domingo, 23 de dezembro de 2012

Frescuras

A reportagem da rádio falava de uma balbúrdia que a reforma autárquica motivava. Em Oliveira do Hospital arrasta-se de tempos imemoriais uma disputa entre as Freguesias de Alguidares-de-Baixo e Alguidares-de-Cima. A reportagem não explicava porque e eu duvido que sequer os contendentes o saibam mas os povos dos dois lugarejos têm azedume recíproco que é perene ainda se moldável às modas do tempo a passar. Quer isto dizer que no séc XVIII havia de rodar o varapau se acaso se cruzavam e que hoje em dia  os adeptos de uns vêm corridos à pedrada se o clube da terra joga fora na casa do outro. Em todo o caso o resultado é comum: cabeças partidas...

E o problema agora é que com a reforma do mapa autárquico as freguesias rivais, que até se gabam de outros tempos em que ambas já foram Concelho, permanecem freguesia e para que o ocaso dessas memórias nobres se ensombre ainda mais passam a ser só uma. E agora? Bom, todos continuam a dizer que se odeiam mas agora parece que se odeiam um bocadinho menos porque passam a ter uma coisa em comum: odeiam ambos o governo que lhes faz esta maldade de os obrigar a viverem mais juntos. Presidentes-da-Junta, trolhas e campeões de bilhar de ambos os lados da trincheira concordam que é maldade! "Não temos nada contra o bom povo de Alguidares de Baixo que não tem culpa nenhuma nesta decisão escandalosa. Estamos solidários com eles e se não gostamos uns dos outros e nos entendemos assim quem são esses senhores de Lisboa para vir cá mexer nisso?"

E eu fico a pensa, claro...

Não é que eu goste muito do Governo...            ... mas estes palermas fazem-me lembrar outra história palerma.

Corria o ano da Graça do Senhor de dois mil e troca o passo. O Estado andava a construir estádios para o Euro 2004 e algumh herege aventou da possibilidade de Benfica e Sporting partilharem um só estádio municipal a bem das contas públicas. Sacrilégio! "Alguma vez?"; "Isso é mesmo não se conhecer os sentimentos das pessoas!" - Ah e tal, rebéu-beu, pardais ao ninho! Os rivais da segunda circular concordavam que discordavam da heresia...

Construíram-se dois estádios. O resto é História. O futebol português vive numa fantasia eternamente endividada, o Estado português faliu, mais dia menos dia, diz que, pelo menos um dos estádios da prodigalidade implodiu e a paciência de quem tem dois dedos de testae não é pelo Benfica nem pelo Sporting, nem de Alguidares de Cima nem de Baixo...             ... vai acabando...            ... mesmo se isso não nos serve de muito porque continuamos a pagar os Estádios e tudo e tudo e tudo.

E isto tudo para dizer a Alguidares (de Baixo e de cima é passado) que se entendam. Ou então paguem a briga do próprio bolso.

Vai faltando a pachorra para frescuras de tesos.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Alegoria da gata

A graçola da gata Marta que se fez rápido minha favorita é que gosta de jogar às escondidas. Eu explico. Desde pequenina, podia estar na sua languidez de gata persa e soberba mas havia um sinal que a despertava para a traquinice: que a espreitasse com olhar predador por um ângulo de olhares cruzados quase impossível, corpo escondido, como quem diz: "Desafio-te!" - A Marta percebia e empinava as orelhas, os olhos cresciam em negro e saltava logo para uma posição estratégica de caçadora. A presa era eu. E era como se dissesse "Desafio aceite. Vou-te ensinar como é!" - E começava o jogo. Nunca ninguém inventou ou explicou realmente ao outro as regras mas ambos as sabíamos. A ideia era enganar o outro. E aparecer de onde menos esperasse e dar-lhe um safanão. Valia um ponto. Depois cada um foge novamente para o seu canto e começa tudo de novo. A Marta ganhava quase sempre mas roubei-lhe com orgulho imenso vitórias raras.

A Marta agora tem quase dez anos. Com o tempo esqueci-me destes jogos com ela em que gatinhava e rastejava escondido entre os móveis. Calculei que ela já não brincasse. Ou esqueci-me que brincava e que eu brincava e que ambos nos divertíamos imenso. Ontem lembrei-me. Estava triste e cansado e algo em mim mo lembrou. A Marta preguiçava em cima da cama e eu pensei "Deixa cá ver..." - escondi-me e olhei-a furtivo. Eh caraças, a gata passou-se. Assim como quem diz "Estamos de volta!" - A gata Mya junta-se à festa e é a risota. Os gatos não sabem rir, bem sei. Mas aposto só não se riram por isso mesmo.

E eu fiquei ali a afagar a pança dos bichos e a pensar na ironia das coisas. Às vezes temos algumas das coisas de que mais gostamos. Estiveram sempre lá, à mão de semear todo o santo dia. Nós é que nos esquecemos um bocadinho disso na rotina das coisas áridas que nos insinuam amnésias que nos desarmem ainda mais. Mas lembremos-nos, porra, lembremos-nos com força para ver se nos esquecemos menos e sobretudo para ver se não nos esquecemos de vez. O melhor está tantas vezes já connosco. Panças de gato e sorrisos francos que nos convidam para dentro da nossa própria vida e tanta, tanta coisa que já me estou a esquecer de novo.

Ao início pensei que fosse só uma piada da gata que nem fosse escrever sobre ela. Depois vi-lhe qualquer coisa de metáfora. Mas foi preciso chegar a estas últimas palavras para perceber que era algo que nem pensava escrever-vos este ano. Uma mensagem que termina sempre pouco mais ou menos da mesma forma.

Feliz Natal.




segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cânticos

Eu quando olhei para eles não pude deixar de me rir da ironia das coisas. Mas não, para que percebam tenho que recuar, tenho mesmo. E nem é muito. Meia dúzia de horas.

Eu vinha de casa do Zé e do Joe. Uma pequena tribo de amigos juntara-se no apartamento deles na Graça para festejar o Natal dos amigos. E a verdade é que ali se respirava uma certa perfeição, daquelas que encontramos em anúncios de whisky e sitcoms. Sabem? Aquelas aguarelas de grupos de amigos cheios de personagens engraçados em que longe de cada pincelada ser perfeita, longe disso que nem isso tinha graça, o quadro, como um todo, é de uma harmonia formidável, assim qualquer coisa como o Zé não desdenharia pintar. E eu lembrava-me de um episódio especial de Natal do Glee em que, lá está, o grupo de amigos giros se reúne para a Consoada em versão de comédia musical. E lembrava mesmo! O Zé ia trazendo as fornadas de bolinhos de chocolate do forno e uns quantos procuravam com uma patetice saudável a receita da Caipirinha ideal da Bimby. Mas a maior parte estavam à volta do piano. O Joe oferecia o seu concerto muito privado e muito especial de Natal aos amigos e o resto do coro esforçava-se.

E era assim.

E agora que já vos pintei a aguarela de postal de Natal, avançamos de novo. O Rui regressa a casa. É quase meia noite de uma noite fria e deserta de quase Inverno. Passo o Miradouro e vou a chegar ao Quartel dos Bombeiros. A uns bons metros já ouço o coro das vozes. É uma chinfrineira nasalada que ecoa. Se tivesse que traduzir a coisa numa onomatopeia dir-vos-ia que era um "aiaiaiaiaiaiaiaaiaiaia" repenicado. E se quiser explicar melhor direi que soava vagamente como o refrão dolente da balada melosa "I should have known better do Jim Diamond, ou talvez com um cântico flamenco mas sem se parecer realmente com nenhum ou tampouco soar bem. E se quiserem que vos explique melhor ainda...       ... não consigo!

E eu lá segui com o olhar a pista do que ouvia e lá estavam eles. Dois artistas maltrapilhos, sentados nas escadas do quartel, de garrafa de pinga a mielas. À distância não consigo perceber exatamente se são sem-abrigo, mitras ou simples "mal vestidos". Nem percebo se aquilo é muita alegria ou tem muito de piela. Não sei. Mas estão encantadíssimos com os harmónicos do coro fandango. Gole na garrafa e recomeça o chinfrim.

Eu passo ao largo com um sorriso. Lembro-me da festa dos amigos e das bolachas do Zé e da voz swingada do Joe. Lembro-me, comparo-as a olho, sorrio.

Há muitas vidas, muitas Lisboas. Que diabo, até há muitas Graças!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

GPS

Sabemos realmente o que queremos, o que procuramos? À queima roupa muitos dirão que sim. Mas se começarmos a esgravatar em nós próprios? 

Temo bem que apenas a incompleição do objetivo e a gana de lá chegar disfarce, adie, sei lá, a constatação de que não era assim tão importante. Deve ser por isso que quando às vezes comungo daquele devaneio pornográfico do "e se me saísse o Euromilhões" me assusto. Depois disso é preciso ter sonhos a sério para não perigarmos na constatação de que afinal não tínhamos nenhum.E nesta forma de estar nem tudo se perde, deixem que vos diga. Descobrir que afinal não estamos nada dececionados com as nossas deceções é de uma redenção surpreendente. Às tantas damos por nós a pensar que vamos a jogo pelas lições e pelas sensações. Nada mau, digo-vos eu...


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Criar valor versus Lei de Murphy

Um CEO comentava numa ocasião que observava sempre com interesse a forma como as empresas reagiam e se adaptavam à sua volta, mesmo nas situações mais corriqueiras em que ele fosse mais um consumidor a comprar pão no Pingo Doce. E dava o exemplo sobre como justamente o Pingo Doce tinha feito uma óbvia redução em custos de RH por intermédio de alguns processos de flexibilidade e polivalência.

O valor é um dos lugares comuns do Marketing. Trocado por miúdos significa qualquer ideia que de alguma forma melhore a performance de uma operação a qualquer nível. E isto pode significar a reivenção da roda ou coisas muito simples.

Por exemplo!

Espreitava a conversa das minhas vizinhas do lado ao balcão da Picasso enquanto comia a sopinha. E elas conspiravam acerca de uma outra gaja qualquer que pelos vistos seria asquerosa e de como isso tinha influído na reorganização do Departamento de há tempos. Como não havia quem quisesse ficar nas vizinhanças da fulana, a Diretora lá desenhou o espaço de modo a que sobretudo a si própria saísse a fava. Ora se eu suspeito que isto é o tipo de fotonovela sem valor nenhum, por outro lado, até aqui (!) pode haver valor acrescentado de um ponto de vista de marketing operacional.

Mas a coisa pode ser ainda mais simples - e a meu ver mais relevante.

Eu hoje também criei valor!

Há dias que um dos meus phones se finou. A coisa em si não tem grande mal imediato porque seja como for ouço sempre a minha excelsa seleção de mp3 apenas com um phone quedando-se um ouvido inquilino do mundo real. O problema era que numa manifestação inequívoca da Lei de Murphy sempre que colocava o phone no ouvido, em semanas, nem uma - é que nem uma vez! - logrei colocar o phone funcional à primeira tentativa. Um gajo que tenha 50% de chances em alguma coisa e se insistir em tentar, mais tarde ou mais cedo, acerta. Menos eu! Até que hoje exasperado decidi deixar de me queixar da minha má sorte e tomar o destino nas minhas mãos. Criar valor!

Retirei a borrachinha protetora do phone mau.

E, claro, estou orgulhoso!

domingo, 18 de novembro de 2012

Felicidade


Ser feliz é a manhã de Sol
é a chuva que bate fria lá fora
é o usufruto do teu chá quente
é beber a vida  em cada hora
é amansar eu os meus sonhos
esses loucos cruéis que nem sonhos são
e negar-lhes a fome, sempre a fome
é saber dizer-lhes que não
A felicidade não se conquista
Não está lá longe do outro lado do muro
E se me aquieto no silêncio
no abraço do porto seguro
ergue-se-à então essa voz
da trégua simples que um dia esquecida
morou sempre cá dentro de nós

sábado, 17 de novembro de 2012

Traição à pátria

Alguém se lamentava da ambivalência que lhe ia no peito. Aquele amigo que tanto gostava dera em defender coisas de um racismo extremo. Até tinha dificuldade em perceber como alguém em quem reconhecia tanto carinho pudesse dizer tais coisas. Mas essa não era a única dificuldade. Custava-lhe perceber como persistia em não deixar de gostar tanto dele. 

Porque às vezes não sabemos bem se é o nosso coração que nos trai os ideais. Ou ao contrário. 

Pouco importa, é uma equação sem solução. E só percebemos a banalidade da sua possibilidade quando sopra a tempestade e às vezes temos mesmo que tomar partido de um só lado do muito que somos.

Os Deuses chamaram-lhe Tragédia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Intervalo

Vida em câmara lenta...

Não, não é nada disto! Intervalo nas crónicas. Seja como for não tenho nada de jeito para dizer e não posso descrever a cidade todo o santo dia.

Voltemos à praia esquecida a ver o que esmiframos dali.

Volto quando as crónicas voltarem. São elas quem mandam, não eu!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Calçada

Vim a pé. E primeiro pensei que Lisboa inteira estivesse de greve ou de ronha ou naquilo que cada um creia que é melhor para si. Junto ao Tejo parecia Domingo de manhã. De uma manhã bonita. E eu fui meio sózinho. Até que lá para o Campo das Cebolas a cidade acordou-nos nos passos dos alguns outros pela rua. Virei sob o Arco da Augusta para Norte. A Rua está quase deserta. As primeiras lojas abrem portas estremunhadas e as carrinhas fazem a distribuição.Porta sim, portas não o comércio morre, em fachadas empoeiradas, trancas à porta e números de telefone "Vende-se" - "Aluga-se" - "Vende-se Lisboa, o próprio" - Ou não, e olho a persistência de charme passado de moda das modas da Baixa. Está frio. A loira bonita passa por mim em corrida e a cuspir vapor no ofego da respiração. Os dois engravatados estugam o passo. Eu não, eu caminho, passada calculada de quem vai chegar à hora e não quer chegar antes nem depois. Baixo o olhar à velha gorda que sorri num sorriso pateta e desdentado. Esparrama o rabo enorme no apoio do primeiro de três troleis de viagem quase tão acabados como ela. Eu olho-a. Posso-a olhar porque para ela nem estou ali. Com um lápis pequenino escrevinha qualquer coisa numa volha de papel. Recita para que se lembre do que escreve "Se-gun-da-fei-ra. Du-as-ho-ras..." - Agenda. De quê? Não sei.  Do hospital, de loucura, de nada. Não, não sei. Os dois criados vêm a sair da pastelaria chique. "Oh não sei quantos, não fizeste greve?" - O colega da concorrência desempilha mesas na esplanada e ri. - "Se eu fosse mulher morria virgem!" - Chilreia o magriço de rosto encarquilhado. Faz contraste com a fatiota de colete que trás. Não jogam. Ri e repete "Se eu fosse mulher morria virgem". Desconfio que é a sua deixa fetiche. Desconfio que se ficasse ali a assistir ao resto da sua vida se repetiria sempre, muito para além do meu cansaço. Mas não fico. Já estou quase no Rossio. Depois virá a Avenida da Liberdade. E o preto rechonchudo que acorda do canto da calçada onde dormiu. Faz um ar quase bonito e tacteia a garrafa de vinho meia ao lado. Primeiro gole do dia. Há mais corpos na calçada. Não estão mortos, ainda não. Ainda dormem, alheios ao zumbido que se eleva. Como que a ignorar a cidade de vingança desta os ignorar a eles. Afinal estamos todos em Lisboa. Mas equivocam-se se a julgarem de todos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O elogio da loucura - ou nem por isso...

Somos todos um pouco loucos. Desde manhã nas caretas desvairadas ao espelho. Em cada divagação. Megalómanos, predadores, desamparados. E se nos não adivinha o desvario, é porque seguimos calados na multidão. Secretamente sonhamos e desejamos e alucinamos coisas loucas e não desconfiamos que o somos. Ou às tantas, sei lá, se por acaso acertamos mesmo em cheio na justeza das coisas e na fórmula do universo, não nos apercebemos, não acreditamos. Abanamos a cabeça na dúvida de que estejamos a ficar loucos. E é justamente porque não estamos que é também loucura. Nem sequer perceber as coisas que sabemos ver. A loucura. Ah, ela está por todo o lado e em cada mania e em cada intransigência  santa e caída. Em braços abertos ou prostrados. Em fé, desalento, audácia e pavor. Adivinha-se no brilho e no vazio dos olhares, vidas desarrumadas e prateleiras de livros simétricos. Cosmos, caos, extremo, centro.

Vocês são todos loucos. Não faz mal. Eu também. Somos todos. 

Apenas que uns são mais do que outros.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Porque é quase Natal e ainda mais quase subsídio. Coiso...

Os doze meses de Natal


No subsídio de Natal o Gaspar deu-me a mim
Uma taxa especial
no subsídio de Natal
Aumento no IVA
Do perfume e da pizza
Revisão do IMI
Da casa em que vivi
Mas já não vivo mais
Voltei para casa dos meus pais
Outra lembrança de Natal
Foi na taxa social
No Natal vou ter sossego
Porque já não tenho emprego
E por cima uma beijoca tax free

Fuga para a vitória

Lá em casa todos os bichos já fugiram pelo menos uma vez. Gosto de pensar que a Marta não fugiu, caiu da janela. É diferente e eu não acredito que a persa mais molengona do mundo realmente fugisse intencionalmente da zona de conforto. A outra gata rafeira, seja fuga ou queda, já vai na segunda...               ... Sexta-feira até a tartaruga deu de fuga embora, não, não tenha sido ao sprint que me bateu.

Hoje estava aqui a fazer reciclagem aos ficheiros que já não me fazem falta e encontrei o cartaz de "Procura-se" que fiz da última vez que a bichana me desapareceu. A primeira ideia foi apagar. Mas depois pensando bem, deixei ficar. É daquelas coisas que pode muito bem voltar a fazer falta.


domingo, 11 de novembro de 2012

Gatos perdidos, marmelada e outras questões de vizinhança

Vinha a entrar em casa quando a vizinha me interpelou. É uma mulher magra que vive duas portas abaixo. "Olhe vizinho, já viu essa raspadela que tem no carro?" - Não tinha visto.- "Tirei a matrícula a quem lhe fez isso. Mas sabe, não vale a pena. Quem era nem carta deve ter quanto mais seguro." - E aponta para o casario a montante. Há uma linha na rua que separa a Graça castiça do casario lá de cima que é outra coisa. Às tantas reconhece-me. - "Olhe é o senhor da gatinha!" - Sou. E ela é a vizinha protetora dos animais que num fim de tarde de meio de Verão andou comigo a calcorrear abaixo e a cima e a bater em todas as portas "V'zinha, viu a gatinha deste v'zinho?" - Lá lhe expliquei que a gatinha tinha voltado. - "O meu cãozinho entretanto morreu." - lá disse ela. Nessa tarde ela trazia o seu caniche, velhinho, muito velhinho. - "Trago-o à rua ao colo porque gosta. Mas já é cego." - Entretanto tivera que o abater do sofrimento. O esgar esmorece-se. Mas os olhos negros brilham de novo e diz que "Olhe, a minha sobrinha até diz que foi coisa da minha Lela lá no Céu dos bichinhos mas dias depois os dois gatinhos pequeninos da rua subiram escadas de incêndio acima e foram comer os restos da comida da Lela. E como ao fim de dois dias não saíam de lá, abri-lhes a porta." - Rio-me. Aquela vizinha é engraçada. E digo o que ia pensando se diria enquanto a ouvia - "Olhe, gosta de marmelada!" - Os olhos acendem-se que sim e eu tiro uma caixa do saco que trazia à tiracolo "Marmelada caseira! Fez a minha mãe e deu-me para mim e para oferecer a amigos. Teria todo o gosto em dar-lhe uma caixinha, aceita?" - Que sim, que sim, adora no pão, com queijo e com banana. As mãos abrem-se à caixa e o sorriso a mim. E eu lembro-me do Fernando que me dizia há dias que oxalá tudo isto de mau traga alguma coisa de boa na solidariedade e calor das relações.

E foi assim.

Não sei se já vos disse mas eu gosto da Graça.


Caderno de cartão

Oferecemos um caderno com capa de cartão ao Miguel. Aquele em que cada um escrevinhou saudades antecipadas e votos de fortuna. As épocas têm tiques e agora são cada vez mais os amigos que nos deixam e saem do país à procura de coisas que por cá já não acham. E não é o mesmo emigrar que vi ocasionalmente à minha volta. Esse era mais ocasional,  com sabor de folha caduca de uma comissão de serviço lá fora. Agora vejo a fuga da mão cheia de nada cá dentro. E francamente duvido que os meus amigos voltem e francamente até eu sonho mais vezes em partir.

No entretanto e nestas coisas fica aquele pedacinho vazio. Não é como que os nossos amigos morressem, nada disso. É apenas que morre uma peça do puzzle da vida como nos habituámos. E eu fico a pensar numa engenharia de dominó diabólica que não empurra só ocasos económicos em filinha pirilau. Empurra tudo, empurra todo o nosso Cosmos e afagos e sonhos.

Mas o Miquinhas tem razão. Dizia-mo ontem. "Nada me prende. Vou lá ver. Não quero ir com demasiada expetativa, não quero ir já de dois pés atrás. Vou lá ver." - É, é isso Miguel. Não vale a pena amuarmos e descabelarmos-nos que exigimos que nada mude. Mais vale ir lá ver o que vem a seguir.

E no fim? Bom, no fim, hajam saudades, olha, sejam dos amigos que vão embora e não do plafond de crédito.

Amén...

sábado, 10 de novembro de 2012

A farsa do Princípe de Gales

Um dos meus melhores amigos deixou a nave espacial estacionada algures e não se lembra onde. Eu suponho que seja por isso que não consegue voltar para o seu planeta e foi ficando por cá. Num desses encontros imediatos do terceiro grau em jeito de acasos felizes a amizade entre nós nasceu. O Filipe é uma peça rara. Arguto, um coração raro e com essa virtude que admiro da simplicidade. Mas claro que isto não é um memorial nem um elogio, é uma crónica e as minhas crónicas têm sempre água no bico. E aqui o que mete água é que o gajo é a coisa mais despojada de vaidade e sentido de moda que se possa imaginar. Um passarão enorme que aparece onde quer que seja como muito bem lhe parecer bem a ele - o que não coincide necessaria nem provavelmente com o que pareça bem à maioria - e o resto é conversa.

Hoje fui com a Eva comprar roupa. Decidi convidar o gajo na megalomania de um revivalismo da fábula de Pigmalião. Em conspiração achávamos que o gajo lá se havia de sentir tentado a comprar uns trapitos e nós - pumba! - vai de introduzir uma pitada de fashion no universo eclético de retro e desbunda que é apanágio do Filipe.

Tá bem, tá...

Meia hora dentro da loja e já eu tinha desistido. À minha conta tinha uma série de peças escolhidas para experimentar e ele nada. Tinha vindo pelo convívio, diz que.

Às tantas dá-me para o disparate. Tem dias. E vai que lanço o olhar em farol à procura do casaco mais feio que pude eleger. E ele estava lá a rir-se para mim. Um blaser de Princípe de Gales de um amarelo chibante debruado a bordeaus. Em suma, uma peça horrível que talvez tivesse sido um must nos anos 50. Vesti aquilo sob o olhar de uma Eva surpreendida que se indagava do propósito daquilo. Mas eu estava felícíssimo e já escolhia a gravata mais feia que fizesse o pendant diabólico. 

Eis que...

"Por acaso casaco muita giro, já lhe tinha metido os olhos..." - o Filipe, pois claro.


A Eva vai ter um colapso. Arranca cabelos, rasga as vestes. Rimos todos. . "Proíbo-te de comprares isso, pro+ibo-te, estás a ouvir?!" - Diz ela. Rimos todos. Ele encolhe os ombros como quem diz "Tá bem, abelha..."

A tarde continuou, tarde lânguida e cinzenta de um Outono e uma paródia entre amigos. Amiúde, o casaco de príncipe de Gales lá vinha à baila de novo. Nós trocistas, o Filipe com um desportivismo ímpar."

Quando o deixámos na Expo ainda voltou atrás para meter a cabeça dentro do carro e matar o debate.

"E fiquem sabendo que só não o trouxe porque hoje não queria mesmo comprar roupa. Se não...            ... ai tinha vindo! E ainda sou gajo para lá ir comprar um dia destes."

O pior é que é mesmo!

Como não adorar um gajo assim?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Montanhas que parem evidências

Lá fui ouvir o discurso da Isabel Jonet atraído pelo odor da polémica.

Não percebi o escândalo.

Os tempos exigem austeridade e também acredito que há todo um lado higiénico na sobriedade que agora se exigirá. O sabor amargo do Nestum são contas de outro rosário mais dramático, claro. Mas algures entre as franjas dos espoliados da sorte que podem não ter tido culpa nenhuma e dos iníquos que deixam a culpa solteira no altar, estamos nós. Os assim-assim. Assim-assim empobrecidos, assim-assim culpados, assim-assim prejudicados. Sem a cruz do Nestum mesmo se expatriados de um quinhão dos nossos sonhos algo fúteis, cabe-nos a escolha de amuar sem que isso sirva de nada ou aprender  a viver sem o supérfluo e a cerrar dentes no essencial.

Se bem entendi dizia-se sobretudo isto. Desde que a crise começou tenho meditado numa série de coisas saudáveis: dar mais valor ao emprego mesmo se anda longe de ser perfeito, como poupar, como empreender, como ter algum contributo solidário. A necessidade apura o engenho. Mais do que isso, pode espevitar a vida em nós. Lá está, em tempos de guerra não deprimimos. A humanidade é curiosa.

Isto tudo para dizer que ouvi e não me revoltou.

Lá está...

Não percebi o escândalo.


Se gostas partilha se não gostas bota like!

Está na moda. A mais das vezes são frases piegas. Do estilo...

"Cabra que parte coração de moça é safadão, é sim!"

Ou

"Si ocê quiser muito, ocê dá um jeito, vici?"


Ou então são coisas com um cheirinho a sondagem Lapaliciana do tipo

"Se gostas do Toppo Gigio dá um like, se não gostas, partilha."

E eu fico a pensar...

Ca raio...

E rezo para que sob a aparência néscia fofa e inconsequente da cena esteja algo cerebral, maquiavélico que seja, focado em roubar endereços para ciberpirataria, testar comportamentos de compra para os tentáculos tenebrosos do capítalismo, algo assim!

Porque se no fim disto tudo concluo que é apenas mais uma vaga parva...

Esmorecem as minhas já poucas esperanças na humanidade...

Questão batida (piada de duplo sentido)

Eu já falei disto várias vezes.

Porque é que em qualquer canal que permita fórum a malta se engalfunha sempre toda, independentemente do tema?

- Ignorante és tu, oh tripeiro de merda!
- Vai aprender a escrever!
- Preto de um cabrão, volta para o teu país e não fales do que não é teu!
- Isto pedia era outro Salazar!
- É um Governo de filhos de puta


O tema era a Katie Melua e o primeiro comentário dizia

"Voz e cara de anjo. Lindo!"

Trezentos comentários mais à frente não faço puto de ideia de como chegámos a isto...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Auto das hormonas

E vai ele e diz  “Não queria nada!”
E vai eu “De certeza…?”
E vai ele “Quando precisar de uma namorada arranjo, não preciso de roubar!”
E vai eu “E se for uma gorda!”
E vai ele “Ou uma de óculos já agora…”
E vai eu “Óculos podias arranjar.”
E vai ele “Achas?!”
E vai eu “Só estou a dizer que de óculos não é nada do outro mundo.”

Pausa

- Não achas que ele gosta mas é da Sara?
- Ah isso não, o Henrique era incapaz.
- Eles são todos incapazes e depois…
- Não, isso, não conheço o Henrique bué da bem, era impossível.
- Oh como se tivesses a certeza!
- E tenho, conheço bué da bem o Henrique. Népia. Não era capaz, tenho a certezinha absoluta e metia as mãos no fogo. O Henrique não!

Pausa

- Sabes que o Pedro tem músculo?
- Wooow…
- Sério, até me deixou sentir. Ele pediu-me que o avaliasse.
- Que o avaliasses?
- De 0 a 10. Por partes. Corpo, olhos, cabelo. Tipo isso. No cabelo dei-lhe logo 2.
- Ya…
- Ele quer por parte porque sabe que em partes é muito melhor que no todo.
- Ya bem visto.

Pausa

- Ontem os meus pais foram às compras. Man…          … bué de coisas e depois puseram-me a mim a arrumar aquilo tudo. A nossa dispensa agora parece o Pingo Doce.
- O meu pai anda stressado.  É aquela cena, sabes? Estou naquela fase em que estou a deixar de ser menina e a ser mulher. Ele diz que se está a tentar habituar.
- Eu nunca me zango com o meu pai. O meu pai é fixe.
- Ya, o meu também. No Domingo quando acordei fui-lhe logo dar um abraço para ele ver que não estou zangada com ele. Até se assustaram. Depois ficaram para lá resmungões e eu saí do quarto.
- Epá, pareces os putos a ir ter com os pais à cama ao Domingo de manhã.
- Ya…

O 112 para ali ao pé do Conde Redondo e as duas adolescentes que me vinham a deliciar nas minhas costas sem que as pudesse ver saem. São duas miúdas giras e frescas. Do outro lado do vidro ainda vão a tagarelar. Com pena já não as ouço.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O meu nome é Dado, Enfadado

Porque é que insisto em tentar-me na curiosidade de ver os 007?

Enfadam-me os filmes de ação em que o exagero das proezas aproximam a coisa mais dos heróis da Marvel do que dos duros de carne em osso. Mesmo que carne e osso idealizada de Hollywood que obviamente está a anos de luz da realidade. Ainda assim...      O 007 é sempre isso, proezas a mais, história a menos. E já agora o James cada vez mais despido em proporção e tendência inversa às Bond Girls.

Assim não...

Não me intepretem mal. É um bom 007 para quem aprecie a saga. Não é o meu caso.

Quais são as possibilidades?

Arrastamos os pés pela Galeria Comercial a fazer tempo para o James Bond. Vamos a abandonar a zona de restauração quando passam as duas moças empinadas por nós. É tudo empinado, narizes, mamas, rabos, atitude. Gosto de umas coisas. Menos de outras. Uma solta o desabafo ao roçarmos quase o ombro "Epá, que cheiro a comida." - E retive pelo simples motivo de que uma certa neutralidade no tom me deixou na dúvida sobre se era o prazer da antecipação palatal e da fome ou de repugna pelo cheiro vagamente saturado em óleos que a zona tem.

O Vasco da Gama é grandinho. O meu périplo em tempo até ao rendez-vous com o James também. Dei voltas arrastado pela Eva que me enfadava no vagar de entrar em lojas. E às tantas reconheço as duas empinadas de novo em contra-mão. De novo voltamos a roçar ombros e a outra diz de novo. "Epá neste Shoping cheira a comida chinesa em todo o lado!"

Quais são as possibilidades?

Vou para casa a pensar que talvez tenha um crepe chines no bolso do casaco e não saiba!


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Planos alternativos de carreira

O gajo andava ansioso porque algo acontecesse. Tentava adivinhar o quê em qualquer trejeito do Chefe. Sabia que ia mudar e só não sabia se para melhor ou pior. E por isso adivinhava, ou inventava sabia lá. O outro permanecia opaco, insondável. Mas já saberia aquilo que sobretudo a si lhe interessava saber. De certo que sim.

De modo que foi com ansiedade que naquele fim de serão já a pensar em ir dormir foi conferir o email e lá estava o inusitado de um email da chefia para a sua caixa pessoal de email. Borrifou-se em todas as restantes mensagens e foi naquela que clicou tão rápido quanto pode, trapalhão na ânsia.

Era um convite para serem vizinhos no Farmville.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Líderes de opinião

Hoje fiquei ofendido com o Rodolfo. Para fazer conversa atirei com dois filmes que recomendava que visse. O gajo demorou uns segundos a responder - estávamos em chat - e depois disse, lacónico, sem coração "Estão mal classificados no Rotten Tomatoes." - "Olha que lata!" - Em vez de se fiar na opinião do seu amigo mais iluminado vai ver a média aritmética das opiniões de uma data de tipos manhosos que nem conhece. É tão absurdo como dizer-me "Epá, isso é uma merda! A malta do prédio do Sandro já viu toda e ninguém gostou!" - Há por isso dois motivos para que eu achasse que o Rodolfo não devesse dar crédito a este parecer de inteligência coletiva, a saber: não conhece a credibilidade intelectual da maior parte dos votantes; conhece a pouca credibilidade do Sandro! E apeteceu-me cuspir a réplica "ah, sites muito credíveis, tipo metem o Batman nos 10 melhores filmes de sempre..." - Mas depois lembrei-me que o Rodolfo também mete e preferi ficar calado.

Mas eu já nem estava a pensar no Rodolfo. Estava a pensar nos Gurus líderes de opinião. Porque é que alguém há-de estar minimamente interessado no que a Oprah diz? E o Cristiano Ronaldo! Qual é que pode ser positivamente o meu interesse na opinião dele sobre champôs ou aplicações financeiras? Eu só ouviria o Cristiano se ainda tivesse esperança de ser aceite na equipa de futebol da Z e precisasse de um método de treino. Olho muitas vezes para os outdoors com estrelas sorridentes e raramente sinto que a opinião da estrela engajada sobre o produto me influencie. São coisas que me ultrapassam assim como me ultrapassa que o pessoal não esteja interessado na minha opinião sobre uma série de coisas!

Também devo dizer que não gosto dos semi-reality-shows-semi-concursos-da-moda. Ele é cantores, chefs, pasteleiros, especialistas em casamentos, especialistas em moda, bailarinos, eu sei lá. Uma data de wannabes muito, pouco e nada talentosos e um painel de juris. Ora é o painel de juris que me irrita! Acho-os a mais das vezes uns tretas. E eu tenho uma série  de perguntas. Bom primeiro, vocês têm uma: "porque é que vês isso tudo?" - "E eu digo, porque a Eva monopoliza o comando." - Mas agora é a minha vez! 

Como é que o Tony Carreira pode ser juri num programa de música? Ele devia era dar aulas de Marketing no ISEG!

Porque é que a Bárbara Guimarães é juri num programa de música? Ela devia...             ... olhem, nem sei, ser doméstica que já nem para cara bonita da Chuva de Estrelas ia bem...

Porque é que os dois juris daquele programa das mal vestidas usam roupa tão feia?

Porque é que nunca ninguém fez Bitoque nem strogonof no Master Chef?

Porque é que eu não sou juri destes programas todos?


domingo, 4 de novembro de 2012

Sementes de coisas de que não gosto

Eu na caixa para pagar o saco de terra. O jardim Zen vai e agora a Eva quer cenouras. A mim pouco me importa. O ritual faz-me bem, dê o que der. E de repente começa o sururu. Dois gajos de mau ar estão a armar sururu. Qualquer coisa acerca de lâmpadas que não funcionam e que o chinês não quer trocar. Não sei quem tenha razão mas sei quem a está a perder. Os tipos começam a dar pontapés por todo o lado. Gritam, ameaçam. Às tantas um funcionário chinês empurra um deles que em semi-voo mete o pé fora da loja. "Filhos de puta, querem roubar vão roubar para o vosso país. No meu não roubam vocês..."

Paguei e saio sem saber o fim da história. Mas trago um travo de mau prenúncio destes tempos preso na garganta.




sábado, 3 de novembro de 2012

Casados e solteiros

Um dos temas recorrentes dos meus anos de solteirice foi o romantismo da vida dos solitários na cidade. Talvez não seja impossível voltar aí mas será uma escrita de memória sem o sabor fresco de ir todos os dias beber à fonte. É um clássico. A vida a dois muda-nos os tiques. E suponho que também essa dê mil crónicas. Penso nisso na constatação de que a mais das vezes agora acordo naturalmente cedo a um Sábado. Desde logo porque é raríssimo que me tenha deitado madrugada a dentro. Acordar cedo, tratar das lides domésticas. Lembro-me de como sempre caricaturei os tiques de "cota" ao Sábado de manhã. Despertar cedo, ir comprar peixinho, comprar o jornal. Depois recordo-me dessa anedota com o Paulo. Foi há uns cinco, seis anos, já nem sei. O Paulo tinha acabado de se divorciar e tinha caído de chapão desajeitado na vida de solteiro, ainda atordoado. Nessa noite levei-o para jantar mais a Aurora e a Vera, creio que era a Vera. Ele estava a precisar de amigos solteiros. Para um recém-solteiro aturar os amigos casados é a mais das vezes veneno na veia, toda a gente sabe. E por isso fomos. Às tantas a Aurora, que era a raínhas das noites hard-core primeiro escalão pergunta-lhe "Se já tinha acabado as manhãs no Europa." - O Paulo sorriu e disse que nos últimos anos as manhãs dele eram mais no Continente.

A vida é cíclica, claro. Entretanto o Paulo terá descoberto o Europa e o resto de um admirável mundo novo. Entretanto conheceu a Mónica, juntou os trapinhos e o filme deu mais uma volta. Aposto que a esta hora está de novo no Continente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Casar com a Evita - Parte I - Vendedores de banha da Boda

O périplo na procura de onde fazer o casamento terminou. Ainda não tomámos uma decisão mas temos três propostas finalistas sobre as quais meditaremos sem sair de casa. O périplo esse terminou.

Para trás fica uma estupada de análises de espaços e preços e propostas mais ou menos indiferenciadas mas que levantavam dúvidas existenciais sobre se era preferível ter caipirinha ou camarão. De entre as milhentas propostas acabei por concluir que a diferença das coisas está no preço e no potencial do espaço. Ter o capital ou a herança que permitam um espaço nobre não é para todos. E é por isso que vimos espaços onde dava vontade de casar e outros em que dava vontade de comer frango no churrasco e em que até o epíteto de "Quinta" nos parecia abusado. 

Basicamente é isso! 

A comida é uma variável pouco variável. Haja dinheiro e haverá paparoca, muita e da boa. Se é boa realmente, lamentavelmente saber-se-à tarde demais. Nas ementas os nomes soam todos muito bem, com aquele toque de nouvelle cuisine com que os tempos rebatizaram todos os pratos, mesmo os banais.

A decoração é a tal coisa. Passei horas enfadonhas a ouvir narrar com não disfarçado orgulho os pergaminhos de cada casa. Alguém lhes devia dizer que oferecem todos o mesmo, embora todos teimam que têm a melhor decoradora floral e o melhor pasteleiro designer, com especializações feitas na Conchichina. Mas nem tudo foi tempo perdido. Eu sou um gajo simples que até à data distinguia sete cores, pouco mais. Mas achei fantástico saber que qualquer que seja a cor que enfeite as mesas do meu casamento, vai ser uma diferente destas sete que eu conhecia.

Finalmente a animação. A animação também é sempre igual. Má, portanto. Podia não ser má, claro. Se eu fosse rico. E trouxesse um quarteto de cordas para a apoteose da entrada da Eva na cerimónia. Depois podia ter um stand up do Ricardo Araújo Pereira e depois os Xutos pela noite dentro. Mas como o orçamento talvez dê para fogo de artifício (uau) mas não dá para nada disto, desconfio das propostas. Und DJs a preços escabrosos tendo em conta que vão tocar o que eu penso que vão tocar, umas bandas que vão ter que correr à frente da Eva quando não resistirem a tocar pimba e....                     ... bom o melhor são os apontamentos cénicos! Uma senhora descrevia-me com orgulho como seria a apoteose da entrada do bolo. "Então, é assim, vêm os nossos empregados com archotes e a carregar o bolo sobre uma espécie de liteira. E eles vêm todos vestidos de monge com uma música de canto gregoriano" - "Uau!" - pensei eu - e apeteceu perguntar se ela tinha pensado naquilo tudo sozinha.

Mas finalmente, não! A crónica desta demanda não ficaria completa sem referir o best of das tretas da banha da cobra com que nos brindaram...

Medalha de bronze - Eu comentei jocoso com a senhora que a Eva queria à força caipirinhas no copo de água e que estava com um favoritismo irracional pelas propostas que as incluíssem. Naquela quinta não era o caso. E por isso a senhora olhou para os números meditou por um segundo e atirou "Bom, não é por isso que deixaremos de negociar. Eu ofereço uma caipirinha aos noivos à chegada!" - "Eix! Prodigalidade!" - Seria uma para cada um?

Medalha de Prata - A comercial mostrava-nos a sua Quinta. Era a coisa mais feia que já tínhamos visto, pensava cada um para si. A moça que não deve ler pensamentos e não sabia por onde tínhamos andado parecia no entanto adivinhar o que nos ia na mente. E lá argumentou no desespero da venda quase perdida. "Sabe, isto decorado...            ... e depois depende muito do fotógrafo! Nas fotos parece outra coisa se for bem fotografado!" - E eu a pensar para mim "Isso é que é importante! Todos os que não vierem ao casamento não vão sonhar que era uma merda!"

Medalha de Ouro - Na mesma quinta - que se devia chamar Quinta das Ostras porque era só pérolas - a moça a ver a venda cada vez mais perdida esbarra noutra dificuldade quando nos diz que o espaço fecharia à meia-noite e a resposta é um esgar de desagrado.             ...   silêncio constrangedor entre as trincheiras da negociação...        ... sabe diz ela...            ... fazemos isto para proteger os noivos! A partir de determinada hora os convidados bebem demais, armam confusões, figuras tristes....             ... e estragam o dia.!     - E eu a pensar que o faziam porque as horas extra em pessoal roem a margem de lucro...           ... ah que gente de coração grande!

Bom, mas já está...

Próximo passo, local definitivo, data, convidados.

Aposto que isto ainda dá mais um monte de crónicas!


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Noite das bruxas

Isto ainda vai ser uma música

Nessa noite de bruxas
enfeitiçámos-nos tu e eu
foi sem Lua nem névoa com o tecto do teu quarto a fazer de céu
E eu bem sei que entretanto passaram tantas fases da Lua
e eu bem sei que em ti estou morto mas tu em mim continuas

Creio em vidas passadas e destinos por cumprir
mas se eras só carta marcada
então nem houve uma encruzilhada
Foste só uma má piada
e só eu não soube rir

Por isso mata-me outra vez
vai baralha depois parte ao meio
que às duas por três
nem eu ache feio
e se é pacto por selar
tu não vais ter que cumprir

Só que esta noite é noite de bruxas
e vens sempre arranhar a minha porta
e pingas sangue de uma chaga fechada
é que a memória é uma faca que corta

E nem preciso de olhar
para ver as bruxas em circulos no céu
como na noite
em que pensei que o mundo era meu
mas nesta noite
a casa assombrada sou eu

Os ricos morrem de pé

Há quem diga que no nascer e no morrer somos todos iguais. Não é verdade.  Os berços são diferentes. Tudo o mais é diferente ao longo da vida. Até num simples peido. Os pobres peidam-se os ricos aliviam-se. A morte não havia de ser diferente.

E eu pensei isto tudo ao passar à porta das instalações que o Banco Privado Português mantém aqui nas imediações. Uma placa dourada em baixo relevo com augustas letras cinzeladas impõe a majestosidade mesmo se fúnebre. "Banco Privado Português - Em Liquidação" - Nem mais! Até as letras do epíteto fúnebre "Em Liquidação" são de uma elegância nobre. Os gajos mesmo falidos mandaram fazer uma placa novinha para incluir - sempre em baixo relevo - a nota de rodapé de que o dinheiro ardeu, o deles e o dos clientes.

Quer dizer...

Eu percebo pouco de contabilidade mas arrisco-me a dizer que se não estou falido quer dizer que a minha situação patrimonial é melhor que a do BPP. Ora a mim custar-me-ia pagar esta placa que dá ares de ter custado uma pequena fortuna. E eu já decidi que não me meto em mais encargos enquanto não acabar de pagar o frigorífico. E por isso acho imoral que o Banco ande a gastar dinheiro dos credores nestes pequenos luxos.

Se fosse o Café do Xico Zé seria a fita-cola na vitrina que estaria uma folha A4 ramelosa a anunciar "Falimos. Deixe a correspondência na Mercearia do lado"
Mas ali não. Um banco daquele não dá o peido mestre - por muita merda que passe debaixo da ponte.

Liquida-se. Morre de pé!

Touché!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Balneário - Parte II

Primeiro foi o matulão com cara de cavalo. Já apanhei a conversa a meio. E por isso quando ele disse "Opá, é assim um toque suave, mas ao mesmo tempo fofo e com um cheirinho mesmo bom" - eu não soube exatamente do que ele falasse. O interlocutor ria-se "Estás a ficar maluco..." - "Tão não! Mas ela também pá, está toda entusiasmada com o jantar!" - Eu também sorrio e embora ainda não saiba concretamente o que é suave fofo e cheiroso arrisco-me a pensar que hoje o balneário está menos hard core.

Volto do duche. Vou primeiro e depois volto.

A euforia do tal jantar continua a pairar no ar e a misturar-se com o vapor de água. O gajo aprumadinho, musculado na proporção exata mas branquelas demais pergunta ao negão que arruma as últimas coisas no saco. "Tão mas não vais porquê?" - O outro ainda não respondeu e eu já o adivinho vexado. Mas antes que avance há que perceber que o negão é mesmo grande. Gajo para bater o primo Luz na contabilidade dos músculos e ainda lhe dar de 10-0 no aprumo da barba impecavelmente desenhada. E claro, já para não falar do espólio de tatuagens tribais e tachas pelo corpo. E por isso um negão assim adivinhamos que possa ser segurança, ator porno, qualquer coisa assim. Não sabemos se é. Mas podia! E para a moral da nossa história tanto chega. E tanta consideração para retomar a história no momento em que ele ainda não explicou porque não vai ao jantar mas eu vejo-lhe  um ar envergonhado. Seria de esperar que dissesse algo "Tenho uma dama para papar nesse dia, bro!" - Algo assim. Isto nas minhas especulações de gajo com pouco para fazer, claro. Mas não é nada disto que diz. Diz...            ... "Faço 5 anos, vou estar com a xavala." - O outro estranha-se e abana a cabeça. "5 anos? Mas cinco de anos de quê?" - "De namoro, meu!" - E haviam de ter visto o ar de quase repugnância do Adónis lavado em Omo - "Fodaaaaa-se....               ... mas tu festejas essas merdas?" - É que nem era ar de gozo. Era mesmo ar de estranheza. De um gajo que genuinamente é GAJO e não papa grupos de gajas armadas em românticas. O negão sorri meio envergonhado. Disfarça "Epá, eu estou-me a cagar, claro. Mas as chavalas dão importância, man, já sabes como é..." - A conversa continua. O Brancão vai dando baile sem eu próprio ter a certeza se lhe está a dar gozo ou é um genuíno macho. E o outro está mesmo encabulado e vai-se justificando mais a meter os pés pelas mãos do que outra coisa qualquer.

Eu por mim rio-me. E penso que ao menos em algo o Primo Luz vence na comparação. Eu não lhe consigo dar bailes destes...

domingo, 28 de outubro de 2012

Charme, take one

Um gajo de vez em quando deixa-se levar por uns devaneios num misto de elan e consumismo e drible da banalidade dos dias. Ontem não resisti à última pechincha do LIDL e trouxe um tabuleiro daqueles com pés para tomar augustos pequenos almoços na cama.

E hoje foi com entusiasmo que acordei e acorri à cozinha. Uma bela meia de leite home-made, requeijão e alface sobre fatias de pão saloio. O charme da vida está nessas pequenas coisas com que nos mimemos.

Mas o charme da vida não está em que, depois de tudo pronto e equilibrado sobre o tabuleiro, uma das pernas, demasiado próxima do precipício do fim da mesa da cozinha, resvale no caos de um chão de mosaico lavado a leite com café e a minha sandes transformada em açorda. Pelo meio, danos colaterais, peças de roupa da Eva que dobrara carinhosamente a um canto, vindas da rotina de lava e seca (passar é que não) voltam ao início da linha de montagem comigo na incerteza de que aquelas nódoas saiam.

Respiro fundo.

Mas sou um charmoso persistente e repito todo o processo de confeção do meu pequeno almoço na cama.

Desta vez a coisa correu sem percalços.

Até chegar à cama...

Nada daquilo bate certo. O meu edredão que parece uma nuvem soa-me a solo demasiado instável onde arrisque nova tragédia com o tabuleiro. As pernas parecem demasiado curtas para colocar em ponte sobre o caudal da minha silhueta pouco esguia. Contrariado, esqueço o tabuleiro e pouso o repasto na mesa de cabeceira. A Eva olha-me em tom de gozo. Como estamos zangados não me diz nada. Mas deve estar a gozar a cena à grande numa gargalhada contida.

Mas eu não desisto!

Ainda hei-de ficar na cama a comer torradinhas e a ver chover. Apenas não estava escrito que seria hoje. Seja como for está Sol.


sábado, 27 de outubro de 2012

Presidentes da Junta

A Dona Margarida contava-me hoje das vias de facto a que chegaram as lutas de poder da LUSALMA. O Presidente da Lista Vencida há meses nas eleições para a Direção foi acarinhando primeiro uma guerra psicológica de "elogios" veiculados pelo Facebook contra o Presidente que renovou o seu mandato. Como se isso não chegasse acabou por o confrontar numa ocasião social do organismo. Conseguiu o que provavelmente sentiu a necessidade de fazer desde o primeiro instante, dar um par de valentes murraças no outro e limpar no punho a vergonha do descalabro nas urnas.

Bom mas talvez eu devesse ter começado por vos dizer que a LUSALMA é um projeto de universidade de terceira idade em Almada e que os antagonistas têm selo geriátrico: um padre que descobriu nova vocação no amor de uma paroquiana e no Inverno da vida novo rebanho nos discentes reformados...          ... e um Coronel na reserva que provavelmente não conteve as saudades da guerra.

Importa também dizer que a LUSALMA não tem quinhão de fortuna, fama ou glória que se possa saquear. É um projeto louvável e humilde de dinamização para a terceira idade. Dá trabalho, suponho que o gozo das obras feitas. Pouco mais...

E então, porquê?

Um velho professor disse-me que há dois tipos de guerras, as económicas e as ideológicas. E que sob o pretexto e a bandeira de ideologias quase sempre se esgrimem na verdade ascendentes económicos.

Mas eu vou mais longe a desmontar a matrioska e diria que da Guerra Mundial às Guerras do Alecrim e da Manjerouna se esgrimem sobretudo egos. Egos gordos, mórbidos, doentios que esmagam tudo o que houver em redor e propiciam tragédias na depredação que os alimente.

Pode ser o Trono do Mundo ou a Junta de Freguesia. Pode até ser a LUSALMA. Pode até ser muito menos...

Em tempos inventei em meu redor a paródia do Clube dos Solteiros, firma que traduzia um grupo de amigos simpáticos e encalhadíssimos que bebia copos em alcateia para driblar a solidão das coisas. Era apenas isso. E foi por extensão da paródia que inventei cargos e tudo. Uma Presidente, um Secretário Geral - cargo que reservei para mim numa manifestação da minha própria megalomania. Os outros eram os vogais, comuns mortais sem protagonismo nesta secreta sociedade. Mas não há modelos societários unânimes. Não tardaria a que me chegasse o desabafo dos espoliados da glória "Sabes, Rui, fulana pergunta-se porque é que a Presidente há-de ser cicrana e não ela..." -    

... suspiro...

... note-se que a Presidência apenas consagrava um direito. Que lhe fossem consagrados muitos brindes, inflamados e vagamente patetas na partitura das noites que perdíamos todos juntos por aí. Mas os egos são gulosos ogados que limpam o prato até à migalha. Agora que penso, e sem certeza de uma memória que por vezes já me dribla, também aqui a fação contestatária meteu a mão na cara do poder instituído. Será? Ia jurar que sim...

E no fim? Bom e no fim fica um vencedor, sempre, sobre um monte de cadáveres dos corpos e dos egos derrotados. Glorioso, finalmente satisfeito até que tenha fome de novo. Sorri e confessa-nos, não sem vaidade, a parafrasear esse velho boneco do Herman

"Eu é que sou o Prrrrresidente da Junta!"

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Onomatopeias

Há coisas difíceis de traduzir pela palavra escrita. Os sons. Porque as onomatopeias ainda não evoluíram ossuficiente. Metade da magia perde-se. Uma palavra pode valer mil imagens mas não vale nem meio som. Assim é e ainda assim tentarei descrever-vos a peripécia de há pouco.

A porta do elevador em Santa Apolónia ia fechar. Corro e por pouco não fico de fora. Mas entrei. Agora sei que foi o Deus das Crónicas patetas que manteve a porta aberta para que eu entrasse. E eu entrei! Vamos cinco lá dentro, a adolescente rechonchuda que me lança um sorriso simpático do "à queima" com que me esgueirei lá para dentro, as duas amigas sessentonas de ar zangado com a vida ou com qualquer outra coisa. E depois o tipo de fato e gravata que arrasta um trolley de viagem. Vamos todos calados menos ele. E todos sabemos disso menos ele que leva a música demasiado alta nos ouvidos. Essas coisas dão por vezes asneiras. Apercebi-me disso no dia em que bebi no Departamento café demasiado quente  com a música demasiado alta. E não percebi logo porque é que todos se riam para mim com aquele ar semi-carinhoso-semi-trocista. Mais tarde alguém me diria que o estrilho com que sorvia o café se devia ouvir dois pisos abaixo. Continuemos. Este tipo não bebe café mas canta. Não, não é verdade, não canta. Antes cantasse. Aliás faltam gajos com os tomates e a espontaneidade para coisas assim. Eu conheço a Joana que assobia lindas áreas enquanto trabalha o excel. Embora ao cabo das horas aquele sibilo dela me mexa com os nervos eu admiro-a pela jovialidade. Mas este gajo não canta. Isso era giro! Que soltasse um "Há sempre música entre nós" e depois vergasse a espinha a uma das velhas num beijo cinematográfico. Isso era giro e arrojado e renovaria a minha esperança na humanidade. Mas o gajo não canta, é demasiado tímido para isso. Ou melhor canta. Ou pior, pensa que canta suficientemente baixo, só para si. Um "hmmmmm, hmmmm, hmmmmm, a aflautar na voz presa na garganta notas imperfeitas de uma pauta irreconhecível nessa clausura. Vai com aquele ar descontraído do recato que ninguém o ouve. Mas ouvimos todos. Não soa a canção, soa a gemido lascivo de orgasmo prestes a rebentar. Soa mesmo. O gajo vai para ali a gemer com o ar sereno de que não é um engravatado a gemer no elevador para uma adolescente duas velhas mais o Rui. E nós vamos todos deleitados a ouvir. Até as velhas já não têm um ar zangado com o Mundo.

A porta do elevador abre dois pisos acima. Soube a pouco.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O rapto das mamocas

Não conheço bem o Silva. Apenas comungamos na mesma rotina parva em que o Silva é mais uma peça e eu mais outra de um "ram ram" bizarro. Pouco sei sobre ele. O que pensa da vida, o que faz quando sai dali, se é casado, se tem filhos. Pouco sei. Sei que é Sportinguista ferrenho e isso chega. Alimenta as conversas de ocasião que lhe faço só para driblar quanto possível o enfado das horas. - "'Tão Silva, o Sporting lá foi de novo. É desta que te trago a proposta?" - O Silva encolhe os ombros e faz aquele seu sorriso de gajo meigo e tímido. Mas não, é mentira, sei outra coisa sobre o Silva. Sei que quando sai dali desce a rua com um ar que dá gosto ver. Caramba, dá mesmo! O Silva desce a rua com a alegria serena dos gajos simples. Não sei para onde vai mas sei de onde vem e sei que o Silva tira gozo do caminho pela avenida a baixo ao fim de mais um dia. E ao cabo disto tudo, olhem, a verdade é que gosto do Silva que dá ares a quem se indigna e reflete e questiona bem menos do que eu mas, pôrra, tem um ar bem consigo! Tem mesmo!

Hoje eu entrava no cantinho dele com uns posteres institucionais debaixo do braço. Quando viu que lhe ia levar as molduras antigas resmungou "Decoração nova? E trazes alguma coisa de jeito?" - Eu já me ria "Silva, pá, estou de bom humor, hoje até te dou a escolher. Gajas nuas ou craques do Benfica?" - E lá vem o sorriso meigo do Silva. Depois ficou para ali a refletir e a olhar para um canto da parede onde não estava nada. Quase melancólico...      "Gajas? Tínhamos cá uma sim. Ali, colada naquele cantinho discreto. Olha, vês, ainda ficou lá um canto do papel preso a fita-cola. Um dia cheguei cá e tinham tirado. Até isso! Nunca soube quem foi o sacana! Ainda gostava de saber quem veio cá tirar o poster e nem disse nada...." - O Silva reflete e olha para o vazio enorme que a pin up deixou no rasto trágico do seu rapto. Eu também olho. E desta vez quase que também consigo ver. O Silva inspira...   "Epá, tão, sabia bem, um gajo está para aqui a virar frangos e de vez em quando lançava os olhos aquelas mamocas e até sorria. Mas até isso levaram! Quem terá sido?"

Também suspiro para comigo. 

Efetivamente...

"Quem terá sido?"

Movimentos simples

Polaroids num painel de cortiça

18:30 - O Rui e a Eva pedalam imenso sem sair do mesmo sítio no ginásio. Ele comenta que está a adorar o livro que está a ler. Ela que ainda pensava ser o anterior estranha-se "Gostaste disso?" - Refere-se a "Na Estação de Grand Central sentei e chorei (algo assim) - não, claro que não...    - "Opá, não, desse desisti, é intragável!" - Ela abranda o ritmo quase a chegar à meta dos 15 minutos e encolhe os ombros . "Estava a ver. Mas sei lá. Como és um bocado pseudo-intelectual..." - Que lata! E de repente lembro-me da Ritinha que me achincalhava do mesmo só porque estraçalhava a sua devoção pela saga dos Transformers.

01:00 - Acabei de ver o Taken no Hollywood. Ainda estou meio a tremer. Mas que bela chachada de ação! Emocionante, heróica, violenta e com os ingredientes certos de adrenalina e sentimentalismo. Um ex operacional da CIA vai salvar a filha de uma rede de tráfico de mulheres. Salva mesmo e pelo meio, contas do IMDB mata 35 fulanos que realmente as estavam a pedir. Pôrra! Adorei o filme. Mas isso deixa-me constrangido. É um filme com uma dose forte de disparate que me faz lembrar uma velha rábula do Herman "Raptaram o Presidente dos Estados Unidos e Joe Fagundes entra em ação!" - Vou para o Facebook em acto de contrição parodiar o meu próprio entusiasmo. Aparece a Ana "Epá, esse filme é muito bom!" - Se há gaja culta e arguta que eu conheço é a Ana. Devia estar constrangida de dizer aquilo sem mais nem menos "Esse filme é muito bom!"    ...        ... sem, sem...         ... pudor! Ao menos não me chamou pseudo! Menos mal...

01:10 - Lembro-me de como ontem a Vera me desabafava sobre o marido "não é culto, enfim, não há pessoas perfeitas!" - E eu guardava na altura e recuperava agora a sensação de que a Vera é parva. Sem rendilhados o Pedro é das pessoas mais sensíveis e sensatas que conheço. Em compensação a Vera nos seus ares de designer empertigada é apenas parva e nem toda a bagagem cultural sobre o dandismo e o cubismo a salvam disso. "Mas eu não sou pseudo!" - acrescenta o Rui ao rol das suas divagações e vai dormir no processo de osmose de sonhar isso e aprender alguma coisa.

07:00 - O Rui abre ao acaso uma página que fala sobre o princípio fundamental de Krav Maga. "O movimento mais simples é sempre o melhor"


...


não necessariamente, claro. Mas não tem que ser o pior.

As coisas são ou não são. Na sua simplicidade. Mesmo na sua facilidade, se quisermos. Ou no culto intrincado de reinventar o que é por baralhar muito bem e dar de novo.

O resto são exercícios de ego. Não, não é verdade. São sedentarismos de egos que andam por aí gordos e bem podiam perder uns quilos a exercitar-se na simplicidade e tolerãncia.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Berço

Num fio condutor mais ou menos arrevezado e inconfesso da crónica anterior hoje apetece-me falar de Berço. Há muitos berços. Uns são o topo de gama da Chico, outros são de marca branca. Alguns herdam-se de geração em geração e isso normalmente quer dizer que ou se tem muito berço ou muito pouco. Tudo visto no entanto, são apenas camitas XS e está por demonstrar que moldem o caráter de quem quer que seja...

Mas este prefácio em guisa de piada non sense não responde à questão simbólica do peso de um nome. Os nomes são coisas importantes. E talvez isto seja difícil de compreender pelos Martins ou pelos Silvas mas o nome encerra em si todo o valor de marca que precede sequer a auto-consciência do fenómeno do Marketing. Qualquer produtozito enfezado com um logo sonante é logo outra coisa. E é por isso que nos esforçamos por adquirir uma marca prestigiada quando ela não veio desde logo gravada a letras douradas no nosso berço. Há várias formas de o fazer, claro. Pelo rebranding de escrever Marttins com dois "ts" ou por uma joint venture de um matrimónio que credibilize. "Cortez e Silva" é logo outra coisa. Ainda não é perfeito, é certo. Mas com sorte o tempo lavará o mau sangue dos Silvas dos mosaicos da estirpe. Deus queira...

Mas a grande questão é: quanto é que vale de facto um nome?

E eu digo. Muito. E pouco. Se for bom, se for realmente bom, se for o nome de um pai honrado, de uma avó virtuosa, de um tetaravô que seja que marcou a diferença, se for enfim um nome que envoque memórias honradas, então esse nome terá o encargo de um farol que nos convide a ir por aí, crentes no exemplo e fiados na vaga probabilidade acrescida da genética.

De resto muito pouco.

Um nome não é a presunção inilidível da superioridade de idiotas que crêem em mitos que lhe tragam guarida. Ou melhor, é. É-o tantas e iníquas vezes...            ... mas uma mentira vivida todos os dias não deixa por isso de ser apenas isso, um logro.

Eu creio cá para mim que devemos todos ter um nome secreto, inconfessável. Aquele que nós próprios só no fim de contas percebemos que é por esse nome que devamos ser chamados como quem chama os bois.

No fim é por ele e apenas por ele que valemos.


domingo, 21 de outubro de 2012

Bégate ou Ser amigo

Despertei para o fim da manhã com um repto. Tu que gostas de te rir dos outros, pensar mal dos outros e escrever mal dos outros vai aqui e mata a gula. "Aqui" era um post de facebook. Abaixo do mote aparentemente inóquo de uma foto de uma salada às tantas a coisa descambava para uma das peixeiradas mais surreais, kafkianas - olhem, nem sei - que jamais li na vida. Ana, amiga de Bela X, dirigia uma mensagem empestada de ira a Bela Y por usar o diminutivo carinhoso Bé! E isto porque, alegava-se, Bé era o timbre e o monopólio da Bela X e seria de extremo mau gosto a outra também querer ser chamada de Bé. Aquilo interessou-me, claro. Mas como sou um cronista sério decidi ir investigar melhor a história antes de escrever. Aquilo ali havia de haver má vontade e o Bégate parecia-me um óbvio pretexto para declarar guerra. Mas fontes que preferiram o anonimato disseram-me que não, que Ana, não conhecia sequer Bé Y e que entre Bé X e Bé Y, sendo que se conheceriam não se alimentava nenhuma quezília ou rancor por ratearem o petit nom. Era portanto uma genuína revolta por algo que à falta de melhor definição definição vou definir como um sentimento pugente e visceral de respeito pela propriedade intelectual. Pois então! Pumba!

Bom mas a crónica de hoje não é realmente sobre posições imbecis em disputas imbecis.

A crónica é sobre outra coisa. É sobre a forma certa de amarmos os nossos amigos imbecis.

Há muito tempo teorizei sobre as guerras entre clãs de amigos. E dizia eu à data que nessas trincheiras é tudo mais uma questão de contar espingardas e solidariedades do que de medir a justeza das causas. É. No fim ganha quem tiver mais amigos.

Mas, meus queridos, há guerras e guerras. E algumas são nados mortos. Waterloos por defeito genético. São guerras incondicionalmente perdidas...

E digo isto porque aquilo que mais me fez pensar sorrir da condição humana neste debate delicioso é que às tantas apareciam alguns amigos da tal moça imbecil com discursos do tipo "Querida, eu sei que é com a melhor das intenções e com sentimentos de amiga. E já se sabe que as dores de amor nos fazem hiper-sensíveis. Mas querida, a querida estará a exagerar. Porque a querida é linda por dentro, sabe e hiper-sensível aos horrores do mundo, fofa, né? Pois. Mas também não é caso para tanto, rica... Cutxi, cutxi, etcétera e tal...

Opá...

Eu cá tenho o vício de chamar os bois pelos nomes e num caso como estes ou prestamos a nós próprios o bom serviço de assobiar para o lado e fingir que não vemos que um amigo se expõe ao ridículo (provavelmente o melhor...)

Ou não nos delapidamos a nós próprios a defender causas perdidas. 

Não...

Ligamos. Ligamos imediatamente e dizemos. "Desliga imediatamente o computador. Não fales com ninguém, não atendas chamadas. Vou a voar para aí. Primeiro vou-te chamar todos os nomes. Depois um par de estalos e depois vamos pensar juntos no futuro. Morada nova, nome novo. Quem sabe uma plástica. Vais ver, este erro resolve-se! Ainda vais ser feliz"

Ser amigo é isso

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Métricas na rede

As coisas que movem as pessoas na net são engraçadas. E por isso é sempre curioso acompanhar as métricas de tráfego dos nossos blogs, sites, páginas de rede social.

Por exemplo, lembro-me de uma crónica que escrevi há uns anos. Era das poucas que me atraía público para além dos poucos amigos que me fazem o frete de me ir lendo. Esta não! Atraía um público vasto e mundialmente disperso. Porquê? Simplesmente porque se chamava "Hairdo" e era uma reflexão profunda sobre cortes de cabelo. Magia! Queijo na minha ratoeira para os ratitos virtuais a meditar sobre cortes de cabelo.

Anos depois mantenho dois blogs em simultâneo. Este em que vou escrevinhando crónicas ao acaso como a que agora vos ofereço e um outro em que publiquei online o meu único e famigerado romance "A Guilda dos Melancólicos". E o fenómeno das visitas virtuais repete-se. Uns quantos tugas que suponho que sejam os amigos, umas visitas ocasionais da Irlanda que desconfio de quem sejam, um pequeno público groupie incondicional nos Estados Unidos e Brasil - a família da Bê Pagin, portanto...              ... e depois as visitas da Rússia -  que devem ser gajos a tentar meter vírus - e apontamentos ocasionalíssimos de lugares como Coreia do Sul e coisas assim que vá lá alguém perceber como aterram nas minhas palavras...

Hoje tinha a minha primeira visita de Moçambique. Curioso lá fui investigar do caminho que conduzira ao meu blog...

Palavras de pesquisa no Google...        "foder pretas em Moçambique"...

Bonito, não estou a ser famoso propriamente no segmento que imaginei nos meus sonhos de fama e glória com direito a Prémio Nobel, mas pronto, um leitor é um leitor!

Lol...

E agora que penso conheço uns quantos gajos que emigraram para Moçambique...

Malandros!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O comprimido da felicidade

O gajo encheu o peito de ar. Uma peitaça grande, cheia então... "O comprimido resulta mesmo, pôrra!" - a malta riu mas ninguém deu sequência. Take 2. "Ah caralho, é que a merda do comprimido resulta mesmo!" - Pôrra, estou a ficar lixado, se os amigos não lhe dão sequência atiro eu um "Então pá?" - Mas não foi preciso. Sai um gajo do duche a rir-se. "Então pá?" - "Epá, quando lá cheguei já ia maluco, apertei logo com ela! Foi na cozinha. Depois quis fugir! Mas eu disse-lhe, "anda cá..." -  e pimba foi sempre a abrir. Hoje deve estar toda assada." - Se houver um segmento de bazófia porno, é este gajo. O gajo esvazia a peitação grande num suspiro. "Ahhh, é que o comprimido faz mesmo efeito..."   - Suspiro. Eu normalmente colo-me a roubar as conversas dos outros para escrever crónicas. Desta vez não foi preciso. O gajo está a declamar poesia para aquele balneário cheio de testosterona tatuada. É o Cícero da zona. "Dezassete aninhos, ainda custa. Mas já é mulherzinha, tem que ser..." - Há um gajo que atira a ironia "Mulherzinha mas menor, meu..." - "Ah já sei quem é, é aquela que ficou a fazer a segunda aula?" - "Ya..." - Vai outro gajo para o duche a rir "Epá, bacano da tua parte contares tudo. Mas não valia a pena, daqui a bocado perguntávamos a ela." - Eu pego no saco, rio-me para mim e preparo-me para sair. Já tenho crónica. Uma crónica parva, gratuíta, gráfica e com cheiro a gel de duche e mistura de desodorizantes machos. Levo apenas um travo a amargo na boca. Ali só eu pareço não saber quem é ela. Tenho que fazer amigos no balneário!

Pilatos

Entrei na sala e desconfiei. Só gajas. A namorada levara-me para aquela aula e eu nem sabia bem o que era. Deram-me uma bola grande e puseram uma música Zen. "O que é isto?" - "Pilatos" - responde a Eva...            ... "Oh Diabo..." - penso eu. Se a malta da bola me apanha nestes preparos amaricados acaba-se a minha reputação. Ou acabava se eu ainda tivesse uma...

Quarenta e cinco depois o suplício acaba. Venho azuado e trago uma plaquinha ao peito que diz "Pior de todos".

Bati no fundo. Não é verdade, não bati e eu já nem tenho essa ilusão. Disse o mesmo quando fui tocar violoncelo no Dia Mundial da Criança num quarteto de putos (embora eu tivesse 33 anos). Mas trata-se do Rui. Coisas piores, muitas e muito piores estarão por suceder. Acreditem-me...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Rendimentos mínimos salomónicos

Hoje debatia uma querela pessoal com um amigo. Às tantas ele diz-me que no fundo ambos - eu e esse terceiro- tínhamos culpa. Espantei-me e quis saber que quota me cabia. Ele encolheu os ombros. "Não sei pá, mas creio que em qualquer desavença há-de haver sempre culpa de lado a lado.

A pensar naquilo ocorreu-me que era uma espécie de média tendencial da História do Universo. Mas pôrra, lá estatística é justiça?! Ah, quero que Salomão se dane. Na verdade tem culpa de metade do rosário de horrores da Humanidade. Se no fim metade da culpa é sempre nossa, nem mais, nem menos, para quê tecer o esforço de sermos absolutamente corretos?

Pensei, "opá, vai-te lixar com essa teoria!" - E até lhe podia ter batido, partido tudo à nossa volta e soltado todo o meu mau génio numa baixaria inqualificável e gratuita. É que qual Fenix renasceria imaculado de metade da minha culpa. Essa seria sempre dele.


Troika boa, Troika má

Um amigo hoje perguntava-me se não há a quem possamos na Europa fazer queixa do Estado português, dizer-lhes "Olhem, venham cá meter ordem nestes tipos, prendam-nos, levem-nos, façam o que quiserem. Porque eles não são bons nem para vocês da Europa nem para nós por cá." E como se eu não lhe desse resposta muito animadora dizia ele.  "Opá, tem que haver! Imagina que lá em Proença-a-Nova - o Pedro é de Proença-a-Nova - ia uma pouca vergonha do pior. Então não haverá processos técnicos para ir meter lá ordem naquilo. Pois, aqui é a mesma coisa mas à maior escala! E eu fiquei a pensar que o Pedro está cheio de razão. 

Andam para aí com palavras de ordem para correr com a Troika. Não estão a ver bem, o Pedro é que está. E pedirmos à Troika de fazer o jeitinho de correr com o nosso Estado?


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A apologia de Gasparzinho

Aos tacanhos de espírito falta lucidez para perceber a genialidade desta política fiscal.

A classe média vai ter mais poder de compra. Porquê? Porque doravante vai ser constituída por aqueles tipos com ordenados simpáticos mas que se começam a encolher todos com as bordoadas. Armados em espertos, pareciam tartarugas amontoadas a tentar trepar pelo balde fora para o lado dos ricos. Queriam! O Gaspar trata-lhes da saúde e ficamos com uma classe média toda catita que ainda passa umas boas férias mas agora no Algarve e dá um saltinho ao Health Club. Mas já não vão a ricos. Se for preciso comem mais enlatados e vendem uma das casas para ajudar a pagar a outra mais o IMI. Tem que ser. Ora isto é ao mesmo tempo coerente do ponto de vista da esquerda radical, de combater as prodigalidades da burguesia como coerente é de um ponto de vista mais meramente esteto-fútil de se ter uma classe média gira.

E agora que a temos não precisamos da antiga. Até porque esta desaparece mesmo. São neo-pobres. Doravante contam tostões, comem galinha  quando não for só sopa. Têm o essencial. O essencial é uma espécie de ir vivendo a caminho de lentamente não ter realmente nada. Por ora as pontas seguram-se. O que resta do Estado-Previdência dá uma ajuda, os pais e os sogros enchem-nos o frigorífico todas as semanas, os putos estudam na escola pública, com sorte entram numa universidade pública. Quando o nariz pinga vai-se para as filas da Caixa. Paga-se taxas moderadoras mas não se morre por isso. Menos mal. Até que os pais morram, até que a Saúde Pública e o Ensino Público e o Público em Geral morra vai-se vivendo. Menos mal mesmo. Depois talvez tenhamos que lhes meter um carimbo novo.

E os outros? Os outros que se fodam de vez. Vejo a água subir-me da cintura para o peito. Não é preciso ser muito esperto para perceber que para alguns ela já estava pelo queixo. O resto adivinhem vocês. A parábola da velha que na farmácia escolhia em um-do-li-tá que medicamento comprar que a reforma se recusava a pagar todos. Os desempregados de longa duração sem soluções nem subsídios nem pais para ajudar. Os que perdem as casas, qualquer dia nem é para os bancos, é para o estado mesmo. Os sem saúde e sem educação e sem nada. Este país não é só para velhos que não é. Simplesmente muito menos para eles! E depois? Temos novos pobres. Até mais catitas. Estes tipos até dão mais despesa que receita fiscal. Às vezes a humanidade turva-nos a visão. Mas o Gasparzinho percebeu na lucidez dos números que  estes gajos são todos dispensáveis. Que desapareçam de vez. Nem são baixas colaterais. Nem são baixas, são gorduras. Antes eles que andarmos de Clio.

Os que sobrevivem mordem o pano, quem sabe um dia não tapamos mesmo o buraco.

E depois? E depois eles podem começar a cavar-lo de novo.

Eles? Quem são eles?

Nenhuns dos descritos acima, asseguro-vos.

Tu é que a sabes toda, Gaspar...



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A fórmula mágica do Clio e da caneta Bic

Dêem Clios aos titulares de cargos políticos. Melhor, façam-nos andar de transportes. E canetas bic e uma cantina apenas digna para matar o bicho. Façam deles funcionários públicos ou melhor, recordem-lhes que é isso que eles são, é isso que sempre deveriam ter sido. Mas não, cultiva-se a praxe de que o aparelho político exibe sempre fausto, não importa quando nem como e sobretudo nem porquê. Nem que o país esteja empenhado até às orelhas e o luxo seja a prestações a pagar por gerações.

Se pensarmos bem, a primeira revolução devia ser a da frugalidade de tudo o que fosse supérfluono estatuto da classe política. Porquê?

Podíamos dizer que fosse para moralizar os sacrifícios que se pedem.

Poderíamos dizer que fosse sinal de uma evolução de mentalidade decadente que tanta falta faria.

Poderíamos dizer que seria mais uma simbólica poupança que fosse neste caos empenhado.

E tudo isso seria verdade mas nada disso explicaria o mais elementar benefício de tudo isso.

O mais importante é que essa austeridade traria o passe de mágica de em pouco tempo levar da classe política quase todos os parasitas que lá estão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ego

Ah pudesse eu com uma tesoura cortar em mim este meu ego
este mesmo que me faz cego
e que me dá às dores como ninguém
a iludir-me trágico da afronta que quase dor não tem
seria leve e doce
poder despir as garras com que firo e na dor que causo mirro
assim fosse
poder despir a pele por que me rasga o esbirro
E dizer-lhe a ele e a mim
"Faz como quiseres,
Tu não és mas sou eu livre por fim"
Não, não é que fosse então imortal
senhor e dono da equação que tria o bem e o mal
apenas livre desse peso que sei ser e nem nego
Ah pudesse eu com uma tesoura cortar em mim este meu ego




domingo, 7 de outubro de 2012

De volta à bola

O Porto ganhou ao Sporting. Nem sei por quantos. Saber que ganhou é o suficiente para fazer duas ou três piadolas requentadas. E basta. Mas a minha cena da bola hoje foi antes sequer do jogo. Vinha do jogging e a cortar caminho atravessei o bairro manhoso espécie de micro-cosmos manhoso na Graça típica, e que portanto é ainda mais típico. Ainda não intui completamente o perigo de passear lá dentro. Faço-o ocasionalmente. Até ver não correu mal. Até ao dia...        ... mas até que chegue ao dia hoje foi um dia e um dia não são dias. E hoje estavam alguns dos Jimbras dos costume a coçar o rabo num carro estacionado lá para o meio. Eu cresci na margem sul. Lá os artistas têm um ar diferente no guetto. Primeiro porque querem ser pretos e por isso embora pareçam sobretudo morar justamente ali a verdade é que têm um je ne sais quoi de South Central gangsta Rap. Na Graça não. É uma tribo urbana diferente e estes gajos não creio que queiram ser pretos pelo que me fazem muito mais lembrar o Banlieue dos  filmes de acção franceses. Eu passava a correr e a perguntar-me se seria bem vindo. E os tipos olharam-me como quem a ver "quem vem lá" e depois continuaram o debate da bola. "Epá, têm que dar tempo ao homem para mostrar trabalho." - Eu não ouvi muito mais do que isso mas vim a sorrir e a pensar na gíria dos futebólogos de esquina e de como transborda uma certa ternura e empatia na comunhão de ser da bola. "Deixem o homem trabalhar pá!"-  ou quando a claque deposita todos os sonhos e esperanças na promessa de craque que subiu este ano dos júniores "Sacana do puto, trata mesmo bem a bola." E cinquenta  pais de família adoptam até ver aquele filho que nunca tiveram. E claro, falamos sempre na primeira e terceira pessoa do plural. Nós e eles. Inefavelmente volto sempre a essa recordação grata em que o Rodolfo debatia com o Viriato questões éticas em torno de se o Cardozo fizeram bem em mandar calar a multidão. "Nós é que lhe pagamos o salário!" - exasperava-se o pobre Rudy. E é a magia do futebol. Ali o Rudy podia dar murros cúmplices no ombro daqueles mafiosos de esquina e piscar o olho e dizer "Han, ontem o homem lá nos resolveu o jogo."- Quando percebemos o sentimento destas coisas pertencemos todos. Eu é que não. Menos mal, a corrida chega ao fim.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

História Trágico-Marítima aka "Esta Merda em verso"

Quem vai na ponte?
suspiro...
Fosse homem que conte...
Ah, aquele que nada teme!
como diria o outro, houvesse Homem ao Leme...
... suspiro eu também...
que ao Leme vão todos e ao Leme não vai ninguém
É que nesta nau catrineta a afundar cheia de gente
Não embarcaram Messias, nem Golias, nem Pastores ou Salvadores
Há quem se o diga por treta, há quem iluda mas mente
Não vão sábios, só doutores
E vai mais, claro, vai a raia miúda a quem a esperança vai turva
de ir sempre a naufragar, nau apanhada na curva
E clamam
"É uma merda! Calha sempre aos mesmos!"
Homessa! Havia de calhar a quem?
Oh Senhores, mas digam, havia de calhar a quem?
Aos ratos que roem as sacas? Mas e encontrá-los no porão?
E ao Leme vão muitos...        ... mas ao Leme não vai ninguém!
Pois pague o povo marinheiro,
E afundem com a barca aqueles todos que lá vão
E no meio da tragédia alguém grita assim!
"Aos Salva Vidas! Mulheres e crianças, primeiro!"
Pois sim...
Mas primeiro o Capitão!
E os ratos?
Ah, criaturas de asco!
Vieram e foram com a maré...
deixaram roído o casco
E hoje apeteceu-me assim em verso
dizer que a outra não tem razão
no desabafo "Vão-se foder."
Porque quem se fode é o mexilhão

(lol)










sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A crise adiada

Hoje descia à rua e vi os putos da faculdade no frenesim da praxe. Depois, ainda há pouco cruzei-me de novo com putos. Podiam bem ser os mesmos, apinhavam a rua ao largo dos bares de Santos. Efusivos nas pinturas de guerra da noite.

Perguntei-me como estará a cidade daqui a dois, três anos.

Nas conversas de amigos não falamos de outra coisa. De futuro, qual seja, haverá?

Os putos por ora não pensam nisso.

É quase aliciante. Será que os problemas para que eu me recuse a olhar persistirão em existir?


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Rocheteau

Eu não me lembro da maior parte dos professores que tive. Como em tudo as memórias vão-se desvanecendo mesmo se algumas são recentes. Esquecemos. Lentamente esquecemos tudo. Mas houve um tempo especial que marcou. Tínhamos quinze, dezasseis anos. E éramos uns putos em nada especiais. Deve ter sido por isso que a vida não fez de nós ricos ou famosos. Mas aquele tempo foi especial, pelo menos para nós, pelo menos para mim. É por isso que me lembro. E mesmo se me esqueci de quase todos os professores que vieram depois e de outros tantos que vieram antes, a verdade é que daqueles nunca esqueci. Recordo-os amiúde, com um sorriso. Ainda consigo recordar com frescura alguns episódios. O Professor Cunha com a sua fleuma e humanidade e meio termo de vontade  e desacerto em cativar um bando de putos vagamente palermas, a Professora Luísa que nos levava à certa no seu estilo cúmplice de gajita do nosso tamanho que era quase "tu cá tu lá". O Professor Alberto, genial, cego que nem um morcego e que nos abismava de parecer que via mais que nós. A Professora de Latim. O Professor Norberto, por quem ficámos a dever uns tantos pecadilhos de putos parvos na nossa conta pessoal com Deus. Sim, recordamos-los a todos com carinho. Mas se houvesse que eleger uma memória particularmente indelével desses dias eu creio que todos exclamariam o nome do Professor Rocheteau. Talvez não fosse o melhor professor de filosofia do mundo, não, não seria. Mas o que nos ensinou foi muito para além disso. Lembro-me de uma das suas primeiras aulas e da forma como definiu as regras do jogo "Eu trato-vos por senhores, vocês tratam-me por professor. Se conquistarmos o respeito e a amizade uns dos outros tratar-nos-emos todos pelo primeiro nome, por tu." -  Começava uma viagem. Talvez com menos Kant e Platão do que o programa recomendaria, talvez. Mas uma viagem marcante, poética, estética, absurda, docemente absurda. De um homem que declamaria poesia nas aulas e se emocionaria com as suas próprias palavras. Enérgico, no seu desafio constante a que despertássemos para a melhor literatura, para o melhor cinema. Perguntaria entusiasta "E Kundera, alguém leu?" - Os putos riam, néscios e o Professor Rocheteau esboçaria um esgar enfadado "É um livro lindo. Mas vocês são um bando de imbecis que não se interessam por nada." A turma riria mais ainda. Mais Hegel, pouco mais. E depois um debate político e algures a meio o Pedro ia para a rua por disparatar. O Pedro ir para a rua era rotina mas ali ir para a rua era diferente. "Pedro, ponha-se na alheta antes que lhe atire com um apagador nos cornos!" - O Pedro ria e saía. Mas depois voltava. Ali as coisas eram diferentes e o desrespeito era uma espécie de pantomina cúmplice. Na verdade não existia.

Pôrra, passaram, 20 anos...

Há tempos juntámos-nos num jantar de memórias. Um Rocheteau grisalho, velho e mirrado do homenzarrão que era como eu o recordava, juntou-se a nós. Rimos, já sem os "senhores" e o "professor", que todos tinham passado no exame do respeito e da amizade. Como sempre o velho mestre ao centro a contar histórias que os alunos iam espicaçando deleitados. Eu ouvia e sorria para mim daquela vida tão diletante, tão profundamente trágica nos seu espalhafato agridoce de sensibilidade excêntrica e disparatada eternamente à deriva. A minha namorada, carta fora do baralho daquela noite nostálgica escutava boquiaberta em espanto: "Este velho louco foi vosso professor?" - Foi. Um professor e peras! Meio doido, claro, mas um professor e peras. Às tantas um tipo cruzou-se connosco. O Rocheteau cumprimentou-o e abriu os braços na nossa direção "São os meus alunos."

Hoje o velho Rocheteau faleceu. Recebi a notícia por uma colega desses dias. O tempo passa. Já lá vão vinte anos. Mas as coisas boas não apetece esquecer. Na minha memória ele vem lá sempre, no seu estilo jovial de hippie fora de prazo com um bando de putos a saltitar à sua volta.

Até sempre, velho mestre...