão territorial.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Esquema processual de um pedido de desculpas

Saio para a rua de manhã e tenho o carro bloqueado por alguém que estacionou em segunda fila. A Rua de Arroios ainda tem um cheirinho a Lisboa típica. Vamos reconhecendo as caras dos vizinhos e dos comerciantes do bairro, às tantas os nomes. Sempre achei estes tiques de vizinhança old school simpáticos e humanizantes. Mas não deixam de ter um lado negro. Na Rua de Arroios este arroja-se no laissez faire, laissez passer do pessoal ter demasiado à vontade de estacionar em segunda fila. Não é incomum chegar e ter o carro bloqueado. Desatando a apitar normalmente se não aparece logo o dono da viatura aparece alguém que o conhece. E irrita-me o ar simpático com que me dizem sempre "Ah, é fulano de não sei onde, vá lá chamar que ele está acolá." ...           ... respiro fundo. Eu tolero bem estas situações quando à primeira buzinadela sai um gajo da porta em frente a pedir desculpas. Já estar para ali a buzinar à espera que se dignem aparecer ou ter que os ir chamar ao restaurante da esquina faz-me perder a paciência.

Hoje lá estava eu a buzinar de novo. E com a precisão científica desta "Cosa nostra" em versão Arroios apareceu o latagão do stand da porta à frente. Simpático, pois claro. Conhecia a vizinha, pois claro. Era a senhora do quarto andar em frente, pois claro. Fosse lá tocar, pois claro! Mas não foi preciso lá vinha ela, esbaforida. E eu com os meus modos absolutamente educados e nada simpáticos lá lhe disse que achava estes comportamentos inadmissíveis.

Façamos um primeiro parêntese.

Eu tenho todo um ritual que não gosto que falhe nestas situações...

Já sabemos que se a pessoa aparecer logo é pacífico.

Ainda não sabemos mas um dia alguém descobre que, se demorarem mais do que 10 minutos, vou ali à esquadra mesmo ao lado chamar a polícia. Mas nunca me deram esse gostinho. Aparecem logo no tempo de tolerância.

Mas há todo um ritual que eu gosto de seguir quando a coisa demora mais tempo do que o aparecer logo e os tais dez minutos da polícia. Senhores vizinhos, comerciantes da zona e seus clientes, tomem nota:

Passo 1 - Eu manifesto-me algo razinza dentro da boa educação.

Passo 2 - A pessoa diz que eu tenho razão e pede desculpas.

Passo 3 - Eu replico ainda razinza que estas coisas não se fazem.

Passo 4 - A pessoa insiste que tenho toda razão e conta-me uma desculpa qualquer. Que foi tirar o pai à forca, que foi acossado por súbita caganeira, qualquer coisa. No fim remata com novo pedido de desculpas.

Passo 5 - Eu dou-me por comovido com a boa educação, humildade e veia criativa e cedo. Estou quase arrependido.

Happy ending...

Mas normalmente não é isso que acontece.

Mas isto pede novo parêntese.

Os portugueses confundem muito desculpas com desculpas. Têm aliás um talento imenso para as primeiras e absoluta ineptidão para as segundas. Confuso? Eu explico melhor.

Dar desculpas é uma coisa, pedir desculpas é outra. As desculpas pedem-se quando errámos. E as desculpas dão-se quando genuinamente algum motivo ocorre que não nos permitiu corresponder ao que em princípio seria devido. Para a malta de Direito é a diferença entre a exclusão da ilicitude e atenuação da culpa e da medida da pena. Mas a mais das vezes o povo dá desculpas, não pede. Dão-se desculpas esfarrapadas quando por medo ou arrogância não queremos assumir as nossas falhas. É neste último sentido que a malta quase toda é profissional.

Voltemos à vizinha do quarto andar.

Lá vinha ela a pedir desculpas. Por caso estes habituais da segunda fila normalmente o primeiro pedido de desculpas costumam apresentar. Uns mais envergonhados outros mais desinteressados só para nos calarem às vezes quase irritados de termos interrompido lá o que estivessem a fazer. Mas apresentam todos. Por isso é que tem pouco valor e eu continuo a protestar. Aqui já são muito raras as pessoas que correspondem. Há os que se enfadam "Já pedi desculpas, não já?", os que fogem para não nos ouvirem. Houve um atrasado mental em concreto que me abriu os braços e respondeu "Estava a almoçar, como é que queria que o ouvisse?""

A senhora de hoje também tinha desculpas. Para dar, pedir nem por isso. Que só tinha demorado 10 minutos e eu nem há cinco estava a apitar! Sacana da mulher! Tinha era que pedir desculpas! Fazer umas alegações bonitas! Que tinha sido um momento de irreflexão, que foi desespero, negligência inconsciente! Que era uma vítima da sociedade, que era primária, que várias testemunhas abonatórias tinham elogiado que era pessoas de bem, com crianças a cargo. No fim pedir justiça e uma redução da pena por confissão integral e sem reservas. Mas a gaja não, foi-se embora a resmungar que era bem feito que me sucedesse o mesmo a mim.

Tirei-lhe a matrícula. Para esta de futuro não se aplica a cláusula dos 10 minutos!

domingo, 15 de novembro de 2015

Personalidades fortes

Há dias um amigo diagnosticava o porquê de eu e uma outra pessoa não gostarmos um do outro nem como molho de tomate. "Têm ambos personalidade forte."

Eu fiquei a pensar nessas coisas das personalidades fortes. Porque assim de repente parecia-me que o catálogo é normalmente tido como elogioso. Se não, pelo menos, como  não pejorativo. Mas quanto mais pensava no assunto mais me parecia que personalidade forte é no fundo um eufemismo da nossa gentileza de não admitir que determinada pessoa é parva, pior, parva e convicta, exercendo essa sua falta de sensatez de uma forma espaçosa e obstinada dos Titanics que investem com tanta convicção para o iceberg que o mais provável é que este rache ao meio, abrindo-lhes gloriosa passagem.

Será isto uma qualidade?

Do ponto de vista funcional ao exercício do poder, sem dúvida!

O problema é que é uma qualidade apenas do ponto de vista instrumental e se pensarmos bem neutra do ponto de vista das que me parecem as mais louváveis qualidades humanas,

Mas o facto é que vivemos num mundo que idolatra as personalidade fortes. Deve ser por isso que raramente seguimos líderes que saibam o caminho. Desnorteamo-nos atrás dos que tenham mais jeitinho para bater forte com o punho na mesa, os mais casmurros, beligerantes, espalhafatosos. Estas qualidades só por ocasional coincidência convivem na mesma pessoa com o talento da sensatez, assertividade, em resumo, com o talento de ter razão. Mais, com o talento ainda mais sublime de perceber e saber recuar quando percebemos que não a temos: a razão.

"Opá..." - concluía eu ...       "Eu não quero ter personalidade forte!"






sábado, 14 de novembro de 2015

A impressão do espelho

"Atacaram Paris."

Estava num jantar de colegas. Uma daquelas pândegas à antiga com petiscos e garrafas de vinho a rodar na mesa. É uma improbabilidade de uma tasca típica destas jantaradas típicas mas não havia uma televisão ligada. E por isso foi uma surpresa quando alguém que chega diz 

"Atacaram Paris. Está o caos."

Dentro e pouco estamos todos a esgravatar os smart phones para saber mais. As notícias vão caindo, difusas, confusas. E estamos impressionados, estamos mesmo. 

Porquê?

Porque a bala nos assobia aos ouvidos. Assobia mesmo. Alguém pergunta ao Rafael se ainda tem lá família. Alguém comenta que um colega voou para lá ontem. Eu lembro-me da Céline que vive em Paris. Provavelmente todos temos algumas indagações. Mas não é só isso. É porque somos todos Paris, somos mesmo. Paris é demasiado perto. Os parisiences têm demasiado em comum connosco para nos podermos esquivar do semblante blazé habitual com que encaramos outras tragédias. Estamos a ser atacados. Condoermo-nos com a Palestina e a Síria pede demasiado trabalho de empatia. Se uma imagem forte não ajudar, nada sentimos. Paris sentimos. Não é preciso muito trabalho para imaginar que era Lisboa, que éramos nós.

Não pensem que esta é uma posta de pescada de um chico esperto armado em hater ou cínico de serviço, não é. Não se achincalha um luto e não se desvaloriza todos os perigos que um bafo do Diabo como este levanta, isso seria absolutamente imbecil. 

Mas aproveitemos o nosso luto para pensar em todos os fogos que ardem agora que também nós estamos sob fogo.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pequeno dicionário de desconstrução dos argumentos de direita da moda

Prefácio do Autor

O Autor não está por aí além entusiasmado com o o Governo de esquerda que aí vem. Duvida da coesão possível. No Partido socialista só lhe agrada o posicionamento ideológico teórico e nos restantes partidos de esquerda só lhe agrada a seriedade ideológica. Com a sorte do Autor, ainda vai ver-se abater sobre si o pior dos dois mundos: o disparate ideológico do PCP e BE e a os caldinhos do costume da falta de seriedade ideológica da máquina clientelista do PS. 

O Autor não está portanto a viver um fervor dogmático de esquerda. Teme que a coisa corra mal e tem todo o respeito pelo pessoal que preferisse um governo mais ao centro ou mesmo à direita.

O Autor pretende ser tão intelectualmente honesto que até respeita a opinião de quem diga que preferia "este" governo de direita em concreto que agora se balda aos trambolhões pelas escadas de São Bento abaixo. Desde que seja numa lógica de "do mal o menos", na volta vem-se a demonstrar verdade.

E portanto o Autor aceita tudo isto como discutível e a ser confirmado por aquilo que o futuro traga. Ou não!


O que já me enfada são os argumentos pop absolutamente falaciosos  que a liderança de opinião de direita semeia e o povão colhe.


Treta 1 - "Com o sacrifício do governo e dos portugueses estávamos a conseguir sair do buraco.

A parte de que os portugueses estavam a fazer sacrifícios essa é óbvia. Já a parte dos sacrifícios do Governo por acaso não entendo assim como não entendo a parte do que estávamos a sair do buraco. Não estávamos, permanecemos sempre em défice e a dívida cresceu. Tudo o que se alcançou - os ditos cofres cheios e os orgulhosos pagamentos antecipados de dívida foi baseado pura e simplesmente na brutal carga de impostos e nas receitas extraordinárias de venda de Estado. O problema não é tanto se havia a absoluta necessidade de fazer muito do que foi feito. Provavelmente, sim. O problema é só se ter feito isto e não a reforma do Estado prometida - com todos os efeitos colaterais na vida dos portugueses e na depressão económica. E o problema é saber que soluções restariam para a segunda legislatura. Carregar ainda mais impostos? Vender ainda mais Estado? Muito provavelmente sim. Até porque  como na primeira legislatura o problema mantém-se e o Estado permanece esmagado em dívida e sôfrego de recursos.


Treta 2 - "Conquistámos a confiança dos mercados"

Claro que sim! Aqui a treta não está propriamente na afirmação mas no contexto de fundo. Imaginem que vocês eram credores do Governo Português e que o Primeiro Ministro vos dizia! Somos honrados e não ficaremos a dever um tostão! Vamos mandar os nossos porquitos todos para o abate a com a venda da chicha vamos pagar tudo e como juros!" - Vocês não confiariam num devedor sério assim? Pois claro! O problema é que na realidade vocês não são os credores, são os porcos! Não, ou talvez não sejam os porcos e por isso é que achem tudo muito bom. Eu no fundo também não sou, pelo menos não muito. Mas muitos dos nossos compatriotas têm-no dolorosamente sido. No fundo o que quero dizer é que a Confiança dos Mercados é boa mas é perigoso que seja o único estandarte de uma vitoria de Pirro.


Treta 3 - "Ganhámos as eleições!"

Ganharam, é verdade. Tanto que Pedro Passos Coelho formou Governo. Mas não porque A Coligação PAF tenha tido mais votos. O Sistema Político português não é a bola. Não ganha quem marcar mais golos ou tiver o melhor jogador em campo ou alegar vitória moral ou estatística de jogos passados. Ganharam porque na complexidade desse sistema eleitoral reuniram em determinado momento as condições para formar Governo. E perderam quando no momento seguinte- hoje -  as condições se tornaram propícias à queda desse Governo. Dúvidas haja de que perderam sobra um argumento retumbante: o Governo caiu e que eu saiba não houve nenhum golpe de Estado. Há dúvidas?


Treta 4 - "O Povo português quis dar à Coligação mandato para governar!"

É verdade, quis. Como na última legislatura quis dar ao PSD e ao CDS Mandato para terem maioria absoluta se se entendessem. Só que, infelizmente, nesta legislatura também quis dar à Oposição a capacidade de derrubar o governo e governar desde que se entendessem. Assim como quis eleger um Presidente da República que agora coloque eventualmente o  Pedro Passos de Coelho na camisa-de-forças de um Governo de Gestão. O Povo tudo isto quis e quer! Ou isto é tudo treta e, claro, o povo sabe-se lá o que quis realmente. Mas são as regras que temos, às vezes dão jeito, outras não, é a vida..."


E pronto é assim, vamos lá ver o que se segue e continuar a exercer o salutar exercício da dialética no quase tudo digno de discussão. Mas, façam-me o favor, sem insistir nas tretas de 1 a 4. Agora que  já expliquei bem explicadinho seria burrice insistir!

sábado, 7 de novembro de 2015

Ordenado mínimo, a propósito de

O ordenado mínimo é um limite ético da valoração do trabalho e sobretudo da sustentabilidade económica de alguém que subsista do seu trabalho em dado cenário económico. É o que nos separa das possibilidades tenebrosas de uma economia livre em que a lei da oferta e da procura permita em determinadas condições às empresas obter o valor trabalho em troca de pouco mais que uma malga de arroz.

Até aqui tudo simples. A partir daqui na quantificação da justiça da coisa é que complica.


Eu devo confessar que temo os excessos da esquerda portuguesa. Não gosto de lhe chamar extrema, tenho-o dito. Simpatizo com a ideia de que demonstre que não o é. Desconfio que uma parte dos oppinion makers que a têm descrito assim são simplesmente herdeiros de preconceitos anacrónicos. A outra parte são os artíficies de uma outra agenda, também ela extremada de algum modo. Não lhe quero chamar extrema direita porque tampouco quero ser eu o preconceituoso anacrónico. Mas é uma direita que advoga na incontornável luta de classes um modelo excessivamente económico-liberal do vale quase tudo menos tirar olhos capitalista. Talvez seja isso, talvez tenhamos que reinterpretar o que é isto dos extremos. Deixar sarar as feridas do Estado Novo fascista e da intentona do PREC e percebermos que há novas formas de ser extremista, uma espécie de extremismos felizmente mais moderados mas que é deles que temos que nos acautelar. Não de comunistas a comer criancinhas ao pequeno almoço nem de novos Tarrafais de um despotismo à direita.

Quais são estes?

Um é o desta versão concreta deste PSD e deste CDS. Tomados de assalto por uma direita arrogante, medíocre, populista, desonesta, socialmente insensível e escrivã de interesses de mercados gulosos, dogmáticos de uma estratégia de competitividade económica assente em dumping social. A nossa direita não está neste momento ao centro embora não seja uma direita extrema nesse sentido anacrónico dos extremos. 

Temo no entanto que a esquerda que temos também permaneça extrema. Defender o valor do trabalho numa lógica de contraditório e balanço eu percebo.  Defender os méritos do setor público nessa mesma lógica eu também percebo. Preconizar uma governação que adore as nacionalizações e o fator trabalho como se fossem as únicas vacas sagradas de um equilíbrio económico, é que não. Preconizar a demolição de todos os méritos da iniciativa privada é que não.

O meu temor à esquerda é este.

Mas isto tudo porque ontem na entrevista da Ana Lourenço ao António Costa se falava dos ordenados mínimos.

Eu percebo duas coisas. 

Os trabalhadores têm que compreender que as massas salariais têm que se limitar ao que seja possível numa estrutura de viabilização e sustentabilidade das empresas. Têm que ser solidários. Numa leitura clarividente e sem anacronismos cada trabalhador deve entender-se a si mesmo como um empresário e fornecedor. Tem que entender a empresa como sua cliente e perceber a flexibilidade necessária a agradar ao cliente vendendo o produto do seu trabalho dentro dos constrangimentos conjunturais.

Certo...

Mas que também perceba a CIP que não se pode sustentar a viabilidade de uma empresa numa política transversal e abusiva de esmagamento de salários. De pagamento ad eternum de salários mínimos independentemente do valor acrescentado das competências exercídas. Através de esquemas fraudulentos e ilegais de falsos recibos verdes que se vergam muito aquém do limite do ordenado mínimo e da não remuneração por uma quota parte substancial do trabalho efetivamente prestado, trabalho extra não remunerado, etc. Uma empresa viável nestes termos não é uma empresa viável, é um cancro de dumping social que se sustenta de forma fraudulenta em prejuízo de uma economia equilibrada. Basicamente é uma empresa que baseia os seus lucros na premissa de não cumprir realmente as suas obrigações para com os fornecedores. Tem que ser reestruturada. Tem que pagar o valor real das suas matérias primas. Tem que pagar o valor real do seu trabalho. E se assim sendo não for viável tem que falir.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O fim da piada dos vox populi

Já não me consigo rir.

As crispações trazem sempre o pior à tona. Há sempre uns quantos que são bichos perigosos à espera de uma oportunidade que a acalmia não dá. E depois há os muitos que perdem as estribeiras e se esquecem das pessoas que são em fundamentalismos que nem sabem bem porque raio perfilham.

Andei por aí a ler os debates em rede do por estes dias em que todos se crêem politizados e especialistas em demasiada coisa. É sempre mais do mesmo, o gatilho leve no insulto, com muita sorte o argumento assertivo de arremesso mas a completa incapacidade de meditar na assertividade do contra-golpe. Sobretudo muita agressividade a extremar-se em faíscas de ódio. Os outros são gentalha e esquerdalha e fascizóides e porcos e isto e aquilo. Os outros estão sempre errados e os outros são sempre corruptos e malandros e parasitas. Os nossos são todos uns gajos porreiros. Porque os outros é que são todos uns filhos da mãe. Nós é que sabemos tudo e pelos vistos não conhecemos os outros de lado nenhum. Os outros não são nossa família e amigos e colegas de trabalho. Os outros de certeza que não são o tipo cordial lá do serviço que nos ajuda sempre quando precisamos. Porque esse tipo, das duas uma, ou é dos nossos ou agora não é momento para pensar nisso. Filhos da puta, são todos uns filhos da puta.

Será que já pensaram na quota de razão dos argumentos dos outros? Na linha de raciocínio, na perceção subjetiva - não é o mesmo que errada- que o levou até ali. Já experimentaram meter-se na pele e no espírito do outro? Já pensaram que o outro é aquele com o qual temos muito em comum e que agora só nos separam convicções vagas sobre assuntos em que não temos, nenhum de nós, arcaboiço para conclusões definitivas?

Vou apostar que não...

A falta de inteligência costumava divertir-me. Por estes dias entristece-me. Pior, assusta-me.

domingo, 25 de outubro de 2015

O Governo do chouriço

Não, não é o de Pedro Passos Coelho. Bom podia ser. Mas para o caso não é. Pedro Passos Coelho é um chouriço no sentido figurativo de triste figura e eu estou a falar em chouriço a sério. Enchido do bom.  Éramos nós os três de volta dos petiscos à mesa. Um à direita, outro mais ao centro. E gracejavam estes dois que eu era o comunista de serviço. Mas era só porque faltava ali um camarada para me definir como um troca tintas do centro. Lá está, é como nos telemóveis, é preciso três antenas para nos posicionar exatamente.

Mas eu dei por mim a pensar que, mais divergência, menos divergência todos concordávamos no essencial: que a esquerda pode depois não ter razão em muitas soluções de matriz ideológica que ninguém quer mas que tem no diagnóstico: tal como está a dívida é pura e siplesmente impagável e que nos vamos eternizar como servos da glebe de uma agiotagem financeira; e que esta direita em concreto tudo o que implementou foi uma uma solução de confisco que adia tudo: o estouro das contas e a reforma necessária; e que mais tarde ou mais cedo vamos ter que dizer para dentro que a reforma é necessária e para fora que a dívida tem que ser negociada. Não fazer nada e permanecer nesta solução - fácil para uns e dolorosa para outros - de imposto é inútil: reformar só, renegociar só, tudo é inútil. Há que fazer tudo, por muito que nem os portugueses nem os credores gostem que lhes digam "não vai ser tudo como queres". 

Concordávamos numa outra coisa. 

Precisamos de outros que façam isto. Não é este governo de cobradores do fraque por endosso que o vai fazer. Certamente não são os nossos credores que o vão fazer. 

Precisamos de algo que não é de esquerda nem de direita porque pode ser isso tudo e nada disso.  De uma visão nacional. 
Este Governo não tem visão nacional, não tem competência e é muito óbvio que não tem honestidade. A alternativa de Oposição tem na minha opinião pessoal apenas o benefício da dúvida porque também pouco se explica de soluções que me dê grandes convicções.

Pelo meio fica um povo português de auto-estima esquizofrénica. Que rasga as vestes de indignação a cada choque fiscal e que sai à rua a maldizer o Governo e a Troika. Que crê que somos credores de toda a solidariedade e devedores de responsabilização nenhuma ou que faz a apologia dos maiores sacrifícios conquanto não sejam exercidos na primeira pessoa. Um povo que se divide a querer sair da Europa sem saber realmente como e de abanar a cauda como um cão sempre que a Europa e o mercado lhe façam uma festinha. E eu, nós, ali à volta do chouriço, a concluir que as relações não têm que ser nem de fratura nem de submissão. Mas isso pede que nos responsabilizemos. Cumpramos, exijamos, organizemos e sim, sacrifiquemos.

E a verdade é que conclusões assim são apenas a abertura de portas para muitas interrogações. E isso não me choca.

O que me choca é ver tanta gente com tantas certezas. De que este Governo é a solução. De que uma Esquerda fraturante é a solução. Porque afinal se três palermas divergentes à volta do chouriço conseguiam concordar em que tudo isto é um disparate que adia o caminho é porque isto não deve ser assim tão pouco óbvio.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Reflexão à esquerda

A esquerda esteve quase lá. Está quase lá, não se sabe bem. Há ainda uma terceira hipótese: que este cenário venha evidenciar que a esquerda, tal como se posiciona nunca vai passar disto. Do quase lá, em cenários raros como este: uma direita debilitada pelo desgaste de uma legislatura à bruta e um centro inepto que desague nesta conjuntura improvável em que teve os votos todos que potencialmente poderia ter e mais alguns absolutamente excecionais.

Mas pode estar sobre a mesa a evidência de que esta esquerda, assim, não tem como ir mais além.

Assim que se percebeu o peso inusitado da bancada esquerda, a Direita e até um certo Centro conjuraram o demónio de todos os preconceitos e fantasmas antigos que rodeiem a esquerda dita extrema, comunista, leninista, maoista, trotskista, etc, etc, etc.

Há muito de fanatismo e jogo sujo em todo este discurso exacerbado de Direita, a inspirar medo às hostes, claro que sim.

Mas também há medida de justiça já que PCP e BE não renegam o comunismo de todo, desde logo nas suas marcas partidária e em vários sentidos nos seus conteúdos programáticos. Se nos deitarmos a ler os seus programas eleitorais percebemos várias coisas: não há ali uma agenda nem de comer criancinhas ou de relançar o PREC como se sensacionaliza. E no entanto em várias questões a matriz ideológica comunista permanece lá como o dedo leve na nacionalização de - cá para o meu gosto - demasiado. Fala-se muito em direitos dos trabalhadores e eu gosto disso mas continua-se a olhar com um soslaio bacoco para o capital que fomente empregos e disso já não gosto tanto. Depois vem a Europa da qual se quer sair e renegociar a dívida sem explicar muito bem se somos viáveis sem esse Big Brother. Bom mas aí é justo, a Direita também não explica que a dívida é impagável e que a única solução que lhe ocorre é ir empatando a questão com cargas fiscais que não vão solucionar eternamente. Para treta, treta e meia!

Para lá daquilo em que a esquerda comunista e bloquista (eufemismo de mais comunistas) se demonstra melhor do que a pintam, exatamente como a pintam e igual na demagogia aos que a pintam sobra uma questão:

O que é que essa esquerda pode ser para corresponder realmente aos ensejos da sua base eleitoral? A sua base eleitoral possível para lá do fumo de votos de protesto e votos que lhes são dados não pelo seu programa como um todo mas ao invés, justamente, apesar de uma boa parte do seu programa?

Haverá realmente muitos comunistas para votarem convictamente em partidos comunistas?

Francamente creio que não.

Num país de cultura política pouco esclarecida creio que a esquerda, essa esquerda que navega de meio do PS para a esquerda confunde uma série de coisas com comunismos ou, por outra via, com a visão clara que não quer ser realmente comunista, confere o seu apoio aos comunistas por uma série de virtudes que se associam à esquerda portuguesa: a ausência de uma mácula totalitária como a que sujou a Direita do Estado Novo; a resistência a esse mesmo Estado Novo; a beligerância competente de Oposição e de Trabalho Autárquico, o contraditório de salvaguarda dos direitos dos trabalhadores e a conotação com uma série de valores mais tolerantes sempre que se esgrimiram as questões mais fraturantes de ética social.

Esta cultura demarcou, faça-se justiça, a esquerda do dito arco centro-direita da governação que por necessidade, oportunidade e simples estupidez genética nos cansou após o 25 de Abril em sucessivas legislaturas com tiques de corrupção, insensibilidade social, clientelismo e preconceito.

Mas eu creio, creio francamente, que esta massa de esquerda feita de todas estas motivações é muito mais vasta que o reduto de convicção comunista. E pergunto-me quantos comunistas haverá realmente nas esquerdas supostamente comunistas? Quantos quererão realmente sair da Europa à papo-seco ou recolocar de novo todas as cartas num gigantesco setor público, ou atacar como gato a bofe a livre iniciativa e a propriedade privada?

A questão é relevante porque em dias como estes, quase a chegar à praia do poder, esta esquerda talvez tenha que concluir que sem se reformar vai sempre morrer na praia. E nem é por marosca da Direita.É por lerem mal o sentido dos votos que tenham.

Diria que para PCP e BE a coerência pode estar na persistência em serem como são e isso é legítimo.

Mas o apoio popular esse está em ocupar o vazio da social democracia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma Curta História da Ciência Política portuguesa em formato Looney Toons

Já posso falar de novo de política. Cavaco Silva  desfez o embróglio e a Direita já não está a konpensans. Está a esquerda. Pouco me importa. Eu cá não dou confianças a maiorias negativas.

Por estes dias a Ciência Política portuguesa ficou marcada. Primeiro pelo facto de que a quase totalidade da tal Direita histérica demonstrou ou não perceber de Ciência política ou pelo menos não lhe estar a dar jeito as regras atuais. E como os portugueses são desenrascados, a Direita portuguesa também é e inventou regras novas. Nada de novo. Eu lembrei-me das aulas de Direito Constitucional do Fernando Seara que nos dizia que isolado como única peça de esquerda nos Orgãos de Soberania, em pleno Cavaquismo, Mário Soares fez oposição feroz como podia e inventou o Veto de Bolso. Desta vez Cavaco Silva meteu a esquerda no bolso. É quase o mesmo.

Por acaso o mesmo Fernando Seara também gostava de achincalhar os alunos nas orais com perguntas maldosas. 

"Então diga-me lá o Senhor, o Primeiro Ministro é eleito ou nomeado?"

O Pedro Tiago, melhor solista de Tuna do que estudante de Direito pisava sempre estas minas. Desconfio que Passos Coelho lhe seguiria o exemplo.

"Tão, é eleito Sodotôr! É, não, foi! Fui! É o que estou farto de lhes dizer! Eu é que ganhei!"

Depois lembrei-me da Teresa Coelho que era a assistente do Seara quando fiz a cadeira. Estava-a a ver ontem no Virgin sem som a debater com a Mortágua. Não sabia o que estavam a dizer mas também pouco importava. Eu estava a pensar que se fosse para posar para a Playboy, antes a Mortágua. A Coelho já então não era grande espingarda. E todavia tinha umas pernas jeitosas! Do que um gajo se lembra! A Coelho também andaria a dizer que o Primeiro Ministro é eleito?

Outro aspeto em que se fez História nos últimos dias foi termos percebido o imenso poder do Presidente da República no momento de nomear o Governo. A verdade é que, desculpe-me a Esquerda, a nomeação de um Governo PAF foi absolutamente legítima, como teria sido legítima a nomeação de António Costa. Como teria sido legítimo dar o Executivo ao PAN. Tenho dúvidas que não houvesse suporte Constitucional para a minha nomeação. Ou a da Cadela Martini. E, sim, estou a falar a sério. A norma é tão aberta como isso.

Discussão diferente é saber-se se Cavaco Silva decidiu bem.

Eu não vou discutir quem é que é melhor para o país, nem quem ofereça maiores garantias de estabilidade governativa. 

A primeira questão é demasiado complexa e subjetiva.

A segunda é demasiado simples. Ninguém oferece realmente grande estabilidade mas o Governo de Esquerda oferece muito mais que o do PAF já que este vai cair a não ser que o Largo do Rato entre em modo "Revolta na Bounty".

Mas há uma questão muito mais interessante que é a famigerada especulação sobre a intenção de voto dos portugueses. E ultrapassada a decisão de Cavaco Silva - ficará na sua consciência se tentou interpretar a vontade dos portugueses ou simplesmente seguiu a sua (vontade) vamos a um novo round de interpretação das vontades dos portugueses que deverá orientar todos os partidos - e que é o sentido de voto nessa agenda breve que fará - ou não - cair o governo.

A verdade é que não será um exercício fácil pelo simples facto de que os portugueses votam em partidos, deputados, caras. Votam a favor, votam contra, votam para concentrar o voto útil e para distribuir ovos por cestos. Votam para ganhar e votam para perder. Votam porque acreditam no programa e votam porque não acreditam.

Sendo assim creio que hoje e no que quer que se passe a seguir se cumprirá em qualquer caso o desígnio expresso pelo voto, pelo menos de alguns, que tenham votado em absolutamente todos os partidos.

E é por isso que subsistindo essa réstia de verdade estamos ainda assim perante sobretudo especulações para boi dormir.

O que recomendo?

Para a próxima que cada um vote no partido que realmente gostasse de ver a governar em vez de votar num exercício de adivinhação do que vá fazer o restante eleitorado.

Poupava-se muita retórica fiada consequente...




domingo, 18 de outubro de 2015

Prova cronometrada de "smart escova de dentes"

Cá em casa aderimos às smart escovas de dentes. Sobretudo porque nos sentíamos inferiorizados nos fins de semana  passados com o Ricardo Azevedo​ e a Ana Soares​ que, geeks da saúde oral, apareciam sempre com verdadeiras I-Escovas, enquanto que eu levava uma escova ramélica das mais baratas já com os fiozinhos todos estraçalhados pela minha cremalheira.

Nos primeiros dias achei aquilo porreirinho.

Até que descobrimos que a escova tinha timer e apitaria quando a limpeza estivesse concluída. Pensei que a minha devia ter o cronómetro estragado porque nunca tinha apitado. Só que depois fui ler as instruções. E lá dizia que apitaria ao fim de 2 minutos, o tempo de escovagem recomendado pela OMS. "Que diabo!" Nunca tinha apitado... Eu nunca demoraria os dois minutos a lavar os dentes? Impossível, é claro que sim embora jamais, claro, tivesse cronometrado.

Preocupado levei o assunto ao meu superior hierárquico, a Eva portanto.

A Eva também nunca tinha ouvido o apito. E como ambos juraríamos que a nossa lavagem de dentes era exímia e dentro dos critérios da OMS as escovas só podiam estar avariadas.

Mas estava na altura de recorrer ao método científico.

Escovas prontas a entrar em ação e cronómetro.

Ready, set, go!


Depois de um arranque fulgurante às tantas começa-se a instalar o cansaço nos atletas. A Eva observa numa dicção confusa de escova na boca que de certeza que já tinham passado dois minutos. Eu dou indicação para a pista que na verdade ainda nem um se tinha passado. 

Mas a partir daqui estava-se tudo a complicar...

Uma Eva enfadada dizia que era melhor vermos uma série para ajudar a passar o tempo. Mas havia  problemas mais graves do que enfado. A centrifugação diabólica daquelas maquinetas do diabo estava a começar a fazer claras em castelo de espuma na boca. A Eva já se estava a babar para o chão, eu a caminho disso. Ainda por cima compenetrado num esforço para não abrir a boca. Cada vez que me distraía o remoínho do inferno projetava-me mil gotículas de espuma na camisa. E aínda só íamos no minuto e meio. Em boa verdade vos digo que os 30 segundos finais foram de grande sacrifício a bem da ciência. Mas valeu a pena. Aquela porra apita mesmo aos dois minutos. Fica por saber como é que os outros dois aguentam os dois minutos.

Cá em casa está decidido, vamos voltar às escovas analógicas e usamos esta geringonça como batedeira.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O fim da não discussão

Decidi parar de discutir política. Pelo menos aqui. Mesmo esta crónica já não é uma crónica sobre política. É uma crónica sobre discussão política, isso é outra coisa...

Há dias alguém me dizia que até no bar lá da empresa os ânimos se estavam a exaltar. O povão anda em ponto de açúcar e vive-se um daqueles momentos raros da cidadania em que a política exalta mais do que o Benfica. Isso por um lado é bom. Mas também é perigoso. O futebol é aquela coisa infinitamente pateta que pega fogo mas é insuscetível de queimar realmente a cidade. A política é um assunto muito sério e encerra em si o demónio de incendiar o país. No debate político chocam as visões sobre a vida real e transparece a famigerada luta de classes e de interesses. Ao contrário do Benfica que só devia bater-se em campo, em política a guerrilha bairro a bairro é a continuação da democracia por outros meios. E percebe-se porquê e por isso é que é perigoso.

Mas não é só porque é perigoso que não vale a pena falar mais de política. É porque não vale realmente a pena. Ninguém discute política para aprender coisa alguma. O Ricardo é que tem razão. É-se do Benfica e pronto! Mas isso lá é dissecável por racionalidade alguma? Mas lá é possível ficarmos com dúvidas de que o Benfica é sempre o maior?! Em política é o mesmo! Ninguém está na luta para levar uma bordoada e vir para casa todo contente "Eh Maria, o Xico Manel deu-me uma coça. Levei quinze a zero! E olha que se não me convenceu pelo menos deixou-me dúvidas! Foi mesmo bom!". Nada disso. A discussão política é guerrilha, é ardil, sofisma, esquiva, contra golpe. De construtivo tem pouco.

Mas a discussão política não é só inútil do ponto de vista de explicar o que quer que seja a quem quer que seja. Também é inútil do ponto de vista de aprender o que quer que seja. A maior parte dos contendores não tem a mínima ciência ou honestidade ou sensatez sobre os assuntos versados. Mas não é só ciência que não têm. O mais curioso é que dúvidas também não! E é assim nas conversas de café e é assim nos artigos de opinião até porque os artigos de opinião são escritos com a mira de doutrinar a malta nos cafés.

As opiniões estão realmente crispadas e cada lado da barricada sugere que o outro significa o caos. Eu acho que ambos os lados têm razão porque a mim de ambos os lados me aflige o maniqueísmo e e a insensatez. E sim, em muitos casos a verdadeira ignorância ou desonestidade ou ambas.

É por isso que não vale a pena gastar latim.

Não falo mais de política. Ou falo. Com o Nuno, por exemplo. Gosto quando ele me provoca com um sorriso. "Então meu caro, vamos lá analisar os últimos eventos?" E sai uma hora de debate. Já sabemos que não será unanimista. Mas terá pontes e a esquizofrenia salutar de ele gostar de malhar à direita e de eu ter o dedo leve a maldizer a esquerda. E de ambos termos algumas convicções e muitas dúvidas. E sim, os nossos facciosismos. Faz parte.

Ser do Benfica desde pequenino não é algo que se ultrapasse num piscar de olhos. 

Mas os homens razoáveis quando tem que ser chegam lá.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Azevedo, o estiloso (not!)

Não sou o gajo com mais estilo lá do Health Club, essa é que é essa. Também não sou o pior, atrás de mim vem uma legião de gordinhos, alguns franzinos e toda a comunidade geriátrica. Ok, metade da comunidade geriátrica, a outra metade está mais malhada do que eu. As mulheres, essas ganham-me todas, velhinhas babadas com o seu PT incluídas.

Mas ainda assim, repito, não sou o gajo com mais estilo do Health Club. Longe disso. 

Tenho uns bons quilos a perder. E mesmo assim, mesmo que os perca, depois creio que nunca terei o espírito guerreiro para malhar e esculpir-me como os animais que por lá param. 

Mas o problema vai muito para além da compleição física...

O cabelo. Não tenho o cabelo certo. O meu cabeleireiro disse-me da última vez que gosto de cortes executivos. Perguntei o que isso era e ele explicou que era assim uma coisa compostinha que não chocasse, equilibrado em cima, de lado, atrás. Um penteado careta, portanto, concluí eu. Não levo hipótese, aquilo está cheio de carecas com barba à taliban, gajos com mohicanos amarelos, tipos com barbas desenhadas dir-se-ia pelo próprio Miguel Ângelo, gajos de bigode enrolado nas pontas em estilo monárquico. Cada qual muito mais afirmativo que eu.

As tatuagens. As tatuagens são uma grande lacuna. Eu não tenho uma só tatuagem. Boa parte dos gajos que lá andam o que não têm é mais corpo para tatuar. O mesmo Miguel Ângelo que desenha bigodes deve desenhar também os tatoos com desconto para sócios da Virgin, só pode! São complexos entrelaçados de tatuagens. Às vezes lá no balneário ponho-me a tentar perceber o todo no corpo de alguns "sócios". Perceber o entrelaçado de números romanos, letras árabes, Jesuses Cristos, imagens de familiares, tribais, tentar antever a big picture daquilo tudo. Se eventualmente esconde o mapa do ginásio, ou assim. Em vão...

Depilação! Outra grande lacuna. Eu depilo-me quando me depilo que é quando vem o Verão e quando a Eva me aborrece. Ali todo o povo de Deus não tem um pelo! Ok, tirando aquele tipo que parece o Pinhal de Leiria e eu que só estou depilado num rectângulo de pele do peito: há dias passei por lá a máquina só para testar se ainda funcionava. Funcionava! E Eu prometi a mim mesmo que um dia destes compunha a obra de arte...         ... mas dizia...


... a verdade é que toda esta combinação de músculo, hairdoos, tatoos e depilação embora me remeta para todo um imaginário porno star, a verdade é que me derrota.

Mas há mais!

O perfume. Eu às vezes não sinto o meu próprio perfume. Mas sinto o destes gajos à distância.

Os trapinhos...           ... este pessoal treina com roupa slim fit desenhada pela NASA. Eu treino com um Polo de algodão manhoso e uma calças que são metade de cada cor porque me esqueci delas na corda.

Mas nada disto é novo. E se falo disto é em guisa de introdução à cereja em cima do bolo da minha falta de estilo que me ocorreu hoje.

Depois de uma série de abdominais fui beber água. Quando voltei reparei na minha própria toalha.

Abre parêntises

Quem teve a dádiva de um enxoval sabe que os enxovais incluem sempre peças muito feias oferecidas por uma tia saloia ou assim. Também sabe que a cavalo dado não se olha o dente e que as peças mais feias também marcham na economia doméstica quando não há visitas, sejam jogos de lençóis, atoalhados ou aquele prato de sopa com a última ceia estampada no fundo.

Posto isto, dizia eu, voltei para o pé da minha toalha e reparei na plenitude da sua nobreza, cuidadosamente estendida sobre a esteira de abdominais. Era uma peça de fino turco e de um rosa suave debruado por uma faixa de cetim que lhe conferia uma certa patine. Bordado no canto oposto tinha uma galinhola gentil que repousava o colo sobre um emaranhado de rosas parecido com alguns que tenho visto em tatoos nas costas hercúleas dos "sócios"

Se naquele momento alguém me perguntasse com naturalidade se a toalha era minha juro que teria dito que não.

Bati no fundo...

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A minha tentação de direita, servil

Os comentadores de direita, oficiais engajés e de vão de escada- tipo eu, de vão de escada, entenda-se, não de direita - andam numa campanha acirrada, assombrados pela hipótese da frente de esquerda do Tó Costa. Esgrimem-se uma série de argumentos. Alguns são facciosos, até ignorantes. Outros têm a legitimidade das coisas discutíveis desta vida e outros ainda poderão mesmo ser muito assertivos.

Há um que infelizmente muito me impressiona e é evidente e lamentavelmente na mouche: a simples possibilidade de um governo dessa potencial frente de esquerda já prejudicou os juros da dívida portuguesa nos mercados.

O facto é esse. Podemos depois discutir se a dívida é pagável. Podemos discutir se o mercado é ético. E podemos discutir se o caminho do governo de Centro Direita não é o caminho de cortar todas as árvores para comprarmos balões de oxigénio e no fim morrermos na mesma sufocados pela dívida, sem ar e sem nada com que comprar mais adiamentos a que nos afundemos de vez. Repito, tudo isto é discutível e admito opiniões em ambos os sentidos.

Mas se tudo isto é discutível creio que não o seja que dependemos absolutamente dos nossos credores, pelo menos no curto prazo e pelo menos a não ser que queiramos encetar processos de revolução social de consequências imprevisíveis e perigosas. Igualmente não é discutível que esse tal score dos mercados traduzido em juros e ratings - perversos que sejam - tem sobre nós o jugo de nos afundar ainda mais do que já estamos. E também não é discutível de que um governo de direita neoliberal tem à partida muito melhores condições de, só pelo cheiro, inspirar melhores indicativos para Portugal nos mercados.

E é por aqui que eu singro a minha tentação de direita, pelo menos desta direita. É uma tentação servil, note-se. É uma tentação que cheira ao medo da revolta do murro em ponta de faca. É a tentação de aceitar que as coisas são como são e não remar contra o curso da corrente que os nossos financiadores impõem. As coisas são como são.

E eu dou por mim a sentir estas coisas e a identificar-me com uma série de receios de pessoas de bem e de direita. E estou certo de que de algumas pessoas de esquerda e de centro que se identifiquem com estes mesmos receios. De que mais do que percentagens sobre pensões e ordenados levem o emprego e o pão da mesa. 

Eu percebo.

Mas há coisas de que eu não gosto. Não gosto que a figura amorfa e imprecetível do "mercado" tenha o poder de ditar. Aceite esse poder hoje estão-nos a limitar os excessos de quem gasta o que não tem, amanhã estão-nos a escravizar. Só porque sim, só porque perceberam que podem. Que podem de novo como já puderam. Não gosto de que seja sim só por medo. Não gosto de não perceber os limites desse medo. E não gosto de euforias bacocas. Palminhas sempre que o mercado nos afague a cabeça, paternal, só porque demos mais uma volta atrás do próprio rabo e despimos mais uma peça de roupa. Percebo que tenha que ser feito. Percebo que tenha que ser assim. Na volta tem mesmo. Não percebo é que nos orgulhemos dessa capitulação.

Numa visão alucinada vejo o mercado a pedir que sacrifiquemos um em cada dez para fazer as vezes do Cabrito na mesa de Páscoa do mercado. E vejo o repto de que é patriótico que assim seja, desde que não nos calhe a nós.

E percebo, até percebo. Só não percebo que haja orgulho nisso. E não gosto. Mesmo nada...

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Gone, peúgo, gone - Azevedo, o Caçador de Mitos volta a atacar

O amor ideal e a alma gémea são mitos, ou pelo menos assim passou a ser nas minhas meias. Há limites de decoro, claro. Nunca vou trabalhar com uma meia de futebol azulão até ao joelho e outra sedosa verde em padrão inglês de meia canela. No tudo mais que não seja tão radical há muita mestiçagem entre os meus peúgos. E portanto deixámos de fazer luto pelas perdas. Who cares?!!! A vida continua e no dia seguinte a viúva chorosa vai logo para a gaveta com um peúgo que também esteja solitário. Não há luto porque raramente há sequer noção de perda!


Logo a seguir à cena da Maddie - o mistério não é o que sucedeu à pobre criança mas onde é que os pais a refundiram - e ao triângulo das Bermudas, o mistério das meias que dizem ao par que vão comprar tabaco e desaparecem é uma das cenas mais intrigantes da urbe.

Eu por acaso e pessoalmente resolvi o enigma primeiro não o resolvendo realmente mas parando de pensar nele. Sucedeu um dia que estava ainda nos Sinistros e uma colega diz muito despachada "Ai mas vocês perdem tempo a ver os jogos de meias?!! Ai eu tudo o que seja parecido vai a eito!" - Senti-me envergonhado e ao mesmo tempo iluminado e mudei de vida.

O amor ideal e a alma gémea são mitos, ou pelo menos assim passou a ser nas minhas meias. Há limites de decoro, claro. Nunca vou trabalhar com uma meia de futebol azulão até ao joelho e outra sedosa verde em padrão inglês de meia canela. No tudo mais que não seja tão radical há muita mestiçagem entre os meus peúgos. E portanto deixámos de fazer luto pelas perdas. Who cares?!!! A vida continua e no dia seguinte a viúva chorosa vai logo para a gaveta com um peúgo que também esteja solitário. Não há luto porque raramente há sequer noção de perda!

Mas como este blog é serviço público e antevejo muita gente ralada com o que é que sucede às meias perdidas decidi apresentar a explicação final e dogmática do que sucede no mundo maravilhoso dos peúgos e do que é simples e abjeto mito.

A saber:

1 - As meias são muitas vezes sugadas pela máquina de lavar. Mito! Estupidez! É completamente falso!

2 - As meias são levadas por fadas para o país das meias. Teoria que permanece por demonstrar mas que não quero recusar liminarmente.


Eis o que realmente sucede às peúgas:

1 - Teoria do geocaching

As 27 meias que nos faltam estão espalhadas por aí. Há uma debaixo do toucador, outra está caída no porta bagagens, há três em casa da ex-namorada. Uma o negão que costuma equipar ao nosso lado no health club meteu no saco sem querer e agora anda ele próprio intrigado sobre onde para a outra meia. Um dia todas as meias terão GPS e passaremos tardes de Domingo hiper divertidas à procura das mesmas pela cidade.


2 - Teoria Memento

A minha unhaca do dedão cresce afiada e esfaqueia-me as meias todas. Quando o buraco é tão grande que o dedão já lá cabe todo ou quando sei que vou comprar sapatos e ter que me descalçar ou assim, deito a meia fora para não passar vergonha. Mas mando sempre e só a meia assassinada e depois esqueço-me disso e dias mais tarde indago-me onde é que ela andará. Tatuar reminders no corpo pode portanto ser uma solução.

3 - Teoria do Peúgo Cornudo

É aquela meia que nunca casa porque o par está no fundo da gaveta engalfunhado com uma meia turca tesuda, daquelas das raquetes

4- Teoria dos universos paralelos

Duas meias gémeas separadas tragicamente por ciclos de lavagem diferentes. Nunca estão ao mesmo tempo lavadas. Se pensarem bem nisso faz todo o sentido!

5 - Teoria da Eva (formulada há pouco e que deu mote a esta crónica e que também faz todo o sentido)

Grita-me a Eva há pouco do quarto no ardor da sua epopeia de casar meias...


"Já sei porque é que me faltam meias, sacana! Tu misturas com as tuas!"

Bingo!

:o)

domingo, 11 de outubro de 2015

A Fábula do Copo Menstrual e da Raposa

No fundo o que eu quero dizer é que infelizmente o copo menstrual não é o nosso problema mais premente. Poucos de nós estamos prontos para abdicar dos nossos pensos higiénicos, só os muito sensatos. Nenhum de nós tem infelizmente condições para abdicar do emprego na fábrica dos pensos higiénicos, nem os mais sensatos.
Mas o problema está lá e, lentamente, os pensos higiénicos crescem do outro lado do muro.


As reações ao programa eleitoral do PAN e a esta cereja no topo do bolo do copo mentrual variarão entre o sorriso irónico e a ira que eu já vi plasmada do "Copos menstruais?!!! Os meus impostos pagam isto??!!!  Vão todos levar no cu, os gajos do PAN e os que os elegeram!"

A verdade é que temos todos problemas mais complicados que o copo menstrual.

Ou não?

Era uma vez uma aldeia global cuja bandeira era um Penso Higiénico. Os aldeões e as aldeãs eram todos felizes. Todos usavam pensos higiénicos. Na verdade todos trabalhavam na fábrica dos pensos higiénicos. Todos os dias se produziam e consumiam milhões de pensos higiénicos. Todos os dias saíam novos modelos mais sofisticados de penso higiénico e todos os dias os aldeões rejubilavam a deitavam fora o penso higiénico do dia anterior para experimentar a nova maravilha da Corporação do Penso Higiénico para que todos trabalhavam. Não que precisassem de mudar de penso higiénico. Nesta aldeia maravilhosa há muito que se inventara o penso higiénico muitas e muitas vezes reutilizável. E no entanto ninguém usava o mesmo penso higiénico duas vezes. Compravam o modelo de penso higiénico seguinte e iam atirar o penso higiénico antigo por cima do muro que separava a aldeia feliz do resto-do-mundo-desconhecido.

Um dia bateram-lhes à porta. Era uma raposa que trazia um penso higiénico na cabeça. A aldeia veio ver em peso ver o que estaria o logo do Mozilla a fazer ali com um penso higiénico na cabeça, ainda por cima um modelo tão demodé. Ora a raposinha vinha reclamar que o resto-do-mundo-desconhecido estava atulhado numa lixeira de pensos higiénicos dos aldeões felizes e queria saber para que eles tinham necessidade de trocar de penso higiénico todos os dias. Afinal a raposinha e o resto dos animais e das pessoas que viviam como animais no resto-do-mundo-desconhecido rapidamente tinham percebido que cada penso higiénico durava bué. E, então, porquê?

Os aldeões felizes entreolharam-se e poucos sabiam realmente porquê. Olha, porque sim. Porque os pensos higiénicos davam sentido à vida, alegria, frescura! Nos seus modelos sempre renovados com novas designs, cores e aplicações! Porque é que usavam todos os dias um pensinho novo, em vez de estimar e fazer render? Ou, olhem, porque é que não usavam um copo menstrual? Os aldeões felizes não sabiam ao certo porquê...

No entanto o CEO da Corporação do Penso Higiénico e o Rei da Aldeia sabiam porquê...

Era absolutamente necessário que houvesse pensos higiénicos. Muitos, renovados, reinventados, todos os dias!

Primeiro porque aqueles eram os aldeões felizes. E a sua ilusão de felicidade - poucas felicidades são realmente mais que ilusão - eram um artifício baseado em duas coisas: fabulosos pensos higiénicos e não saber de nada que se passasse para lá do muro.

Mas havia mais problemas. Se não se fabricassem mais pensos higiénicos a Corporação dos Pensos Higiénicos faliria. O CEO do Penso Higiénico ficaria pobre e todos os aldeões sem emprego e sem dinheiro. Não só para comprar pensos higiénicos mas também para comprar batatas e coisas assim. A aldeia feliz seria em meses a aldeia do caos.

Sabiam disso. Sabiam da pescadinha de rabo na boca que sustentava o eco-sistema da aldeia. E infelizmente não faziam ideia de como resolver o problema.

Não, não se podia parar de fabricar pensos higiénicos. E não, havia definitivamente que evitar que se espreitasse por cima do muro. Quando a altura de pensos higiénicos acumulados transbordasse para o lado de cá logo se pensaria nisso. Talvez um muro mais alto!

No fundo o que eu quero dizer é que infelizmente o copo menstrual não é o nosso problema mais premente. Poucos de nós estamos prontos para abdicar dos nossos pensos higiénicos, só os muito sensatos. Nenhum de nós tem infelizmente condições para abdicar do emprego na fábrica dos pensos higiénicos, nem os mais sensatos.

Mas o problema está lá e, lentamente, os pensos higiénicos crescem do outro lado do muro.

No mínimo dos mínimos é pertinente que alguns "loucos" comecem a recordar-nos do assunto mesmo se o tema essencial da conversa ainda não é esse...

... mas um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos ter que repensar os modelos atuais ou desaparecer com eles.

E por isso, não, não é estúpido falar-se de copos mentruais no Parlamento.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O Cavalo de Tróia da análise política

A arma mais insidiosa da publicidade é provavelmente a notícia jornalística por encomenda. E a arma mais insidiosa do marketing político é a análise política engajada. Assim se resolve o problema do descrédito das litigâncias em causa própria vendendo-se como análise isenta mera propaganda. Pensei nisto ao ler uma série de opiniões sobre a salganhada pós eleitoral e quem deva o PR nomear. A questão não é quem tem razão. A questão é que tentemos partir da conclusão para a fundamentação e não no sentido inverso.


Gosto de ler opinião política. Ajuda-me a formar os meus próprios pontos de vista.

O problema é que tenho cada vez mais a convicção de embuste.

Eu não me importo com as clivagens subjetivas ou ideológicas. E sobretudo não me importo com estas quando são honestas e evidentes. É bom ouvir vários pontos de vista que nos permitam situarmos-nos na constelação das possibilidades.

Tenho muito mais azedume quando ocorre que me estejam a vender banha da cobra sob o engodo de análise objetiva "quase científica". Porque podem suceder duas coisas. Ou eu tomo consciência disso e oscilo entre a irritação e o sorriso cínico, ou não tomo e às tantas dou por mim a ser levado no conto do vigário e a formar opiniões mal estruturadas. Não estou zangado porque sou agora uma besta contentinha a pensar que aprendeu algo. Mas devia estar zangado. E muito.

A arma mais insidiosa da publicidade é provavelmente notícia jornalística por encomenda. E a arma mais insidiosa do marketing político é a análise política engajada. Assim se resolve o problema do descrédito vendendo-se como análise isenta mera propaganda. Pensei nisto ao ler uma série de opiniões sobre a salganhada pós eleitoral e quem deva o PR nomear. A questão não é quem tem razão. A questão é que tentemos partir da conclusão para a fundamentação e não no sentido inverso.

Às tantas diz um cronista do DN

"Diz a Constituição que o Presidente da República convida o líder do partido mais votado a formar governo e é isso que deve acontecer."

Só que a Constituição o que diz é

CAPÍTULO II 
Formação e responsabilidade 
Artigo 187.º (Formação) 1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais. 



O que não é a mesma coisa.

O que eu quero dizer com isto é que há espaço interpretativo para o cenário parlamentar à luz da Constituição e qualquer hipótese de Governo que se concretize não será desprovida nem de legitimidade técnica nem política.

E eu não me importo que num plano meramente subjetivo todos palrem que "Ou nós ou o caos."

Mas era importante que nos conformássemos de que são apenas opiniões e não dogmas que devamos impor com artifícios de temor reverencial a pretensos "factos".


A Preta do Extintor e o Quintanilha

Os preconceitos, o racismo, a homofobia, etc, etc, etc, são realidades lamentáveis. Mas as expressões histéricas de susceptibilidades desproporcionadas ou de todo injustificadas são um mau serviço às causas das minorias. Até porque as pessoas decentes suportam os direitos da Comunidade Gay mas ninguém tem pachôrra para bichas histéricas.


Estávamos em 1995. Eu era caloiro de Direito na Lusíada. Deixem-me que vos diga duas coisas acerca do ensino privado, pelo menos na Lusíada, pelo menos em Direito, pelo menos naquele tempo - e estou a semi-divagar em relação ao tema principal ou a pintar um contexto, não sei bem: aquela Universidade tinha uma proposta de ensino séria e exigente. A coisa dava-se em funil, em triagem de muitos chumbos e processos de amadurecimento. Quando eu cheguei ao terceiro ano estava numa turma de tipos razoavelmente competentes. Quando terminei o curso a safra era de média para cima. Mas isso pouca importa. Porque interessa é que estávamos no primeiro ano e houvesse dinheiro para pagar a propina e se se conseguisse falsificar um certificado de habilitações de décimo segundo ano para um porco...             ... ele era aceite na Lusíada. A triagem começaria rapidamente nas frequências de primeiro semestre e nas primeiras negativas arrasadoras a convidar à fuga para uma Instituição "à Relvas". Mas até lá, valia tudo e os caloiros de Direito eram um enorme de bando a incluir muito do mais calão, néscio, ignorante ou simplesmente burro que o ensino secundário em Portugal na área de Humanísticas tivesse regorgitado.

Entre estes militava a Preta que ainda não tinha um extintor.

A Preta para começar nem era Preta. Pelo menos não me parecia, eu achava-lhe ar de Timorense. Mas na volta era mesmo preta porque o mito urbano a dava como uma dessas filhas burras das elites angolanas emergentes que andavam a passear livros em Portugal. A Preta, de idade indefinida mas por certo mais velha que o resto da caloirada era da minha turma. E apesar de militar numa turma de quase duzentas almas em que eu adivinhava dezenas de burros a competir pela coroa aquela era provavelmente a mais burra de todas. Era um autêntico calhau que só dizia disparates, somava fracassos atrás de fracassos em exame mas clamava a cada reprovação que a prejudicavam porque era preta.

A situação atingiu o apogeu, pelo menos do que eu sei da história, quando em Frequências de segundo semestre a Preta foi a oral com um Assistente de que não retenho o nome. Era um daqueles jovens professores meio pedantes que gostavam de triturar alunos na oral. Só que naquele dia a oral era a da Preta e vir-se-ia a demonstrar um erro crasso humilhá-la. A Preta tinha calo de ser chumbada. Que remédio...          ... mas humilhar é uma coisa diferente e estava por testar se era seguro. Provou-se nesse dia que não era. Quando o Assistente Pedante começou a troçar da evidente ignorância da examinanda saíu-lhe o tiro pela culatra. A Preta gritou-lhe na cara:

"Só fazes isso porque eu sou preta!"

Vai daí vai buscar um extintor e corre atrás dele para lhe ensinar a sua versão pessoal do direito à indignação numa versão "pelos cornos abaixo"

E foi um regalo ver o Assistente aflito a correr porta fora com a Preta que agora já era a Preta do extintor no seu encalço.

Mas o que é importante para a moral desta história é que a Preta era de facto muito burra e mesmo se essa burrice e a troça do Assistente eram lamentáveis a coisa nada teve a ver com racismo.

Os preconceitos, o racismo, a homofobia, etc, etc, etc, são realidades lamentáveis. Mas as expressões histéricas de susceptibilidades desproporcionadas ou de todo injustificadas são um mau serviço às causas das minorias. Até porque as pessoas decentes suportam os direitos da Comunidade Gay mas ninguém tem pachôrra para bichas histéricas.

Que é como quem diz, como dizia a Marisa, "Deslarguem lá o José Rodrigues dos Santos"

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Musas e lápis azul

Um amigo publicou um livro há dias. Uma dessas publicações de Vanity Writing Publishing. E cá veio parar um exemplar do romance a casa e a Eva começou a ler. E às tantas comenta-me que a mulher do meu amigo devia ter ficado furiosa ao ler sobre tantas mulheres. E eu respondi que podia ser tudo ficção. E a Eva respondeu que "ah o tanas". E eu perguntei se portanto isso significava que ai de mim que desatasse a ficcionar romances de amor com personagens femininos que não ela. E ela confirmou que era isso mesmo...



Encontro a minha maior inspiração para escrever nos outros. Não sou dado aos extremos nem da fantasia nem da filosofia que não tenham âncora suficiente na realidade dos outros. Sem os outros aborreço-me eu e mingua-me textura à prosa. É por isso que escrevo sobretudo sobre momentos e pessoas, a pretexto de conversas que tive ou roubei. Se ando demasiado só dou por mim calado. Ao ponto de associar alguns dos meus picos criativos a coisas tão aparentemente irrelevantes como que naquele mês encostei o carro e andei de transportes públicos. Ao ponto de por estes dias dar por mim a pensar que devia apanhar um autocarro para lado nenhum só para ouvir e inspirar-me. Sim, a sério. Não tenho imaginação suficiente para partir do nada, essa é que é essa. Há dias uma colega perguntava-me se era tudo verdade o que escrevia. Parecia-lhe fruta a mais para não ser mentira. Mas até é tudo verdade. Mentira haja nas minhas crónicas a única mentira é o rebuscado adornado do meu ponto de vista. A única mentira sou eu.

Mas as minhas musas são um problema crescente que dá com uma mão e tira com a outra. 

Conforme fui amadurecendo fui inventando este meu estilo de janela indiscreta sobre os outros. E durante muito tempo foi fácil e impune. Fui-me viciando a escrever crónicas sempre sobre pessoas para o pequeno público de meia dúzia de amigos. E a impunidade era a de que me podia esticar à vontade que os objetos da minha crítica a mais das vezes não o saberiam. E se de quando em vez escrevia sobre esses amigos fazia-o a risco moderado perante essa tropa fandanga que me perdoava a indiscrição solta aos sete ventos em terra de quase ninguém de um blog intimista. 

Era o crime perfeito.

Só que depois sucederam setecentos e setenta e seis peripécias notáveis que embora à partida possam parecer coisa leve em muito vieram condicionar as minhas crónicas, a minha inspiração e a minha liberdade.

Primeiro apareceu o Facebook.

Depois adicionei setecentos e setenta e quatro amigos no Facebook.

Por fim casei.

Comecemos pela relevância dos setecentos e setenta e quatro amigos e o Facebook.

Se por um lado potenciaram a possibilidade grata ao ego de que nos leiam e elogiem. Há sempre alguém que o faz e comenta e bota o gosto e nós rejubilamos...

... por outro lado potenciaram a possibilidade de levar um carolo de alguém de cada vez que dou largas ao estilo sarcástico. Porque, lá está, eu falo sempre de pessoas e nem sempre bem.

Não tive logo a consciência mas acabei por perceber depois de uma série de momentos bons e maus que tinha o meu amado público a respirar-me junto à orelha para o bem e para o mal. E de repente era possível que recebesse uma mensagem ou me cruzasse com alguém no elevador da empresa ou a passear a cadela em Arroios. E que os meus devaneios viessem à baila. Para me dizer que escrevo coisas giríssimas...              ... ou para sugerir que metesse a viola no saco antes que tivessem que me afinar as cordas...              ... felizmente que no cara a cara os momentos foram gratos e tudo de azedo veio sempre sobre a forma de mensagem. Mas uma coisa era certa, era o início do fim da Impunidade Criativa. 

O Mundo estava a mudar!

Depois casei. E para perceberem como casar é relevante contar-vos-ei uma história.

Um amigo publicou um livro há dias. Uma dessas publicações dos Vanity Writing Publishers. E cá veio parar um exemplar do romance a casa e a Eva começou a ler. E às tantas comenta-me que a mulher do meu amigo devia ter ficado furiosa ao ler sobre tantas mulheres. E eu respondi que podia ser tudo ficção. E a Eva respondeu que "ah o tanas". E eu perguntei se portanto isso significava que ai de mim que desatasse a ficcionar romances de amor com personagens femininos que não ela. E ela confirmou que era isso mesmo...

...

E portanto o casamento é o fim absoluto da liberdade de expressão cronística.

Um tipo já estava condicionado de malhar ou ser simplesmente indiscreto sobre a vida dos setecentos e setenta e quatro amigos do Facebook. Com a mulher fia ainda mais fino. Não podemos falar da nossa mulher, muito menos para dizer mal dela. Mas ai de nós se a ignoramos porque num sentido que só aparentemente é contraditório com o primeiro devíamos falar apenas e exclusivamente dela. Bem, claro! Odes de amor por amor à pele!

E eu estava a imaginar a vida sofrida que um Saramago deve ter tido na vida doméstica com a sua Pilar.

"Blimunda? Blimunda?!!! Eu dou-te a Blimunda! Quem é essa porca? Sobre mim não escreves tu!"